Lino Vitti - Príncipe dos Poetas Piracicabanos

Lino Vitti - Príncipe dos Poetas Piracicabanos
Lino Vitti- Príncipe dos Poetas Piracicabanos

O Príncipe e sua esposa, professora Dorayrthes S. S. Vitti

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Lino Vitti e seus pais

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Lino Vitti e seus vários livros

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60 anos de Poesia


quinta-feira, 31 de maio de 2012

ILUSÓRIO CASTELO



ALGUMA CRÔNICA (XII)
 Lino Vitti

         Castelo é para mim termo de nossa língua plenamente ajustado ao objeto denominado. Há a palavra palácio, só que esta tem um significado mais social e político e dá a entender que não é tão reservado, tão guardado como aquele aos olhos humanos, aos olhos curiosos e invejosos da sociedade. Palácio é um vocábulo até carinhoso, manso, cordial.
Ao passo que castelo como que guarda atrás de suas letras algo de fortaleza, algo dificilmente atingível, algo reservado a visitas de poucos. Ao falar castelo a mente salta  para um local íngreme, cujo acesso é proibido e só  se chega aos seus umbrais sob a vigilância armada de sentinelas, de guardas, de esbirros.
Castelo é o passado. Palácio é o presente. Castelo lembra espadas, lanças, correntes. Palácio lembra democracia, discursos, liberdade.
O castelo, à noite, ingressa na escuridão, pois deve ficar escondido aos olhos do inimigo, como a mostrar que em seu interior habitam senhores terríveis, há armas prontas para qualquer ataque, alí moram idéias rígidas e inamovíveis.
O palácio, ao contrário, ao vir das sombras, acende imediatamente a feérica multidão de luzes, como a demonstrar que lá dentro a vida é um contínuo festival de atividades, de alegrias, de jantares, de eventos sociais.
Enquanto um é criatura de um regime vassálico, de famílias tradicionais austeras e conservadores das longas e velhas estirpes familiares, o palácio segue os passos da evolução social e como que dele aquelas severas tradições fogem paulatinamente ou se transformam em elos de comunicação, de modernização, de convivências humana.
Todos os poetas – essa gente que vê as coisas estranhamente – têm seu poema enaltecendo ou condenando essa imagem do castelo de priscas eras. Para eles aquele prédio jogado nas fraldas de uma montanha, irmão dos penhascos empinados e inacessíveis – é uma criatura recheiada de poesia, quando assim não pensa a maioria dos homens. Aquela coisa assustadora, se bem a julgarmos através de seu uso nos tempos afora, é para os exquisitos vates versejadores um personagem em cujo bojo ressuma a poesia, portanto digno de ser cantado e rimado assim como o fazem, por exemplo, com uma paisagem, uma árvore, um ocaso, um céu anilado, um canto de pássaro, um silêncio escuro de uma noite taciturna.
Eu também – num momento de fuga à realidade –, – mísero imitador dessa complicada gente que rima – cometi o pecado venial de construir 14 versos para um soneto em homenagem ao “Castelo”. Leiam só como o fiz:

“CASTELO"


Nos cumes de meu Sonho edifiquei
– todo de ouro a fulgir imenso e belo -
elegendo-me seu vassalo e rei,
deslumbrante e magnífico castelo.

Nele – feliz – vivi, sofri e sonhei...
mas um dia, raivoso, me rebelo
e o que com tanto amor edifiquei
quebro e derrubo a golpes de martelo.

E qual teria sido a razão toda
daquela destruição bárbara e douda
que o castelo pusera-me aos montões?

Pudera! Nos seus paços obumbrantes
já ambulavam estranhas habitantes
        era um covil repleto de ilusões!”

(1942) – 22 anos de idade

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O CRAQUE MALUSÁ



ALGUMA CRÔNICA  (XCII)

 Lino Vitti

Bruno Malusá, já  dono  das 8l primaveras, como eu, é assíduo leitor de minhas crônicas e de Jair, portanto, leitor de  “A Tribuna” que o piracicabano   se acostumou a ler todas as manhãs.
O amigo aí tem origem na velha  Europa, tendo aportado ao Brasil, junto com o pai Francesco Malusá, a mãe Sílvia  Malusá e a mana Ada, indo dar com os costados exatamente no bairro dos tiroleses, de Santana, aí constituindo lar e trabalho artesanal de fabricação de sapatos finos, sapatões para a roça, botas, e tudo quanto tivesse o couro como matéria prima.
Nos tempos iniciais de Brasil, Malusá, esposa e filhos dividiam a casa da roça onde eu vivia, formando uma família e outra uma coisa só. Assim eu, da mesma idade de Bruno, tinha-o como irmão, participando dos mesmos brinquedos, da mesma escola, das mesmas aventuras de infância, das mesmas caçadas a borboletas e pássaros inocentes, das mesmas peripécias pelos ribeiros  do sítio , quiçá até dos mesmos sonhos de vida.
Com o crescimento da sua indústria de calçados, a ampliação do mercado e o aumento exuberante da família, o pai Malusá montou o seu trabalho artesanal de couros em casa  mais adequada no bairro propriamente dito de Santana, onde prosperou até transformar-se na famosa Sapataria Santana, depois loja de calçados de todos os tipos, com fama correndo o mundo, podendo ainda hoje ser visitada à rua XV  de Novembro, no centro da urbe piracicabana, transformada num grandioso estabelecimento, orgulho do comércio desta cidade.
Em belo artigo publicado na edição de 28 de novembro de “A Tribuna”, Bruno Malusá  mimoseou-me a mim e ao companheiro de crônicas Jair, para  nos dar um puxão de orelhas pelo esquecimento, involuntário sem dúvida, de suas qualidades futebolísticas, demostradas não só na equipe rural de Santana, onde Bruno foi sempre destaque, mas também nos muitos  times de que participou nesta cidade, na promoção de diversos campeonatos e na conquista de gloriosas vitórias esportivas, um craque, no verdadeiro sentido do termo futebolístico. Essa bela participação de Bruno nos esportes dos bairros trentino-tiroleses e nas disputas citadinas, nem sempre foram devidamente lembradas (queixa-se o craque Malusá) pelas nossas (minha e de Jair) crônicas a respeito desse tão jubiloso quão recordativo tempo em que o fogoso jogador  Malusá  era tal e qual um rei Pelé italiano.
Pedimos escusas ao Bruno por alguma omissão imperdoável, mesmo porque a memória já anda um tanto embrutecida, fácil assim de cometer enganos ou  deslembranças.
Uma coisa é certa. Bruno é muito cioso de tudo quanto fez e faz na vida. Sua vida, aliás é um rosário de iniciativas vitoriosas, de lutas vencidas, de realizações levadas a cabo. E tudo isso sem esquecer suas terras de  nascimento que visita de quando em quando no velho mundo, e nem ignorar o amigo de infância com quem participou de belos ou terríveis brinquedos  nas terras do saudoso Bepi.
  Ao ler o artigo de Bruno, em “A Tribuna”,  recordei aquele estudante da Escola de Comércio do Prof. Zanin, quando eu, futuro jornalista e escritor, mantinha um semanário editado manuscrito e ele, cheio de ideais e de vontade  de ajudar, colaborava com sua verve jornalística, sempre polêmica e entusiasta, o que dava brilho  às páginas do jornalzinho, Entre os meus guardados daquela época, tenho muitos números dessa saudosa folha  encadernados em volume. Terei o prazer de levá-la ao Bruno para que reviva  os felizes tempos estudantis em companhia de José Pupim, Telmo Otero, Irmãos Corder, Adelina Campassi, João Guardia, e uma infinidade de colegas, cujos nomes e recordações, não caberiam no pequeno espaço de uma crônica.
  Diz-me o Bruno ao telefone que os anos pesam. E como, digo eu! Ainda bem que esse diabo de tempo não conseguiu felizmente obscurecer a nossa memória, permitindo que para além dos 81 ainda possamos escrever alguma coisa sobre nossa infância, adolescência e mocidade.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O INESQUECÍVEL “PRATO DO DIA”



ALGUMA CRÔNICA (XI)

Lino Vitti (Inativo Municipal e aposentado do “Jornal”)

Quem vive ou viveu a maravilhosa vida do jornalismo está sempre sujeito a ser envolvido em fatos e histórias imprevistos. Cada diretor, cada funcionário, cada redator, cada revisor, cada impressor, cada linotipista (hoje digitador), cada entregador, têm infalivelmente algo a contar. Tais acontecimentos guardam um sabor especial e revivê-los às vezes é como chupar uma bala de café, como a que estou gastando neste momento em que datilografo, no velho sistema do teclado martelinho (ah! como deve ser antiga a máquina desse cara, pensarão muitos!) e garanto que não erra.
Certa feita, só para confirmar minha afirmativa acima, eu e o Prof. Oracy Segredo (servo muito querido da família Losso) procedíamos à revisão da matéria sobre necrologia. Era preciso muita atenção, para não saírem nomes e datas errados, eis que as famílias dos falecidos, em caso de erro, não perdoavam ninguém. O telefone tilintava na sala do diretor e o “puxão de orelhas” vinha evidentemente. Pois é, mesmo assim, aplicados eu e o Oracy para que tudo, no dia seguinte, mostrasse obra perfeita, naquele dia deu-se a tragédia, acontecida durante a noite, é claro. Uma das necrologias, por obra do capeta, apresentou-se nada mais, nada menos do que assim: “Faleceu ontem, às 20 horas em sua residência o sr. (nome), aos 79 anos de idade, contendo dois quartos, sala de jantar, banheiro, cozinha e quintal grande”. O sepultamento dar-se-á às ... horas, saindo o féretro do velório nº.. da Santa Casa, “Tratar com o sr...... na rua ... nº .. Fone...”
O empastelamento foi total e grave. Oracy e Lino Vitti, na oportunidade tiveram as faces esquentadas pela reprimenda lógica do dr. Losso. Que saudades desses tempos!!!
Lembro isso para comprovar apenas um dos fatos que ocorrem na vida de jornalistas e trabalhadores de jornais. Há outros bons, ótimos, gloriosos. Vou citar também apenas um desses eventos.
Zanzando pela cidade, muitas vezes costumo encontrar pessoas, velhos conhecidos ou outras que nunca vi. Pois bem, noto que tais concidadãos querem travar conhecimento com este escriba octogenário. Dou-lhe trela, o que acaba de provocar nesses amigos perguntas imprevistas:
- O sr. é o Lino Vitti?
- Sim, em carne e osso.
- O sr. escreve em jornal?
- Embora aposentado como redator, ainda colaboro na imprensa da cidade.
- É o senhor que escrevia o “Prato do Dia”?
- ???... Sim. Mas por que a pergunta?
- Não é nada, não. Acontece que eu lia todo o dia a sua crônica no “Jornal de Piracicaba”  e gostava muito do que o senhor escrevia. Por que não escreve mais?
Não foi um, nem dois. Foram muitos os que me encontraram depois de 15 ou 20 anos que já não se publica mais a crônica “O Prato do Dia”, criação jornalística de Losso Netto, iniciada pelo saudoso Tuca e continuada por mim por quase 10 anos, para fazerem as mesmas perguntas acima transcritas, e tecerem louvores compensadores àquela coluna que não só agradou a inúmeros leitores do “Jornal”, mas sei que se constituía em verdadeiro “prato literário” de Losso Netto que me afirmou certa feita simplesmente o seguinte:
- Sabe, Lino, a primeira coisa que vou ler no meu jornal, na hora do café da manhã, antes do noticiário, os artigos e editoriais, é o seu “Prato do Dia”. É realmente um “prato” para ser degustado bem cedinho. Que fala maravilhosa, gratificante, compensadora!
Quando alguém, conhecido ou desconhecido, vêm perguntar-me, depois de tanto tempo de seu desaparecimento, por quê não se publica mais “O Prato do Dia”, sei então o quanto entra no gosto dos leitores escrever coisas simples, humanas, do dia-a-dia, que os leve para o mundo dos sonhos, da poesia, da simplicidade das coisas e pessoas.
  

