Lino Vitti - Príncipe dos Poetas Piracicabanos

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O Príncipe e sua esposa, professora Dorayrthes S. S. Vitti

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segunda-feira, 23 de maio de 2016

O MEU ROMANCE ...


Lino Vitti

O meu romance. Abri o meu romance.
Capítulo primeiro: a minha infância.
Reli tudo, reli lance por lance,
Cena por cena, na ânsia
De quem tenta agarrar uma coisa à distância
Que já ficou atrás fora do seu alcance.

Cromos de sol, painéis enluarados,
Minúcia de paisagem infantil!
Abril, abril,
Com voos cruzados
De andorinhas nas tardes borradas de anil.

O meu romance. Capítulo segundo:
Mocidade!
Sinto nessa leitura um sabor profundo,
Um gosto amargo, e, parece que me afundo
Num vácuo delicioso de ansiedade...
Capítulo segundo... Começo... Não releio.
Tenho receio...
É reler, devagar, toda minha saudade!

O meu romance. Capítulo terceiro:
Velhice. Estão as páginas em branco.
Ainda nada escrito. Será cedo!?

Sairá este capítulo mais triste que o segundo
E que o primeiro?
E eu novamente tenho medo...
Tenho medo de principiar.
Cismo... Enraiveço-me... Depois, arranco,
Uma por uma, num grandioso gesto fútil,
Todas as folhas desse meu romance inútil.    

sábado, 1 de agosto de 2015

POEMA A PIRACICABA

(foto Ivana Negri)

Lino Vitti

A beleza das verdes colinas
enamora o audaz capitão.
A esperança dourada das minas
e os mistérios do rico sertão.
O rumor musical da cascata
a que o peixe teimava escalar,
o murmúrio das águas de prata,
todo um mundo de encantos sem par!
Terra roxa, divina promessa,
rio largo a buscar o Tietê.
Tudo corre, engrandece, tem pressa,
Povoador acredita e prevê.
Traça o chão onde um dia a cidade
será grande, quiçá capital,
surge no alto, à solar claridade,
a feliz Piracity eternal.
Ei-la em busca de um grande futuro,
muito amada por filhos geniais
que lhe ofertam o afeto mais puro
e acalentam-lhe os nobres ideais.
Ficou “noiva”, casou com o progresso,
da cultura fez sólido ideal.
Fez da agrícola ciência o sucesso
dessa ESALQ de fama mundial.
Pontilhada de escolas soberbas,
berço altivo de profissionais,
venceu lutas hostis mais acerbas,
fez dos sonhos os fatos reais.
Minha histórica Piracicaba,
dona excelsa de idílico véu,
meu amor, por você, não se acaba,
nem jamais serei cínico incréu.
Que seus filhos da urbe ou da roça
lhe dediquem o mais vivo amor.
Essa vida de amores remoça
no trabalho, realeza e fulgor.
Que o destino ofereça a grandeza
de fazê-la grandiosa e feliz.
Nossa vida a esse amor fique presa
a esse povo que a quer e bendiz.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

MANGUEIRA SAUDOSA

Lino Vitti 

Mangueira do quintal de minha casa,
Daquela casa de sítio, tão bonita!
Quintal não, pois a expansão era infinita
E não intra-muros como esta da cidade,
Onde, eu acho, o passarinho-liberdade
Tem apenas uma asa
E jaz tombado, encarcerado,
Na cadeia geométrica
Dos quintais apertados,
A lembrar visões tétricas
De condenados.

Porém, minha mangueira, não é bem isso
Que tentava escrever.
E' que quando me ponho a esse serviço,
Não sei porque, logo eu atiço
A minha fantasia de poeta enfermiço
A doudejar em disparates,
Que a gente, por aí a fora, considera
Qualidades essenciais, profissionais,
Dos pobres vates.

Mangueira, mangueira, talvez secular,
Pois que já existias quando eu nasci
E ainda existes agora, depois que eu cresci,
Mangueira copada, gosto muito de ti.
Lembras-me tantas cousas,
Tantas recordações dos meus tempos de criança,
Quando eu, com os manos e os priminhos,
Espichados de costa à sombra mansa
Da tua copa onde havia passarinhos,
Espiralávamos na ideia castelos longínquos de esperança,
Castelos incertos,
De um futuro risonho;
Que eram apenas sonho; porém, místico sonho
De olhos abertos.
Olhos devaneios que nada fitavam,
Que se perdiam a um tempo na tua fronde,
No céu, nas serras, nas nuvens que passavam,
Altas, informes, cheias de estranho frenesi.
E é por isso, mangueira, é por essas saudades
Que eu gosto tanto de ti.

