
Lino Vitti
Não haveria necessidade gramatical de colocar eu no título desta talvez milionésima crônica, o artigo identificador do gênero e do número do substantivo. Bastaria dizer “inverno” ou “invernos”. Acontece que , velho escrevinhador ( para mais de 60 anos), sou muito cuidadoso na observância corrente das regras da linguagem, por isso procuro facilitar ao leitor a compreensão e a elegância do texto, para poder merecer dele o prazer da leitura . E nada mais grato a quem escreve do que ser lido, compreendido e louvado.
Não existem dois invernos. Desde que chegamos à idade da razão até o fim da jornada, sabemos que ele é um só, uma só estação climática do ano, quando as frialdades polares, inventam de deixar seus esconderijos do Sul ou do Norte, para vir judiar da humanidade que habita os trópicos. O frio é indesejável para a maioria das pessoas, pois costuma assaltar a saúde, disseminar doenças, mormente respiratórias, atenazar a vida de inúmeros lares pobres, onde faltam roupas, cobertores, sapatos, puloveres, luvas, capas, bonés, para contratacar as investidas desagradáveis do senhor Inverno. E os lábios infantis tremem, os lábios idosos tremelicam, as frestas se comprazem em deixar entrar ventos cortantes vindos do Sul que vão beijar as faces de quem resolveu permanecer dentro de casa, desencorajado de buscar a rua, o passeio, as visitas, os templos, as casas de diversão.
Na vida do campo, o frio é arrasador. O lavrador que não se dá ao uso de luvas sente as mãos laboriosas regeladas com dificuldades imensas para mover enxadas, foices, animais, carroças, tratores, as faces esbofetadas pelas agulhas do vento hibernal, os animais domésticos encorujam e se imobilizam, os pássaros com seus cânticos múltiplos desaparecem, as lavadeiras esquecem das tinas e dos varais, enquanto o rei sol fica espiando friorento por trás da neblina compacta.
Ora, indagará o leitor, como o cronista fala em invernos, se apenas um inverno existe? Bem, caríssimos amigos, que deitais talvez olhar curioso sobre estas linhas, explico-vos que o outro ou outros invernos de que tento falar nesta crônica, não são da natureza, não têm tempo certo para aparecer e atacar o ser humano, não são estação do ano. Eles, muitas vezes traiçoeiros, costumam envolver a alma das pessoas, costumam cobrir de neve e de frio o coração, têm por hábito se abater sobre os lares, deitar neve e nevascas sobre a sociedade, em qualquer etapa da vida. Trazem consigo muita tristeza, muito gelo, muitas doenças, muito desamor.
Quando virdes uma família, onde reina a discórdia, a discussão, o desentendimento, a disputa, tende certeza de que há um inverno doloroso passando por aquelas plagas, muito frio, terrivelmente embuçado em névoa, dolorosamente instalado dentro de um lar. O casal não se entende; os filhos não se amam; a religião desertou; o amor foi embora para longe e quiçá para sempre. E será que esse tristonho e cego inverno perdurará? Não decidirá jamais retornar ao calor do sol da razão, do amor, dos sentimentos nobres e divinos? Será um inferno, ou melhor, inverno, inextinguível? Sua principal vítima – O AMOR – voltará para acalorar aquela casa que um dia foi tão feliz, tão risonha, tão cristã?
Conheceis, acaso, o outro tipo de inverno, aquele que se instala de repente entre uma longa e maravilhosa amizade? E tudo o que era belo, tudo o que era feliz, tudo o que era sublimado, fica nu diante do inverno da inimizade que resolveu se interpor entre amigos, apagando aquela chama de calor humano que ardia entre corações generosos? Terrível esse inverno que estraçalha amizades, avalancha companheirismos, enterra sob montanhas de gelo uma amizade entre pessoas! Ou acha você , querido leitor, que esse não é inverno?
O pior entretanto de todos eles é o inverno que sobrepaira a todas as nações do mundo, encobrindo em montanhas frígidas como as geleiras dos pólos, o amor entre os seres humanos, o amor da sociedade, o amor do universo. Esse inverno vai de pólo a pólo, encobre as regiões tropicais e as zonas tórridas do mundo inteiro, esfria cruelmente os corações dos governantes, semeia a guerra, destrói a Paz. É o perpétuo inverno do desamor entre os povos, em contínuas guerras, lutas sociais, políticas, científicas, religiosas. Inverno doloroso que gela os sentimentos dos povos e petrifica os corações dos governantes. É um estranho e fatídico inverno que vive, sobrevive, ataca e vence, mesmo ao calor do fogo das batalhas, das discussões, das incompreensões, das injustiças, do esquecimento de Deus .
Concorda, agora leitor, um pouquinho comigo, de que há outros e piores invernos no mundo?!
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