OS PRIMOS CAÇADORES (EX)



ALGUMA CRÔNICA (X)
Lino Vitti

Dedico esta singela crônica a uma pessoa muito especial, a um colega de mais de 40 anos que, a bem da verdade, me ensinou a pescar e a caçar, quando Constituições e Leis (muito oportunas, é bom que eu registre) silenciavam sobre esses dois esportes, oriundos de longínquos tempos, praticado por todos os povos, inclusive perdurante ainda em velhos países europeus. Estas nações regulamentaram de tal forma essa prática que a ecologia não sofre conseqüências funestas. Existe uma efetiva fiscalização quanto ao cumprimento das leis sobre o assunto e assim governos e caçadores ou pescadores vivem em concórdia esportiva.
Voltando ao companheiro e primo, posso escrever com todos os éfes e érres que ele foi um mestre na arte venatória e piscicatória, por isso capaz de me ensinar todas as manhas, espertezas, decepções e alegrias desse já longínquo divertimento. Lembro-me, por exemplo , quantas vezes, enfrentando o inverno, a chuva, a cerração, madrugava em sua casa, empacotado em roupas pesadas, chapéu na cabeça, narinas fumegando, mãos geladas e pés idem, só para chegar aos locais previstos com tempo de acordar a passarada ou então meter os anzóis no fundo das poças dos ribeirões, pois peixes e animais costumam erguer-se da cama muito cedo, para saudarem o dia e protestarem contra a invasão de seres humanos, mal intencionados em levá-los para o almoço ou para o jantar, num acompanhamento especial com a polenta preparada pelas consortes.
A pescaria ou a caça figuram, penso eu, entre terríveis penitências preparadas pela vida. Sim porque tanto uma como outra é mais o trabalho que dão do que a recompensa que propiciam. Espinharais, capinzais, cobras venenosas e não venenosas, vespeiros zangados, aranhas enormes, formigas, tropeções, cabeçadas, cipoais, morros, declives, terríveis tatoranas, são alguns dos imprevistos empecilhos que enroscam em dificuldades os passos dos aventureiros madrugadores. Muitas vezes, a fome e a sede vêm fazer companhia aos frustrados caçadores ou pescadores, quando não aguaceiros imprevisíveis desabam sobre eles, trazendo consigo as indesejáveis conseqüências.
Quantas vezes o primo, todo muque e saúde, não teve que livrar-me o carro do atoleiro?! Quantas vezes viu-se obrigado a perfazer longas distâncias, sob a chuva ou o frio para encontrar socorro com que livrar dos enguiços o velho Maverik?! Quantas vezes o paciente primo necessitou correr para o local, nem sempre próximo, onde este escrevinhador medroso gritava ao ver enrolado pacificamente no chão, entre os ervaçais, a perigosa cascavel ou quando muito um filhotinho de jaracuçú?!
Raras foram as vezes em que a diversão resultava em satisfação, em recompensa.
Tudo, entretanto, neste astro cósmico gira como ele gira no espaço. A vida gira, os acontecimentos giram, e aqueles tempos, saudosos sem dúvida, giraram também para o passado. Está cheio o mundo de gente como estes dois primos, que recordam, recordam, e ficam pasmos por ver que tudo muda, tudo se esvai. Caçadas e pescarias nunca mais! Só fica aquela coisa no fundo dos tempos, enquanto a gente se põe a matutar por que há de ser assim? Por que a vida não passa além de um rolar para trás, de pessoas, de fatos, de coisas!
As diversões, que fazem parte da vida, são também fugidias. Sempre há algum fato ou pessoa que vêm mexer-lhes no encanto e no prazer de que gozaram durante um trecho da vida deste ou daquele cidadão.
Na roça, sabem-no os ornitólogos e os roceiros, há um pequeno columbídio cujo canto diz “fogo apagou”. É uma advertência para o homem de todas as idades. O fogo, o fogo dos tempos queima e se compraz em apagar tudo quanto foi escrito por ele mesmo nas páginas da vida.
Pescarias e caçadas dos indefectíveis primos, “fogo apagou”. Apagou para nunca mais!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Santana X Santa Olímpia F.C.



ALGUMA CRÔNICA (VIII)

   Lino Vitti

Não foi uma, mas sem conta, as vezes em que se defrontaram as equipes de futebol de meus bairros natais – Santana e Santa Olímpia.
Como o Brasil é o país de futebol, nada mais natural que o esporte bretão se espalhasse por todos os recantos nacionais, gerando milhares de craques e de campos gramados onde a pelota não teria sossego, impulsionada pela arte dos pés, pela astúcia dos dribladores, pelas violência dos chutes, pelas defesas sensacionais, e por que não, pelo surgimento de legiões de árbitros geradores dos contumazes descontentamentos das torcidas.
Em qualquer lugar do Brasil há sempre quem consiga aplainar e gramar um pedaço quadrado ou retangular de chão, armar, com três paus roliços ou não, as traves desejadas, muitas vezes com o luxo de redes bem trançadas, pintar no solo as figuras geométricas exigidas pelas regras futebolísticas, estufar de ar a indispensável bola, ajuntar os vinte e dois “pernas-de-pau” e dar assim feitio e qualidades a um time de futebol, não só para diversão domingueira do bairro, mas como representação turuna da comunidade nas disputas pela hegemonia desportiva dos auto-didatas da categoria.
Santana e Santa Olímpia, bairros rurais piracicabanos envolvidos nos passos rápidos de um progresso cívico-esportivo, não escaparam do avanço universal do futebol, razão porque em cada um deles floresceram entusiásticas equipes futebolísticas em cujas fileiras lutavam irmãos, primos, tios, cunhados, amalgamados na mesma vontade de vencer e bem representar a própria terra.
Daí um imenso e constante desafio entre os bairros trentino-tiroleses, cujo gramado, nas tardes de domingo, reunia acirradas equipes de jovens numa férrea disputa para conquistar os louros de uma vitória, se não a poder de técnica futebolística, certamente a poder de vontade esportiva, de união de idealismo e esforço concentrado para colocar, entre o retângulo – guardado por troncudo goleiro – aquela coisa redondinha, estufada de vento – que se convencionou chamar de bola – o maior número possível de vezes. 
Enquanto isso, circundando o gramado, exigindo nivelamento urgente e adequado aos passes entusiásticos dos craques, a torcida santanense ou olimpiense, segundo o local em que a partida se realizava, vibrava a cada lance, empurrava o seu time para a frente, e se esbaldava em gritaria infernal quando o Gim, o Nôi, o Carlos, o Bepi, os irmãos Silvio, Chiqueto, Toni, ou qualquer daqueles bravos heróis futebolísticos, num pelotaço incrível transpunha a linha fatal da meta.
Contam-se memoráveis partidas entre os ditos bairros, com a vitória ora a pender de um lado, ora do outro, com comentários prós e contra durante o transcorrer da semana inteira, com louvores ou críticas ao árbitro improvisado, com relembrança de lances espetaculares, sobressaindo sempre a coragem, técnica, o oportunismo deste ou daquele jogador. De uma feita, fiquei sabendo através do saudoso Tuca, repórter do Jornal de Piracicaba – no mundo da bola conhecido como Nelsinho – que um forte esquadrão formado de verdadeiros craques de Piracicaba, como o próprio Tuca, Moacir, Coringa, Tito, Guanito, e outros não menos famosos integrantes do passado do Monte Alegre FC., e Sucrerie (Ex-Clube Atlético Piracicabano – CAP), foi convidado para uma disputa com o Santana FC., onde jogava até um senhor de pés descalços (Bepi Barbudo). Ao final, a vitória foi mesmo do Santana FC. O que serviu de glorificação da equipe por muitos e muitos anos seguidos.
Observo, entretanto, que as “brigas” esportivas entre Santana e Santa Olímpia, apesar de tremendas, árduas, e disputadíssimas, não serviam para criar desavenças maiores entre os bairros, ao contrário, penso eu, serviam sim para uni-los cada vez mais e defender com unhas e dentes o próprio valor esportivo, esse valor incontestável que o mundo oferece a cada momento aos próprios povos que encontram no futebol, não só um motivo econômico, mas uma razão de paz e entendimento, de união e defesa de valores humanos.

domingo, 27 de maio de 2012

BARCOS E NAVIOS



ALGUMA CRÔNICA (VII)

Lino Vitti

Lauda branca no rolo da vetusta máquina de escrever (eu ainda não consegui entrar na era de computador e internet), dedos já atacados de irremediável artrose a postos, cérebro batucando para descobrir o tema a ser grudado na branca lauda, o olhar, sob a mira de uma atrasada sonolência, acabou por subir pela parede caiada acima, e aí descobrir um óleo esmaecido – obra pictórica de algum pincel familiar – onde se fixou por seguidos segundos.