Depois, como apreciava olhar-te da janela,
Quando o vento, enovelando-se em procela,
Desembestava pelo vale em rouco ronco
Vergastando o arvoredo!
(Confesso-o, eu tinha medo!)
 Mas tu, não. Antepunhas-lhe, valente,
A rijeza dos teus galhos e do teu tronco
Onde ele uivava em vão, raivosamente.
Talvez assim quisesses dar-me o exemplo
De não me deixar levar atoa
Pelo tufão imenso
Da maldade.

Porém, opor-lhe o tronco do bom senso
Firmado nas raízes da bondade
E espalhado nos galhos do bem fazer.
Quando florescias era um escândalo
De tantos insetos e abelhas roubadoras
Que te assaltavam em cardumes.
Os beija-flores tinham ganâncias de vândalo
Na conquista do teu mel e dos perfumes.
E ai deles, coitados, se não fôras
Assim inerte,
Obrigada a condição que assumes
De dar sem recompensa,
Numa excelsa atitude
De alma imensa .

E chegavam os frutos.
Louros, como pingos de sol no verde-escuro
De tua folhagem,
Hipnotizavam, de longe, os pássaros matutos.
E a criançada vinha, vinha o pessoal inteiro
Aproveitar-te largamente a camaradagem
Da distribuição gratuita das mangas amarelas,
Tão amarelas como se algum brejeiro
Pouco antes as mergulhasse num tinteiro
De aquarelas.

Era sempre, de tarde, porém, que eu preferia
Contemplar o teu vulto
Desenhado pensativo na melancolia
Do espaço enorme.
Quando cada coisa tem um alma triste,
Quando cada coisa se debruça e assiste
O fúnebre culto
Do ofício de trevas do dia.
Era então nessa hora de desconforto
Do ambiente morto,
O' mangueira,
Que pasmavas a copa cheia de ânsia
Num êxtase de dúvida, indecisa,
Semelhando-se bem a este meu ser
Que se volatiliza,
Ou, ao menos, tem vontade de se volatilizar
E, assim, ao Infinito, voar, voar. . .


quarta-feira, 24 de junho de 2015

O JOÃO BAIANO


Lino Vitti

Quando eu era pequeno
Tinha um medo louco do João Baiano.
Aquele negro que andava de alpargatas
E um facão pendendo da cintura.
(Um facão descomunal!)
E nas noites escuras afundado no leito
A minha fantasia de criança
Ideava-o um gigante ressurgido
De enorme compostura
E corpo colossal,
Que tivesse saído dos recônditos da mata.
Mas o João Baiano era bom.
Negro velho dos tempos do Brasil- Colônia,
Do Brasil-Pequeno, do Brasil-Menino,
Tinha, no rosto, a paciência dos escravos;
Na estatura, a rijeza dos robustos;
Nas cicatrizes, as vergastadas da escravatura.
E por tudo o estoicismo no destino
E os estigmas dos bravos.

Depois que eu cresci o João Baiano
Começou a habitar no rancho brasileiro
Da minha alma.
E quando o vi pela última vez, já velhinho
E alquebrado
(tinha mais de cem anos se não me engano)
A sua figura calma
De herói dos cafezais
Ficou gravada em cheio no meu íntimo.
T'ão profundamente
Que o não esqueci jamais.
Nunca mais!
Disseram-me que ainda vive.
Coitado, deve estar tão branquinho!
Também para ser pai deste Brasil-Homem de hoje
Não é brincadeira!
Foi ele, o João Baiano, que deu rijeza
Às carnes brasileiras.
Ele, que lhe injecionou em sangue africano
A seiva musculosa
Que todos os anos faz exibição escandalosa
No festival das flores e dos frutos dos cafezais.
O suor dos cativos africanos
Foi chuva diluviana que empapou,
Por extenso, o território nacional;
Que escorreu de cada monte e todo o vale
E fez brotar, em cada, um cafezal.
E é por isso que ao passar por qualquer
Talhão verde negro de café,
Suponho ainda ver escravizado,
Em filas obedientes enquadrado,
Como tropas infinitas de soldados,
Um africano velho acorrentado,
Solene, eternamente, acocorado,
Martirizado,
Em cada pé.