E nesse gesto acabei por encontrar assunto com que preencher a brancura de lauda de sulfite. Ali estava na pintura do quadro uma possibilidade de atender esta obrigação cronística – tentação jornalística da qual não consigo me desvencilhar, mesmo ultrapassada a casa dos oitenta. Não sei se digo que os cronistas são gente privilegiada, pois conheço muitos que cronicaram até a morte, ou se digo que são vítimas de uma doença intelectual, crônica como a própria crônica.

E o quadro, pergunta-me você? O quadro da parede que dizia? Não dizia nada, mas dizia muita coisa, mesmo envolto naquele contínuo silêncio que castiga toda e qualquer arte pinturesca pendurada num prego espetado na parede. Os quadros, as pinturas, as fotos, as estampas, as folhinhas coloridas que costumamos enforcar numa parede ( e meu lar, graças a dedicação artística de esposa artista, tem todas as paredes embelezadas por telas próprias, de famosos pintores piracicabanos e filiais), dão uma impressão de cultura, de gosto, de consideração pelo belo, seja moderno ou seja antigo.
O quadro, respondo agora, era (e é ainda, porque lá está à vista de quem quiser) nada mais nada menos do que um oceano ondejante sobre cuja superfície undosa navegam duas caravelas, modelo Cristóvão Colombo, singrando rumo a um horizonte que não se vê onde vai dar, aliás como todos os horizontes. A obra marítima não traz autor, mas acredito ter brotado da cachola de algum filho ou neto que, jamais sonhou, viria um dia a servir de tema para um pai ou avô atrapalhado com a fabricação de sua crônica de obrigação jornalística.
De qualquer forma, ali estão as caravelas audazes, enfrentando um oceano imenso, possivelmente ameaçador. E daí parte-me a fantasia para o mundo da   navegação , vendo, no fundo dos tempos, gregos e romanos, saxões e “viquings”, Vasco da Gama, e Colombo, e Pedro Álvares Cabral, latinos e portugueses, espanhóis e ingleses, todos desafiando os mares, os ventos, as tempestades, as milhas, o desconhecido, os mistérios, os horizontes, as borrascas e as calmarias. Aqueles primitivos navios à vela, trouxeram-me à lembrança a enormidade das naves de hoje, dos transatlânticos, dos porta-aviões, dos couraçados, para os quais não há distâncias nem inimigos oceânicos. Volvem ao redor do mundo rapidamente com toda a segurança, gargalhando para os tufões e os abismos undíferos.
E na seqüência, o galope da fantasia trouxe perto do mundo das recordações a figura de Guilherme Vitti, Abrahão Stênico, Davi Stênico, e outras figuras de seus velhos amigos, quando entre suas diversões dominicais teimavam transformar um enorme caixão, todo cheio de fendas por onde infalivelmente adentrava a água aos borbotões, em barco navegador de “grandes” poças que os ribeiros de então costumavam encher ao longo de seu curso. O que será que havia naquelas cabecinhas juvenis? Talvez virar marinheiros? Anseios de viagens marítimas, que mal cabiam, mesmo como sonho naquelas pequenas lagoas, repletas apenas de faiscantes lambaris?
Penso eu que todos nós temos um pouco de marinheiro na cachola. Basta ver que são muitos os poetas que, talvez impossibilitados de viajar oceanos a fora, metem em versos seus desejos irrealizados, como é o caso do “príncipe dos poetas paulistas”, Guilherme de Almeida: “que os meus barquinhos lá se foram eles/, foram-se embora e não voltaram mais”, disse.  

sábado, 26 de maio de 2012

AS LAVOURAS



ALGUMA CRÔNICA  (LXXXI)
Lino Vitti
      
Lavoura, ensinam os dicionários, é tudo quanto diz respeito à agricultura, como o preparo da terra,  a aração, a gradeação, o plantio, a capinação e a colheita., seja para grãos  ( milho, arroz, feijão, soja) ou gramíneas (cana de açúcar) ou fibras como algodão  e ainda tubérculos, como a batatinha e a mandioca.
Lavrador  pois se chama aquela pessoa  que cuida da lavoura ou roça, o roceiro como gostaria  muito de ter sido na vida.  Na vida porém nem sempre acontece como a gente quer ou gostaria de ser.
Voltando a falar da lavoura  posso dizer sem errar que  esse tipo de coisa praticamente  não mais existe nos meus bairros de infância, pois  com o andar dos tempos mudou muito o modo de viver daquela boa gente de minhas origens. As gerações de hoje  só conhecem a lavoura cana-de-açucar , existindo jovens   e crianças  que desconhecem como foram as plantações de arroz, milho, feijão, batatinha, algodão  e outras . Desconhecem  outrossim as belezas naturais  dessas lavouras. Nada mais belo do que ver  o mar verde do milharal  se estendendo pelas terras  , brilhando ao sol, afagado pelas brisas , apendoado por cabeleiras de flores , espichando  espigas  encabeladas e coloridas , embonecando  e engranando , como que anunciar  a fartura da colheita.  O arrozal, em geral plantado  na várzea , ondulava  sempre tangido por frescos ventos , embarrigava (é a palavra que se usa entre lavradores) para soltar em seguida a maravilha dos cachos  engranados , para a alegria dos  donos da colheita . A  “malhação” do arroz é um ato do roceiro que jamais se apagará da minha lembrança . Esta lavoura, além de rendosa, bonita e alimentar , constituia-se  em  motivo de alimentação dos pássaros campestres, como rolinhas, nambus,  pombas  e a sementeira depois da colheita  atraia papa-capins, tisios, pintassilgos,  em grande profusão.  Plantava-se algodão e café , duas espécies  de lavoura que desertaram daquelas localidades,  Que maravilha um algodoal em ponto de apanha!  O solo  virava um lençol de brancuras  macias  que o pessoal recolhia em enormes sacos  e aventais , parecendo todas mulheres `a  espera de nenê no último mês de gestação.
Hoje meus bairros de origem como que perderam  a beleza da policultura, a graça e o encanto da lavoura variada , dando lugar à monotonia  dos canaviais !  Plantações lindas como as de café, algodão, arroz, milho , batatinha, talvez nunca mais. Só na saudade  dos mais velhos ainda vivos. As novas gerações não sabem o que perderam .
A natureza cria  maravilhas, encantamentos, preciosidade. Nada mais lindo  do que ver a exuberância verde de um arrozal  ou milharal, um cafezal mostrando seus grãos maduros, vermelhos, pedindo apanha. Quando uma roça de milho começa a enbonecar, isto é, a mostrar os primeiros  fios  dos cabelos da espiga , o homem do campo se alegra pois é uma promessa real  de que a safra será muito boa.
Apesar das dificuldades que acometem o lavrador e as dúvidas  que surgem às vezes diante  das mudanças e indecisões do tempo,  a lavoura ainda vale muita coisa e serve como estímulo  para uma vida mais feliz.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

De Caipira a Príncipe


 Lino Vitti (Príncipe dos Poetas Piracicabanos)


          Poucos (entre eles quiçá apenas os  prezadíssimos  escritora,  poetisa e colunista Ivana Negri e o lídimo poeta Ésio Pesatto) sabem que Piracicaba litero-acadêmica tem um velho poeta (92 anos e pico), eleito pela Academia de letras Piracicabana, Príncipe dos Poetas de Piracicaba. Honra literária e cultural que dignifica quem quer que seja.
        Já fazem muitos anos que recebi tão dignificante titulo que serve para premiar os  mais de 70 a 75 anos de minha participação na cultura poética piracicabana, divulgando amiúde na imprensa doméstica (hoje não mais pelo JP que eliminou a Poesia de suas páginas, ignorando a leva de  poetas e poetisas com que ela é presenteada pela cultura universal),  a produção dessa classe destacada dentro da arte escrita de que somos um povo rico e glorioso.
        Fomos assim cerceados em importante parte publicitária de fazer chegar ao povo os nossos sonetos, nossos poemas, nossas rimas – nossa poesia enfim – a digna e condigna poesia piracicabana.  Felizmente e em consideração à cultura desta terra onde floresceram reais e valorosos poetas (isas), a Tribuna de Piracicaba, num gesto de nobreza para com essa manifestação da arte e beleza, assumiu a maravilhosa responsabilidade de atendimento ao nobre setor da poesia que Francisco Lagreca iniciou e a que a plêiada de  artistas do verso  e rima deu continuidade levando à frente a bandeira da Poesia que imensos poetas do mundo sustêem bem alto, como mostra de amor e respeito aos que sonham  em  estrofes de poemas e sonetos e aos que se deliciam com esse grandioso valor humano da inteligência e amor à arte. 
        Sinto-me no dever de, como Príncipe da Poesia piracicabana implantada por grandes poetas, dizer a este tradicional matutino o Deus lhe pague pelo apoio que tem dado e vem dando  aos nossos brilhantes poetas divulgando uma página semanal a cargo de dois expoentes de nossa cultura poética: Ivana Maria Negri e Ludovico Silva.
        E agradecer à nossa Academia de Letras o reconhecimento dessa  manifestação cultural, através de uma revista onde se registra a atividade de seus membros nesse importante setor da arte e beleza escritas.  E. de modo especial agradecer a  concessão generosa de Príncipe dos Poetas que carrego com orgulho e muito feliz.                                                                                                                                         

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O SABIÁ



ALGUMA  CRÔNICA  ( LXXXIII)
Lino Vitti

     Poetas e escritores gastaram páginas e páginas , rimas e tropos, para dizerem algo sobre esse pássaro-símbolo , personagem  do mundo alado que se está tornando , ao menos nesta região piracicabana , cada vez mais raro , cada vez mais fugidio , tanto que, suponho, as próximas gerações nem sequer saberão da existência  por estas plagas de uma ave tão canora, tão significativa, tão poética..
     Quando este impenitente  rimador  se propõe a escrever sobre esse tipo de coisa , de  entes que povoaram um passado sublimado , de animais ou  pássaros que se perdem  na penumbra do ontem, recorre aos seus dias infância, deliciosamente vivida  na rusticidade  gostosa da vida campesina, pois é aí, em meio a esse ambiente puro  e divino  que vivem na saudade  e na lembrança tantos fatos belos, tantas  situações encantadas, tantos inícios de sonhos e  esperanças nem sempre concretizados.
    E é lá, nesse país mirífico, habitado pelas belezas naturais  e pelos seres  silvestres que encontro motivos e coisas que me governam a dedilhação do instrumento que serve para colocar em letra de forma  tudo aquilo que o cérebro esquenta  e tira  dum mundo ido e desaparecido.  E dentre esses longínquos motivos surge , numa visão  enriquecida de recordações, a figura singela, mas musical ,  do  sabiá .          
    Eu diria que o sabiá é o amanhecer  e o entardecer,  São essas suas horas prediletas de apanhar sua flauta vocal  e dedilhar sonoridades imorredouras. O homem, quando o sabiá descerra o bico  para flautear sua canção canora  pára. E põe-se de ouvido atento.. Quando o sabiá canta a natureza pára para ouví-lo  e saborear aquela melodia entrecortada de  melancolia . Quando  o cantor dos laranjais  desfia sua ária , num canto escondido  da paisagem, todos os pássaros param  para escutá-lo  e para aprender como se musicaliza uma tarde  tristonha ou um amanhecer generoso.
      Dizem e escrevem que  quando o  uirapuru  se põe a dobrar, toda a floresta silencia para ouví-lo, numa homenagem  encantadora e sublime. A floresta amazônica cessa os seus rumores para desfrutar  daquele musical único no mundo , digno pois do silêncio de todas as outras aves. Diria assim que o mesmo ocorre quando o sabiá  de peito vermelho , no recesso  de um laranjal  desfia sua melodia , a ecoar pelo recesso florestal e a paisagem morrente da tarde engalanada de luz.
O homem da roça escuta e medita. Recorda e sonha  ao sabor daquele canto. Nada mais belo do que, ao despertar do dia, ouvir-se  um sabiá madrugar, desfiando suas notas canoras, como que uma saudação ao sol luminoso, como que um clarim a  clamar que já é dia. As brisas levam pela distância além o trinado  maravilhoso  desse pássaro especial da ornitologia brasileira .  enchendo  de notas 
melodiosas os vales e as colinas ,  musicalizando  a alma das tardes e das manhãs rurais.
             Há  muitos sabiás  que não desfrutam da  amada liberdade . Não importa porém, porque mesmo  por entre  grades  o pássaro não esquece  de sua melodiosa  incumbência, premiando os seus donos com  horas  de lazer canoro . Muitas vezes  tive oportunidade  de ouví-lo  em cativeiro, quando  o angustioso trinar da  avesita  não deixa de sublimar  a vida  e  encantar o homem. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

SONHOS E ILUSÕES



ALGUMA CRÔNICA (V)

 Lino Vitti
           
Dou-me por feliz por haver-me Deus conduzido até aqui. (Muitos dizem e afirmam até que Deus não se imiscuiria na vida do Homem (maiúscula porque me refiro a todas as pessoas, seja homem, seja mulher, seja criança). Ora, interrogo, se não existe uma força ciclopo-cósmica que dirige o destino dos homens, quem ou o que atuaria de forma tão presente e constante sobre nossos passos, nossos pensamentos, nossa inteligência, nossa compreensão, nosso conhecer e amar? A razão repudia a negação existencial dessa forma universal e eterna, pois falta-lhe outra convicção melhor, para me dizer que Deus não existe ou que não governe essa coisa que aí está: a vida, o universo, o entendimento, a morte, o esquecimento.
Não é apenas isso que nos torna crentes da eternidade. Pergunto-me muitas vezes, quando a insônia chega e persiste, o que devo pensar sobre o sonho. E por que sonhamos? Dão-se mil e uma explicações biológicas sobre esse estranho pensar e agir enquanto se dorme. Enfileiram-se incontáveis explicações psicológicas. Todas porém se desmancham como bolha saponácea, porque o sonho está fora de qualquer explicação humana.
Sonha-se muitas vezes com coisas impossíveis e irrealizáveis! Sonha-se outras tantas com contrasensos e irrealidades! Sonha-se, uma noite, algo como estar no céu enquanto muitas outras  é o pesadelo que nos ronda e estraga as noites indormidas.
É o sonho, - meus incorrigíveis sonhadores -, viver fatos, pessoas ou coisas fora de nós mesmos, em plena inconsciência da verdade, mas que às vezes deixam rasto. Rasto que pode durar alguns minutos, horas, dias, talvez muito tempo, entretanto, fatalmente desaparecerá tão rápido como rápidos são os sonhos que nos vêm perturbar.
Há, porém, sonhos e sonhos. Há os que nos visitam durante o dormir. Voláteis, imprecisos, insensatos quiçá. Sobram-lhes impossibilidades de realização. Dizem os poetas que são fementidos, enganosos, imprevisíveis. Os melhores, todavia, são os que sonhamos acordados, de olhos abertos, vendo o mundo ao nosso redor, vendo a vida caminhar através do mundo.
Existirá alguém sob o céu que jamais tenha sonhado acordado? Creiam que não. É próprio até do bípede edênico ficar horas, dias, meses e anos, sonhando, sonhando, olhos abertos para tudo quanto o circunda.
Quando sonhamos acordados, é sempre bom. Nessa hora sonha-se azul, sonha-se com a felicidade, sonha-se com um belo e grande amor, sonha-se com alegrias e alegrias, com maravilhas e maravilhas!
Uns arquitetam viagens; outros, a solidão. Este, com a vida no campo; aquele, com o tropel citadino. Eu quero uma profissão que me dê muito dinheiro, você se contenta com a singeleza de servir, por qualquer forma seus concidadãos. Todavia, como devem ser felizes aqueles que fazem, agem e vivem, indiferentes ao sonhar, ao supôr, ao esperar!
 A ilusão é companheira inseparável dos sonhos. E é porque os sonhos presentes ao dormir não se realizam nunca, o que já é motivo mais que suficiente para taxármo-los de ilusórios. São isto porque, mal despertamos nós, são eles esquecidos, desfazem-se com a rapidez de um relâmpago, ou estouram como as bolhas coloridas de sabão que costumamos locupletar do sopro que nos vem do peito.
Os sonhos com que a vida nos brinda quando despertos, assumem maior realidade do que aqueles, geram esperanças, e podem ser perseguidos por pouco ou por muito tempo, segundo têm eles a capacidade de nos atrair e enganar.
Ah! Quantas coisas almejamos! Por quantas coisas oferecemos nossas ânsias sonhadas, nossa ventura entressonhada, nossa felicidade fugidia, “nossas esperanças malogradas” (segundo o poeta santista)!
Quem de nós, acaso, nunca sonhou?! Quem de nós, repito, deixou jamais de perseguir esse vagalume enorme que é o sonho da felicidade terrena! Quantos, por outro lado, não sonham esperançosos e confiantes numa eternidade suprema de um Céu?!

terça-feira, 22 de maio de 2012

INFLAÇÃO, POIS NÃO



ALGUMA CRÔNICA (LXV)
  
   Lino Vitti

Estranhem os possíveis leitores enveredar esta crônica, ao contrário do que trazem as antecessoras, pelo assunto pútrido da inflação, essa coisa poderosa que no Brasil tem força arregimentada para depôr, via eleitoral, governos e ministros. Ou, quando não, colocá-los no pódio do Poder.
Não há  que se estranhar essa afirmativa, pois é caso recentíssimo de reeleição de um Presidente da República fundamentada nessa coisa mal cheirosa dita inflação. Motivo primeiro e único de um governo, fomos sumariamente mal-tratados pelo programa governamental do combate à inflação, cuja vitória (como supõem muitos haja ocorrido)  levaria de roldão o restante dos problemas nacionais e estrangeiros, abrindo-se para o país uma aurora de tranqüilidade política, social, eleitoral, executiva e legislativa.
Bateu-se na tecla anti-inflacionária por oito anos consecutivos (dois de Itamar e seis de FHC), mas pelo jeito e pelo visto não foram suficientes para chegar a uma “estrondosa” vitória, pois decorrido todo esse tempo a desgraçada personagem, cuja presença assusta governantes e governados, ainda continua andando por aí, fazendo das suas, isto é,  corroendo a economia nacional, estadual e municipal, apesar das decantadas afirmações economísticas de que teria sido debelada e reduzida a índice insignificante.
Há dois tipos de inflação, segundo os conceitos modernos que se tem dela: a primeira é aquela baseada na subida dos preços, taxas, impostos, tarifas e quejandos; a Segunda é a percentual que corresponde à diferença entre o dinheiro colocado em circulação, no caos em que haja necessidade de se socorrer o Estado debilitado financeiramente ou estraçalhado pela necessidade de emitir dinheiro novo, fazendo funcionar as maquininhas da Casa da Moeda ou correndo em busca de numerário estrangeiro para cobrir o déficit nacional.
A atual desinflação, decantada em lôas políticas e econômicas pelo governo, corresponde à hipótese da primeira definição, isto é, redução de preços, o que tornaria a vida do povo maravilhosamente boa, se a par do combate se adotasse a prática das melhorias salariais, tornando-as compatíveis com essa suposta redução de preços, taxas e serviços. O congelamento, entretanto, das possibilidades salariais do povo, criou o desemprego e os trabalhadores se viram diante de uma situação enigmática, pois sem melhoria de rendas, sem ganhos salariais, de que adiantaria a redução de preços de alimentos e utilidades? Em conclusão: não há inflação, mas também não há dinheiro, o que dá na mesma se houvesse inflação e os salários (lacto sensu) fossem premiados com a correção monetária correspondente ao menos a uma parcela do índice inflacionário.
O outro tipo de inflação fundamentado na diferença entre a moeda circulante e as emissões correspondentes (que não foi absolutamente derribada pelo governo), é a que massacra hoje em dia o povo brasileiro.
Como ousas, bisonho economista, jogar nas páginas de um jornal essas esdrúxulas afirmativas, pode interrogar-me alguém entendido mais do que eu nessa matéria intrigante que é a economia de uma nação?
- Esdrúxulas, uma ova, respondo. Positivas, sim. Positivas porque ruem por terra os argumentos dos financistas de plantão de que não houve emissão de moedas (o que deve ser apurado por constituir-se segredo de Estado!), portanto, cairia por terra também a Segunda hipótese da inflação, que corresponderia ao índice da diferença entre o meio monetário circulante e à emissão de moeda nova para cobertura da falta de dinheiro para o Estado pagar seus compromissos.
E esta inflação que deve ter um elevadíssimo índice existe hoje sibilinamente camuflada ou não mencionada por ninguém, nem pela mídia, nem por instituições estatísticas, nem pelo próprio governo, a quem, aliás não interessa.
A cobertura dos déficits, antes feita com a emissão desbragada do dinheiro brasileiro, hoje é feita pelo empréstimo avalizado pelo FMI, uma fábula de dinheiro que entrou na economia pátria e hoje é responsável por um banquete de juros aos credores estrangeiros, portanto, tudo somado, capital e juros, é de acreditar – se produza uma inflação (segundo tipo) capaz de arrasar, como está arrasando qualquer país, inclusive o nosso.
Em síntese: é balela dizer e publicar que a inflação está por volta do 0,5 ou pouco mais por cento. É conversa para boi dormir.... e para se enganar. Ela está tão alta quanto os juros que se paga por esse oceano de dólares ingressos no país, via FMI.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