O João Baiano era bom.
E passou a morar no rancho acaboclado
De minha alma.
Talvez seja ele mesmo que agora salma,
Com aquele seu jeitão de feiticeiro,
Estes versos desconjuntados,
Estas linhas sem a mínima instrução;
Livres como era livre a ideia dele,
Pois que ele tinha o pensamento libertado
Embora o corpo
Estivesse sujeito ao chicote do patrão.

O João Baiano era bom.
Fazia gaiolas e bodoques
Pra criançada da fazenda.
E muitas vezes dizia à mocidade
No barbarismo feliz de sua linguagem,
Semi-selvagem;
"Moços, eu não tenho  a liberdade
Que a nhá Isabelinha concedeu
Aos negros da escravidão,
Porque nesta terrinha brasileira
Eu tenho a minha alma prisioneira
E argamassado meu coração". . .

O João Baiano era bom.

terça-feira, 26 de maio de 2015

MANGUEIRA SAUDOSA

   

 Lino Vitti

Mangueira do quintal de minha casa,
Daquela casa de sítio, tão bonita!
Quintal não, pois a expansão era infinita
E não intra-muros como esta da cidade,
Onde, eu acho, o passarinho-liberdade
Tem apenas uma asa
E jaz tombado, encarcerado,
Na cadeia geométrica
Dos quintais apertados,
A lembrar visões tétricas
De condenados.

Porém, minha mangueira, não é bem isso
Que tentava escrever.
E' que quando me ponho a esse serviço,
Não sei porque, logo eu atiço
A minha fantasia de poeta enfermiço
A doudejar em disparates,
Que a gente, por aí a fora, considera
Qualidades essenciais, profissionais,
Dos pobres vates.

Mangueira, mangueira, talvez secular,
Pois que já existias quando eu nasci
E ainda existes agora, depois que eu cresci,
Mangueira copada, gosto muito de ti.
Lembras-me tantas cousas,
Tantas recordações dos meus tempos de criança,
Quando eu, com os manos e os priminhos,
Espichados de costa à sombra mansa
Da tua copa onde havia passarinhos,
Espiralávamos na ideia castelos longínquos de esperança,
Castelos incertos,
De um futuro risonho;
Que eram apenas sonho; porém, místico sonho
De olhos abertos.
Olhos devaneios que nada fitavam,
Que se perdiam a um tempo na tua fronde,
No céu, nas serras, nas nuvens que passavam,
Altas, informes, cheias de estranho frenesi.
E é por isso, mangueira, é por essas saudades
Que eu gosto tanto de ti.

Depois, como apreciava olhar-te da janela,
Quando o vento, enovelando-se em procela,
Desembestava pelo vale em rouco ronco
Vergastando o arvoredo!
(Confesso-o, eu tinha medo!)
 Mas tu, não. Antepunhas-lhe, valente,
A rijeza dos teus galhos e do teu tronco
Onde ele uivava em vão, raivosamente.
Talvez assim quisesses dar-me o exemplo
De não me deixar levar atoa
Pelo tufão imenso
Da maldade.

Porém, opor-lhe o tronco do bom senso
Firmado nas raízes da bondade
E espalhado nos galhos do bem fazer.
Quando florescias era um escândalo
De tantos insetos e abelhas roubadoras
Que te assaltavam em cardumes.
Os beija-flores tinham ganâncias de vândalo
Na conquista do teu mel e dos perfumes.
E ai deles, coitados, se não fôras
Assim inerte,
Obrigada a condição que assumes
De dar sem recompensa,
Numa excelsa atitude
De alma imensa .

E chegavam os frutos.
Louros, como pingos de sol no verde-escuro
De tua folhagem,
Hipnotizavam, de longe, os pássaros matutos.
E a criançada vinha, vinha o pessoal inteiro
Aproveitar-te largamente a camaradagem
Da distribuição gratuita das mangas amarelas,
Tão amarelas como se algum brejeiro
Pouco antes as mergulhasse num tinteiro
De aquarelas.
  