BESOUROS E POESIA


ALGUMA CRÔNICA (LXII)

                                                                            Lino Vitti

Cronista, reconheço-o, dizem que é maluco. Para montar seu trabalho lança mão de todas as retóricas, inventa os mais esdrúxulos assuntos, escreve sobre tudo e sobre todos, e neste “todos”, incluam-se bichos, pássaros, peixes, montanhas, horizonte, temperaturas, sobrando o resto para falar do animal racional, dito homem ou mulher.
Assim sendo, nada mais natural que um cronista, ao mesmo tempo poeta, vá encontrar motivo num besouro, envolvendo-o com a sua especialidade que é a poesia. “O BESOURO E O POETA” escrevi eu, sonetando um tanto quanto. Especializei-me em sonetos, razão pela qual a maioria de minha poesia vem gravada nessa forma concisa de poetar. É mais fácil, dizem, porque são apenas 14 versos e quatro estrofes, chamadas quartetos e tercetos. Parece ser mais fácil digo eu. Na realidade é muito difícil, porque o soneto exige, como matéria prima de sua confecção a concisão e a síntese. Palavras que exprimam conceitos elevados e sejam poucas, mas digam muito. Rimas, muitas rimas, o quanto mais preciosas, especialmente proparoxítonas, vindas ao final de cada verso sem esforço poético e sem muitas dificuldades, como se fossem frutos bem madurinhos deliciosas para o paladar do leitor.

Bem, vou falar de besouros ou de sonetos? De besouros, prometi. Então lá vai o soneto “O BESOURO E O POETA: Doidamente – besouro encabulado – às voltas / com cegante clarão de uma luz enigmática, / quantas vezes, poeta, em andanças revoltas, / da poesia ao redor giras a alma emblemática! // Como o mísero inseto a essa chama a alma soltas, / em regiros mortais, que ela é enganosa e estática. / De que vale reunir dos sonhos as escoltas / Se ela, como a poesia, é doida e problemática? // A lâmpada que atrai o cético besouro / tem a força abissal de brilhante tesouro / que convida e reluz, atraiçoa e assassina. // Assim nós, assim nós, poetas sonhadores / ao redor dessa luz de ilusórios fulgores / seguimos do besouro a tirânica sina.”

Não contente com esse primeiro soneto (os poetas estão sempre insatisfeitos com a própria criação), reforcei a fantasia que galopou para a outra atividade do besouro, não muito poética, como a aí de cima, mas que nem por isso deixa de provocar o estro esquerdo dos vates que sobre tudo querem poetar. Assim, resultou a inquieta criatividade num segundo soneto sobre o besouro, como profissional, não em busca da luz, mas da treva, a treva assim considerado o ingente trabalho do besouro que, dono de um força incomum – a Hércules eu o comparo no soneto – se mete a remover pesos estescorais dezenas de tamanho maiores do que próprio corpo, assustando indubitavelmente quem, por acaso, o descobrir realizando seu doloroso mister. Saiu assim o segundo soneto sobre o bichinho forçudo e o poeta:
“BESOUROS E POESIA (II) – Lino Vitti – admirador dos besourinhos dourados que, às centenas, catava nos pastos de sua infância, lindos, fruta-cores, num contraste com os outros que viviam a rolar blocos de esterco ou titica dos galinheiros:

Um Hércules do esterco, em meio dos escombros /

dos fétidos currais, de podres galinheiros, /
é o besouro – couraça a levar sobre os ombros /
os restolhos fecais de pútridos chiqueiros. //

Peso descomunal, força feita de assombros, /
a empurrar rolos vis de excrementos caseiros, /  
é o besouro-esterqueiro a mostrar desassombros /  
em pertinácia audaz de heróis e de guerreiros. //

Já vos disse que são – os poetas – besouros /
a empurrar para adiante hercúleos, persistentes, /
não o esterco vilão, mas Andes de poesia! //

Tão fortes como aqueles impelem seus tesouros /
–       o esterco celestial das estrelas luzentes – /
Hércules 

sábado, 19 de maio de 2012

DOMINGO AZUL



ALGUMA CRÔNICA (LXIII)

Lino Vitti

         Que inveja tive do céu azul daquele domingo de início de junho! Azul total, de um horizonte a outro, abrangente, íntegro! Azul para ninguém por defeito, para descansar os olhares maculados pelas manchas estrábicas dos acontecimentos da semana, como se o céu fosse um imenso oceano, onde lavar o espírito contido na caixinha material do corpo humano.
Mas, cara, me perguntará alguém que não é poeta nem admirador do céu, que inveja pode ter-lhe causado um simples dia de sol dominical de fins de maio, prenunciador decerto de um inverninho brabo que está metendo as manguinhas de fora, para devastar com gripes, tosses, escorrimentos nasais, febres infantis, pneumonias “et caterva”, essa felicidade do dias azuis, límpidos, serenamente lindos?!
Não sei. Só posso responder que lá fora, a gente quase toca o céu com as mãos, parece tão próximo dos olhos que, enganado pela ilusão, ergo os braços para cumprimentar, se possível com um abraço poético, esse torrencial azul deste Domingo de meia-estação. Tenho a impressão que o infinito desaba em rolos luminosos por sobre o mundo, tangido pelo imenso sol que toma conta do espaço sem uma nuvenzinha sequer a macular o espraiado anil.
Eu lembro dos azuis do mundo. O primeiro azul que me andou enchendo os olhos e a cabeça foi um lápis colorido dos tempos de escola, metido numa caixinha de difícil acesso porque tinha outro dono – a professora. Usava-o para corrigir cadernos e botar notas. Como cobicei aquele azul enorme onde se encastoavam saber e notas maravilhosas! Felizes as mãos da maestra que tinham todo o poder de apanhar aquele azulado lápis e caminhar com ele sobre as páginas infantis dos alunos, catando e assinalando erros, distribuindo de 0 a 10, para premiar ou condenar a capacidade intelectual daquelas cabecinhas, mais cheias de vento e de sonhos do que outra coisa qualquer. Um livro azul, misterioso repousava  também na mesa do diretor escolar, sem nunca eu poder saber o mistério azulado que lá dentro se escondia.
Depois havia o azul dos olhos. Dos olhos de alguns professores, dos olhos de muitos coleguinhas. Eram os olhos que traziam desde o nascimento, límpidos, fortes, penetrantes, carregados de especulações e interrogações. Eram pedacinhos redondos furtados decerto do mesmo azul de um céu como o deste domingo que lá de cima, através ao quadrado da janela, vem até aqui neste retiro muito antigo para onde fujo afim de escrever estas crônicas. Os olhos azuis quebram a monotonia dos negros e castanhos. Eles têm o céu contido dentro de uma pupila.
De outro azul me recordo agora. Cercado por um círculo perfeito, contém dentro dele todo o céu da minha pátria. O céu azul do meu Brasil. Felizes aquelas cabeças que tiveram a idéia generosa de colocar bem no centro de seu pavilhão todo o céu do Brasil, todo esse anil que vai de extremo a extremo imenso da pátria. Esse azul que jamais conseguirão extinguir, como extinguindo vão parcela verde representativa da riqueza verde das matas, extintas umas, vias de extinção outras, de tal sorte que logo, logo, teremos de substituir o retângulo verde da bandeira, por um retângulo denunciador do deserto, cor de terra ressequida. Antigamente, orgulhavamo-nos do azul da bandeira, hoje, quando a bandeira serve de assentos e mantos nos campos de futebol, fico triste pelo desrespeito e falta total de civismo.
Há um azul que não pode ser esquecido, contracenando na terra contra o anil do infinito. É aquele das flores disseminadas por todos os recantos da terra, enfeitando canteiros, orquideários, jardins, jarras, e as extensões rurais onde medra a lavoura ou de desdobrem as florestas, tão bem representado na esfera do pendão nacional.
Dizem-me que sou também dono de olhos azuis. Por isso talvez estar sempre de olho no azul dos sonhos e da poesia.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TARDES E MANHÃS


ALGUMA CRÔNICA (LXI)

        
                                                                 Lino Vitti (de origem roceira)

         Quem nasceu, viveu e espera morrer na roça, se tiver a alma um pouco tisnada pela mania poética, há de reconhecer que existem tardes e manhãs diferentes no campo e na cidade, que tardes e manhãs de ontem não são as mesmas das de hoje, nem na cidade nem na roça.
Se algum leitor quiser me acompanhar na explicação fantasiosa do que venha a ser essa diferença, vamos seguindo em frente, a ver se consigo escrever alguma coisa sobre o assunto, assunto aliás que reconheço batido demais, nunca porém exposto e completado como realmente deveria ser.
Vejamos. Mal o sol brota na fímbria da linha divisória entre o céu e a terra, a vida no campo de ontem, já está montada com toda a galhardia entre todas as exigências de um amanhecer roceiro. Ponto alto desse despertar campestre era o cocoricar dos galos surdindo aqui e ali no desbragado dilúvio do sol ressurecto, formando sinfonia, ou melhor, polifonia com o tagarelar dos pássaros miúdos, em abundância a viver pelos cafezais, tigueiras, restingas e capoeiras, uma alegr infinidade de pipilos, trissos, trilos, rasqueados e síncopes saudando o astro-rei. Um pouco mais distante, no recesso da mata virgem, as aves graudas, chororós, saracuras, jaós, maitacas, arapongas, juritis, pombas, tucanos, um sem número de vozes indecifráveis do passaredo avantajado, musicalizando o mistério da floresta, causando espanto e admiração ao mesmo tempo, ao homem agricultor, cedo na faina da lavoura de sua policultura rústica e feliz.
Que polifonia majestosa era o despertar da natureza nos áureos tempos em que ela tinha respeito, alimentada, protegida, não tanto pelos disparos das pica-paus caboclos, mas pela preservação do meio-ambiente, muito mais importante para a vida do que o raro pipocar das espingardas caipiras para almoçar tatu ou perdiz.
Ao amanheceres da outrora (meus tempos de infância quero dizer) tinham vez, apareciam na imensa tela do mundo, com todos os luzores do sol e com toda a festa cantada dos matagais. Despertava-se para o trabalho de verdade, tanto o homem, como bichos e aves despertavam, para dar encanto e beleza, música e alegria ao mundo.
Hoje, não. a roça é um cemitério. Calaram-se as vozes peregrinas dos pássaros, os mugidos dos currais, os cacarejos e os cocoricós galináceos, até o canto sussurado do homem em seus maravilhosos afazeres. Onde havia a floresta, reina o deserto. Onde havia música alada, geme um vento resseguido pela galharia esturricada dos últimos espécimes vegetais, ou choram doridos violinos ao perpassar das brisas pelo mar verde das facas cortantes das folhas dos canaviais. Nem o sol glorioso e incentivador da vida, trocando beijos com as flores e galharia intonsa das florestas, pode hoje dar-se a esse luxo. Tem-se a impressão de que a luz matinal vem coalhada de lágrimas de tristeza e a luz da tarde, então festival multicolorido e cheio de despedidas dos cantores alados, morreu, deixando apenas um silêncio lúgubre, iluminado por brilhos chochos do sol morrente. De raro em raro, um xitã tristonho solta o seu angustiado canto sincopado, deixando mais tristes ainda os entardeceres, tão belos outrora! O horizonte tão bonito pelo recortado das copas do arvoredo em riste, está transformado em simples linha horizontal, monótona e chata, invariável e longa.
Se os entardeceres no sítio são feios e pobres, os da cidade são miseráveis e soturnos. A floresta dos arranha-céus veda qualquer visão da despedida do astro-rei. Os ouvidos sufocam sob o rumor incessante e imenso dos escapamentos do dilúvio de veículos que atopeta as ruas e avenidas, tolhendo ao homem qualquer possibilidade de dedicar, por momentos que seja, o olhar para a agonia solar, para a fuga da luz que por um dia inteiro martelou paredes caiadas, calçamento escaldante, quintais áridos. A noite chega de sopetão e o homem que nada vê, que nada aprecia, que nem sequer sabe por que quadrante o sol se vai, enclausura-se atrás de grades, de grossos e altos muros, porque teme o próprio homem, seu irmão, que faz da noite a hora de assaltar, roubar e matar.
E eu tenho medo. Todos temos medo. Não temos mais tempo de pensar em maravilhas matinais, ou poesia vesperal. E tolo do poeta que ainda quer convencer-nos de belezas e encantos da natureza!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

OS BLANCOS



ALGUMA CRÔNICA (LXIV)

 Lino Vitti

Quando menino, a dormitar sobre um delicioso colchão de palha de milho, nas noites de Quinta-feira acordava altas horas por causa de um barulho de rodas de carrinho solavancando a estrada esburacada de terra ou o estrépito dos cascos de parelha valente de burros ansiosos para voltar prá casa. Era o padeiro  comerciante Domingos Blanco que retornava de seu giro feito pelos bairros de Santana, Santa Olímpia, Negri, Mangueirinha, Boa Vinha, e outros sítios e fazendas das redondezas. Vendia e comprava de tudo. Recebia como pagamento das mercadorias que trazia da cidade para os sitiantes ovos, frangos, dinheiro e “fiado”. Confiável este sem dúvida, pois gente da roça é gente séria. Levava pão fresco para aquela população rural que a criançada apreciava demais.
Chovesse ou fizesse bom tempo, o “seu” Domingos não falhava, o que lhe granjeou grande freguesia e muita fama de trabalhador, de honestidade, de pontualidade, e de lucros também, pois com o andar dos anos ele conseguiu formar um patrimônio apreciável, em terrenos, casas e chácara, situados na Rua Bernardino de Campos, onde hoje reside  António Vitti, meu mano, casado com a filha de “seo” Domingos, Maria. E como Domingos Blanco, esposa e filhos, em matéria de Fé, Religião e Cidadania sempre foram proeminentes, era lógico que no local surgisse uma capela que teve como patrono São Domingos Sávio, em homenagem decerto ao nome de Domingos, o patriarca da família e cujos princípios e fundamentos religiosos lhe estiveram presentes constantemente em sua vida, feita de trabalho e de oração persistentes e efetivos.
A Capela São Domingos é hoje muito concorrida. Aos sábados, com assistência de um sacerdote do Colégio Dom Bosco, a cuja responsabilidade está a Paróquia o Senhor Bom Jesus do Monte, consequentemente aquela faz parte da jurisdição religiosa dos salesianos de Piracicaba, aos sábados, repito, é celebrada missa com a participação inequívoca de muitos fiéis que acorrem ao ato religiosos e tomam parte nos sacramentos, com devoção, assiduidade, fervor e dedicação. Muitas crianças, hoje jovens ou caminhando para a idade de adulto, encontraram na Capela de São Domingos, deixada pelo sr. Domingos Blanco, cristão de muitos quilates, os primeiros ensinamentos de catecismo, os princípios de Fé, de cristianismo, de religião das Verdades Eternas, transmitidos por uma plêiade de gente boa, que se reuniu aos Blancos para essa cruzada de Amor a Cristo, ao padroeiro Domingos Sávio, à Igreja Católica e de instrução da sociedade piracicabana, tudo no âmbito daquela propriedade que foi do “seo” Domingos e de sua respeitável família.
A religião é dinâmica. São seus objetivos transmitir cada vez mais a doutrina de Cristo e de sua Igreja. Por isso, sob orientação dos descendentes de Blanco, a capela primitiva de tornou pequena para conter os anseios de religião e Caridade. Cogita-se por isso de ampliá-la, transformá-la em suas dimensões, quiçá um pequeno templo, para melhor atender aos anseios de religiosidade que tomam conta daqueles que acorrem hoje aos atos ali celebrados com carinho e devoção. Oxalá tais intentos se cumpram, para dignificar ainda mais a obra cristã deixada pelo Domingos Blanco e descendentes, como  um presente aos católicos do Bairro dos Alemães. É de se esperar que estes, embuidos pelo mesmo espírito cristão que tem na liderança essa generosa família Blanco, acolham a sua iniciativa de construir uma nova igreja para o futuro dos que nos sucederão.
Enquanto isso eu fico nas voltas que o mundo dá. Quando podia eu esperar que o negociante-padeiro que me acordava tardias horas da noite com o rumor de seu carrinho e passos de suas velozes bestas, na volta de um dia de labuta e serviço, viesse a dar a Piracicaba uma capela para as missas sabatinas da Família José Vitti, e da sociedade religiosa do Bairro dos Alemães, logo possivelmente transformada em templo acolhedor?! 

terça-feira, 15 de maio de 2012

EX-COLEGAS DE SEMINÁRIO


ALGUMA CRÔNICA (LX)


                                                                         Lino Vitti (ex-seminarista)

Quem freqüentou seminário religioso, como acontecera comigo, sabe perfeitamente que a maior saudade trazida daquele estabelecimento é a dos ex-companheiros. No início desse nova etapa de vida, isto é da fuga voluntária ou não daquela maravilhosa “prisão” formadora de saber e de caráter, mantém-se algum contato (correspondência, visita, encontros fortuitos), com o passar do tempo, porém, vai-se desmilingüindo esse elo de ligação, sobrando este ou aquele, raros sim, com quem de quando em quando se trocam cartas, telefonemas, para aquietar um pouco as saudades, essa coisa profunda e inarredável de que quase ninguém escapa.
Paulo Negri é um desses raros ex-companheiros. Ele mora na cidade onde eu moro, daí talvez de quando em quando acontecer um lance de comunicação, oportunidade em que vêm à flor da memória fatos, pessoas, ocorrências dos valiosos tempos seminarísticos, sempre entretecidos de recordação alegra ou triste a que costumamos chamar de saudade. O Paulo se entusiasma, revive, lembra, mistura tudo num cadinho de recordações, uma minestra tirolesa na qual metemos a grande colher da saudade e degustamos o passado de seminário com toda a intensidade que ele merece.
Outras vezes é o mano Walter ou Guilherme ou Padre Arthur (este já sacerdote há 50 anos, único dos cinco que chegou à final do campeonato), conversamos os idos seminarísticos, entremeando gratas ou duras recordações entre ironias, dores e gargalhadas pelas gafes, pelas agruras dos primeiros tempos( mudança da roça para um educantário sacerdotal não é brincadeira!).
Quando tenho oportunidade de encontrar-me com o Zezinho Stênico ou o Jacozinho Desgaperi, moradores de Santa Olímpia, a primeira palavra classificatória daquele feliz e jovem época de seminário, é simplesmente “pinchado”. Ah! O que significa esse adjetivo é difícil de explicar para o leitor. Só nós, da turminha dos saudosos dias de engajamento seminarístico podíamos entender o que “pinchado” queria dizer. “Jogado fora”, “abandonado”, “destruído”, “desmoralizado”, tudo isso e mais outras significações não muito “católicas”, nem vocacionais, eis o que poderia dizer o vocábulo em uso entre os estudantes de Santa Olímpia, Santana, e de outras regiões, nos tempos de seminário . e mesmo hoje, nos raros encontros recordativos, recebo o doloroso adjetivo “pinchado”, mormente do Zezinho Stênico, ainda inconformado, depois de mais de 50 anos, de haver sido “enxotado” daquela casa de ensino.
Ex-colega especial do Seminário Santa Cruz, de Rio Claro dos padres estigmatinos, com o qual mantenho feliz correspondência é o prof. universitário Hildebrando André, hoje residente em São Paulo. O Hildebrando a quam envio “Tribunas” e mais “Tribunas”, que me publica as crônicas, minhas do Jair, do prof. Guilherme, semanalmente, é exímio na crítica e tem importantes e brilhantes sugestões sobre livros, poesia, literatura, conselhos, no sentido de enaltecer meus versos e minha crônicas, e assim também todas as artes e artistas literários de que Piracicaba é detentora, graças à cultura de seus filhos intelectuais. Com relação a um conto que lhe enviei, Hildebrando me escreve: “Li e reli o conto. Fiquei encantado com o nível estilístico que você atingiu. Não sei se julgo equivocadamente, mas aquela preocupação formal, típica de um parnasiano como você, está presente aqui na riqueza do vocabulário, na caracterização dos personagens e seu comportamento original e exato no ritmo da frase. Combinam-se dois aspectos estilísticos em si mesmos constrastantes: a concisão com que se expõe os fatos, e o sentimental, o exótico e o misterioso”. E aí, o Hildebrando compara este miserável cronista com nada mais nada menos do que Coelho Netto e Afonso Arinos. Que bom, que consolador! E adiante Hildebrando me diz: “Invejo os poetas e prosadores de Piracicaba que têm , nos periódicos daí, um apoio que não existe em outras cidades”.
Essa opinião é, sem dúvida, espetacular para a cultura piracicabana, que um alto professor universitário entende privilegiada pelos seus jornais diários, citando como expoentes por essa felicidade literária a poetisa Maria Cecília Bonachela, responsável pelo página sabatina “Palavras e Versos” do JP, destacando as colaborações jornalísticas de Êsio Pesatto, Jair Vitti, Cecílio Elias, Guilherme Vitti, e este escriba, entre outros.
O assunto comportaria não uma, mas dezenas de crônicas. Paro porém por aqui, com a promessa de voltar a tertuliar tão importante e atraente matéria, que são as apreciações sensatas e indiscutíveis que faz um professor universitário sobre a cultura piracicabana. 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MÃE


Lino Vitti
(A minha saudosa mãe falecida aos 93
anos de idade em 4\l0\ l988)

Quase um século a andar de trilho em trilho,
de trabalho em trabalho e de espinho em espinho.
Pela vida a lutar, deixando a cada filho
um pedaço de amor, um sonho de carinho.

Abriste a cada qual esplêndido caminho,
deixaste-me uma luz na estrada que palmilho.
Foste rever Geraldo, o querido irmãozinho
que tão cedo se foi, como um astro sem brilho..

Se vais gozar no céu a presença divina
como prêmio final ao que com Deus convive,
vais abrir-nos a senda eterna e peregrina.

Os teus filhos estão, agora, na orfandade,
mas a tua figura excelsa ainda vive
entre nós a esperar que chegue a Eternidade.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

FRIO, BRRRRR...



ALGUMA CRÔNICA (LVIII)
 Lino Vitti

Pior coisa para a saúde de velhos e crianças é evidentemente o frio. O inverno, os ventos sulinos, as cerrações matinais.
O Inverno, no Brasil, é o meio-verão na Europa, embora o quê, não deixa de ser chato, detestável, veículo inarredável de mil e uma formas de resfriados, gripes, pneumonias e coisas desse jaez, sem contar com as dores lombares, musculares, ósseas, nerviculares com que a estação costuma impingir a pessoas humanas.
O Inverno, originário do Polo Sul, se compraz trazer desse quadrante todo o tipo de vento frígido, iniciando sua ação incômoda a partir das oito ou nove horas da manhã e assoprando, de modo contínuo e desmancha-prazeres, até horas tardias da noite, quando parece perceber a inutilidade de suas implicâncias porque a humanidade se envolve em cobertores, colchas, pijamas grossos, para espantar o desumano vento sulino. Arrefece então, para voltar no dia seguinte com novos assopros gélidos, num rodízio terrível que espanta a alegria, a vontade, até os desejos justos e inamovíveis dos casais felizes, porque o diabo do Inverno impede até os prazeres conjugais, a menos que o dinheiro fale mais alto e propicie aos felizardos uma alcova tépida e adequada ao ato da humana procriação.
As cerrações, névoas ou neblinas têm presença certa nas manhãs de inverno, assenhoreando-se do sol que fica escondido atrás dos novelos brancos até horas de preguiçoso levantar, ruas, praças, jardins, prédios, avenidas, tudo, na cidade fica enovelado pela neblina. Compacta e fria mal deixa coar as pessoas, a caminharem como fantasmas, através daquela brancura gelada. Carros, ônibus, caminhões, são massas informes a perfurarem os blocos frígidos de cerração, macia com se todo o algodão do mundo tivesse se concentrado sobre a cidade e sobre o campo, onde tudo fica enfurnado numa brancura álgida, escondendo dos olhos bestas, árvores, prédios, ranchos, seres humanos, montes e vales, como se Deus houvera estendido sobre a paisagem um lençol imenso de linho de horizonte a horizonte. E o negócio é que daquelas alvuras frígidas brotam vozes, surdem cantos, cacarejos, pios, berros. Ouvem-se, mas não se vêem. Não se adivinha sequer de que quadrante vem aquele rumor de vozes encasteladas dentro do rolar em nuvens da cerração matinal. Os pintainhos reclamam da frialdade esguelando-se e pios friorentos, pedindo asas e penas maternas. Cabras, cães, cavalos, bezerros, bois, e tutti quanti, como que viram estátuas enregeladas dentro daquela frigidez branca, imobilizando-se à espera do rei-sol. À espera de um raio quente que empastele aquela alva nebulosidade e a remeta para longe, para o sopé da serra ou o fundo das barrocas, onde ainda se podem ver alguns fiapos da noite perdidos. A espera de que os pássaros desfiem seus chilreios saudando a luz cálida que está empacada por trás da muralha alvadia da neblina hibernal.
O inverno é, claramente dizendo, aborrecido e aborrecedor. Encastôa tristezas na alma humana e distribui desgostos na natureza. Tanto na cidade como no campo sói estender um tapete fastidioso transformando seres animais e vegetais em algo irreconhecível, pois vê-se-lhes faltar ânimo, interesse, vontade, alegria de viver, porque trazem o corpo estanguido, se animal, e copas tristonhas, se vegetal.
É no inverno que os lenços – esse tradicional quadradinho de pano fino – saem das gavetas e deixam amiudamente os bolsos, para o serviço de sapa das narinas chamadas a enfrentar o incômodo pinga de liquefeitos humores corpóreos. E a cada lance, um rumor estranho a ferir os ouvidos adjacentes, obrigados a escutar um trovejar contínuo de assôos e espirros trazidos ao homem pelo frio ancestral de Dom Inverno.
Pelo que ficou dito, percebem os friorentos leitores que não aprecio nada, nada mesmo, o tempo de frio. Quando muito poderia dedicar-lhes uns versos frios com o próprios tempo, ao ver a luta do sol para derribar as névoas que encobrem o mundo e o seu cantar vitória quando lá pelas 10:30 ou 11 horas, rompe a montanha branca da neblina, para expandir-se numa glorificação luminosa e feliz.

Lino Vitti (ainda poeta aos 82 anos)

De onde vem essa dor da natureza,
de onde vem essa dor que tudo esfria?
Esse sofrer que o Inverno põe à mesa,
que o viver e as pessoas arrepia?

Branquicenta e pingante vejo-a presa
ao algente nevoeiro quando o dia
irrompe um sol mortiço (Que tristeza!)
O Inverno é feio com a própria harpia*.

Outro Inverno, porém, nesta hora vejo,
contra o qual, todo angústias, eu pelejo,
contra o qual, angustiados, pelejáveis.

É a Vida que se esvai, no Inverno finda!
Faz frio, tiritamos, foi-se a linda
E querida manhã que tanto amáveis.


* Harpia: monstro fabuloso com rosto de mulher e corpo de abutre  

PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA

CURRICULUM VITAE
( Síntese de Vida)
NOME – Lino Vitti
IDADE – 08/02/1920
ESTADO CIVIL – Casado, em únicas núpcias, há 56 anos, com a Professora Dorayrthes Silber Schmidt Vitti
FILIAÇÃO – José e Angelina Vitti
NATURALIDADE – Piracicaba, Estado de São Paulo –Brasil
Bairro Santana , Distrito de Vila Rezende
VIDA FAMILIAR
Casamento Civil e Religioso em comunhão de bens, Pai de sete filhos: Ângela Antónia, Dorinha Miriam, Rosa Maria, Fabíola , Lina, Rita de Cássia, Eustáquio.
VIDA PROFISSIONAL
Aposentado como Diretor Administrativo da Câmara de Vereadores de Piracicaba, e como Redator do “Jornal de Piracicaba”. Exerceu atividades no comércio, no Magistério, na lavoura até os l3 anos, na municipalidade local, como bibliotecário, lançador de impostos, protocolista, Secretário Municipal.

VIDA CULTURAL
ESCOLA PRIMÁRIA –
Grupo Escolar “Dr. Samuel de Castro Neves”, Santana, seminarista vocacional ao sacerdócio por seis anos, no Colégio Santa Cruz, da cidade de Rio Claro (SP), onde cursou humanidades, línguas, religião, ciências, matemáticas, música.
CURSOS –
Formou-se Técnico em Contabilidade, lecionou latim, francês, datilografia.

VIDA RELIGIOSA
Católico, Apostólico, Romano, fez curso de religião em seminário dos Padres Estigmatinos, foi organista da Catedral e da Igreja de São Benedito, de Piracicaba, e Congregado Mariano.
VIDA LITERÁRIA
Bafejado por ensinamentos de sábios sacerdotes em colégio de formação religiosa, recebeu extraordinário acervo literário que lhe propiciou enveredar pelo caminho da poesia, da crônica, dos contos, do jornalismo, havendo editado de l959 a 200l sete livros de poesias e contos, com edições em milheiros de volumes, os quais estão aí para satisfazer o gosto daqueles que apreciam a arte literária.
São seus livros : “Abre-te, Sésamo”, l959; “Alma Desnuda”, l988; “A Piracicaba, Minha Terra”, l99l; “Sinfonia Poética”, de parceria com o poeta Frei Timóteo de Porangaba; “Plantando Contos, Colhendo Rimas”, l992; “Sonetos Mais Amados”, l996 e “Antes que as Estrelas brilhem”, 200l. O poeta conta ainda com o prazer de haver composto hinos para diversos municípios, bairros rurais, entidades sociais diversas, continuando a colaborar ainda, após os 83 anos em colunas literárias e com artigos de ordem geral em jornais da terra.
Faz parte da Academia Piracicabana de Letras que lhe outorgou o título honorífico de “PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA’.
Foi-lhe concedida Pelo Município de Piracicaba, através de sua Secretaria da Ação Cultural, a MEDALHA DE MÉRITO CULTURAL, “ Prof. OLÊNIO DE ARRUDA VEIGA’; é detentor do TROFÉU IMPRENSA, concedido pelo Lions Clube de Piracicaba, centro, e da MEDALHA ITALIANA, concedida pelo governo italiano de Benito Mussolini aos alunos de escolas e seminários de origem daquele país que tivessem se destacado em redação de trabalhos literários escritos na língua de Dante.
O Município de Saltinho, para o qual contribuiu com o Hino dessa comunidade municipal , conferiu-lhe o título de “Cidadão Saltinhense”.

DISCURSO

Por ocasião do lançamento do livro de poesias “Antes que as estrelas brilhem “, pelo poeta Lino Vitti foi proferido o seguinte discursos:

Exmo. Sr. Heitor Gauadenci Jr. dd Secretário da Ação Cultural

Exmo. sr. António Osvaldo Storel. dd. Presidente da Câmara de

Vereadores de Piracicaba

Exmo.sr. Moacyr Camponez do Brasil Sobrinho, dd. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico

Exmo,. sr. Henrique Cocenza, dd. Presidente da Academia Piracicabana de Letras

Exmo.. Sr. Ésio Pezzato , anfitrião desta solenidade

Senhoras e Senhores

Pela sétima vez (graças a Deus) em minha vida lítero-poética vejo-me guindado a uma tribuna improvisada (o que é bom porque torna o fato mais popular), para proferir um discurso de agradecimento, ao lado da oferta de um novo livro de versos. É teimosia essa de poetas em desovar sua produção para que mais gente participe de suas tiradas, muitas vezes fora de forma e de ambiente, mas que o poeta não vê porque , ao editar um novo livro está cego pela emoção , como se fosse a vez primeira. Está aí o Ésio Pezzato, responsável por mais esta minha invasão no mundo das letras poéticas, para dizer se não é assim. Para dizer se não sofre também dessa doença feliz de editar livros e mais livros a ponto de perder a conta, já que a esta altura ele não sabe se já está no décimo ou décimo primeiro. E ainda continua batendo dedos de métrica, sabemos lá por quantos anos ainda !

Tenho um ex-colega de seminário, prof. Hildebrando André, aposentado como professor universitário e com o qual mantenho longa e pródiga correspondência, que não se cansa de enaltecer a felicidade de Piracicaba contar com tantos poetas e poetisas. Tem razão ele, pois se apenas dois deles já conseguiram editar l8 livros de poesia, imagine-se as centenas que seriam necessárias para dar um pouco de vazão a essa raridade intelectual que toma conta da minha terra!

Este meu livro vem à lume por obra e arte do prefeito José Machado , seu Secretário da Ação Cultural e de seu zeloso servidor Ésio Pezzato que se entusiasmaram diante da recitação de diversos poemas meus por um grupo de jograis, alunos da UNIMEP, e impressionados decidiram patrocinar a publicação deste livro, pois entenderam que Piracicaba poética merecia conhecer em mais profundidade o seu príncipe da poesia. E aí está, lindo e impecável, entregue às mãos do povo de Piracicaba, que indistintamente de cor, estudos, intelectualização , posses financeiras, categoria de trabalho, com religião ou agnóstico, jovem ou adulto, roceiro ou citadino, aí está, para quiçá, momentos de lazer e sonho. Sonho , sim, porque a poesia é terrivelmente sonhativa , vive no mundo da fantasia, alicerça-se nas bases da emoção e brota do âmago mais profundo do poeta, e para que as filhas de Eva não reclamem, da poetisa também.

Alguém me perguntará? Como é ser poeta? Juro, nunca pensei nisso. Acho que ninguém consegue ser poeta. Já é. Nasce feito, como dizem.

não é verdade Maria Cecilia, Ivana Maria, Ésio Pezzato , Prata Gregolim, Marina Rolim, Valter Vitti, Mario Pires, Saconi, e tutti quanti enfeitam com seus lindos versos as páginas do “ Jornal de Piracicaba, ou da “Tribuna Piracicabana , e assim também esse cacho imenso de livros poéticos que quase semanalmente são dados ao conhecimento e sentimento público de nossa terra ? Tornando-se um privilégio de uma cidade, como disse alhures o supra citado meu colega seminarístico Hildebrando André. ?

Não se suponha que para ser poeta é preciso ter nascido em berço de ouro ou em centros intelectuais de enorme repercussão. Nada disso. Tenho um soneto que define bem esse fato. É assim: “Eu não sou o poeta dos salões / de ondeante, basta e negra cabeleira] não me hás de ver nos olhos alusões / de vigílias, de dor e de canseiras. // Não trago o pensamento em convulsões,/ de candentes imagens, a fogueira. / não sou o gênio que talvez supões/ e não levo acadêmica bandeira.// Distribuo os meus versos em moedas/ que pouco a pouco na tua alma hospedas / - raros , como as esmolas de quem passa. / Mas hei de me sentir feliz um dia/ quando vier alguém render-me graça/ por o fazer ricaço de poesia. // “ . Poetas e poetisas saem do nada , devem trazer o selo ou o bilhete de entrada nesse reino encantado desde o útero materno, embora ouse eu afirmar que a vida é também uma grande mestra , as influências da mentalidade circunvizinha,

o próprio meio ambiente, podem , em circunstâncias outras , plasmar um poeta .

Eu fui plasmado , por exemplo, por entre maravilhas campestres. A roça ou o campo são fantásticos criadores de poesia. Ela anda atapetando por todos os cantos a natureza, as gentes, os animais, os atos e fatos. e a cabeça daqueles com quem ela convive. E o poeta, criador por excelência, se abebera de todas as belezas esparsas pelas colinas, serras, vales e descampados , para transformar tudo em versos e rimas, ou em versos simplesmente, onde pululam , como cabritos silvestres, as figuras literárias, os tropos, as sínteses, as comparações, e todos os anseios que lhe vão no imo da alma. Para satisfação própria e para satisfação dos que convivem com o poeta. E´ por isso que se botardes olhos curiosos sobre meus poemas havereis de tropeçar a todo o momento com um motivo roceiro, pois trago uma alma plasmada pelas belezas rurais de Santana, Santa Olímpia , Fazenda Negri, e especialmente por aquela colina encimada ,no cocuruto, pelo prédio do grupo escolar, onde aprendi a ler e escrever e a poetar.

Peço desculpas por haver-me prolongado um pouco nestas elucubrações poéticas, desobedecendo aos conselhos do amigo Ésio que continua exigindo de mim discursos improvisados, o que seria tão para os ouvintes , que ansiosamente aguardam o momento de bater palmas acabando assim com a verborragia oratória.

Não posso entretanto encerrar esta breve alocução sem deixar consignados meus agradecimentos do fundo do coração ao prefeito José Machado ,ao seu Secretário da Ação Cultural Heitor Gaudenci Junior, ao seu sub-secretário poeta Ésio Pezzato, ao prefaciador Moacyr de Oliveira Camponez do Brasil sobrinho, aos queridos opinadores Maria Cecília Bonachella, Maria Ivana França de Negri, exímias poetisas, prof. Elias Salum e a minha filha Universitária Fabíola Vitti Moro, pela maravilhosa capa, Editores e toda equipe de funcionários , à minha esposa pela sugestão transmitida ao prefeito com relação ao advento desta obra, aos digitadores Nair , minha nora e neto Leonardo, e outros que possa ter esquecido, como é fácil em cachola idosa, - meus agradecimentos repito, pela reunião de esforços e trabalho que tornaram possível o advento de mais um livro de minha lavra.

Obrigado “ em geralmente” como dizem nossos cururueiros, aos que ilustraram com sua arte musical esta solenidade e assim também a todos quantos acharam um tempinho para vir prestigiar-me nesta tarefa de cultura e arte. Levem a certeza de que nada mais desejo do que engrandecer com minha poesia a terra que me viu nascer, a terra que me viu crescer, a terra que me proporcionou oportunidade para chegar a um cargo tão nobre quão dignificante de “Príncipe dos Poetas de Piracicaba”

Meu carinhoso obrigado também aos meios de comunicação, de modo especial “Jornal de Piracicaba”, na pessoa de seu Editor Chefe Joacyr Cury , de “A Tribuna Piracicabana”, na de seu diretor Evaldo Vicente, pela divulgação caprichosa deste evento que afinal nada mais é do que mais uma demonstração da exuberância cultural da Noiva da Colina.

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