Era sempre, de tarde, porém, que eu preferia
Contemplar o teu vulto
Desenhado pensativo na melancolia
Do espaço enorme.
Quando cada coisa tem um alma triste,
Quando cada coisa se debruça e assiste
O fúnebre culto
Do ofício de trevas do dia.
Era então nessa hora de desconforto
Do ambiente morto,
O' mangueira,
Que pasmavas a copa cheia de ânsia
Num êxtase de dúvida, indecisa,
Semelhando-se bem a este meu ser
Que se volatiliza,
Ou, ao menos, tem vontade de se volatilizar

E, assim, ao Infinito, voar, voar. . .

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Homem da Oficina


Lino Vitti

Pirilampejam vagalumes quentes
Os martelos nervosos cravam dentes
No ferro abrasador.
As faíscas são lágrimas acesas
Que ele chora, calado, sem defesa,
Estorcendo-se em dor.

O ferreiro - homem rude do cenário -
Transforma-se em algoz, negro sicário,
Estranho Satanás,
De cedo à tarde massacrando vítimas
De ferro. . . deve ter razões legítimas,
Só por gosto o não faz!

É mais, - é sacerdote! Uma oficina
Por templo. Seu trabalho - por doutrina,
O pobre - por irmão.
Malho e bigorna - por altar sagrado,
Ruivo turíbulo de fogo ao lado -
Tudo numa oblação.

Mas não. Esse homem sujo no trabalho
Reza. O estridor dessa bigorna e malho
E' uma bela oração,
Que vai da terra ao céu, porque da terra
Leve toda a grandeza que se encerra
No humilde ganha-pão.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Circo Saudoso


Lino Vitti
(os versos entre aspas são de Casimiro de Abreu)

“ Oh! Que saudades que eu tenho”
do circo da minha infância,
saudade – doce fragrância –
cheirando tempo passado.
circo da infância, da roça,
 circo que os sonhos remoça,
onde estás, o circo amado?

Palhaços, santos palhaços,
aos pontapés, aos abraços,
gargalhadas, gargalhadas!
Nariz grande, olhos enormes,
luvas, sapatos disformes,
que imensas atrapalhadas!

Bonecos em cena. Agora
 a plebe em silêncio chora,
 comovida pela história...
Depois, as feras domadas
 aplaudidas cavalhadas,
 jamais desmentida glória.

O equilibrista, o adivinho,
o caipira, o anãozinho,
 a mulher na corda bamba...
A função a noite vara
e somente a função pára
quando a lua já descamba.
 

E ficava na alma da gente
 como um sonho surpreendente
aquela noite feliz...
Na roça quando aparece
o circo nunca se esquece
 vida inteira se bendiz.

 Meu circo de outrora,
meu coração chora,
nunca mais te apagarás
das minhas recordações.
Onde estás, circo que amei
 e que tantas palmas dei,
prantos, sonhos, emoções?

“ Oh! Que saudades que eu tenho,
 da aurora da minha vida,
da minha infância querida”

quando um circo me alegrou.
Obrigado, Casemiro,
a quem tanto amo e admiro

pelos versos que  emprestou.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

DOIS QUADROS

Lino Vitti


                                      À moda de Castro Alves

         O Lavrador

Vibra o sol. Saltam lascas rubras de aço
Na soalheira espasmódica do espaço,
Caustica e ferve o chão.
Herculeamente o lavrador trabalha,
Faz da enxada um punhal, trava batalha,
Colhe uma glória - o pão.

Já é tarde. Rolam sombras no infinito.
No  vale, esvai-se um derradeiro grito
De pássaro cantor.
A natureza sente a angústia parda
Da tarde ida, e, da noite que não tarda
Sente o vago pavor.

E volta o lavrador. Busca a cabana
Onde o esperam os olhos da serrana
E, os filhinhos, talvez.
Chega. Trocam sorrisos. . . e a ansiedade
Desse momento de felicidade
Lhe inunda em cheio a tez.


Dentro, então, ao clarão de uma candeia
Sorve gostosamente a simples ceia
Que o trabalho lhe deu.
E lembra... num altar muda-se a sala
Um incenso de prece ali se exala
Agradecendo ao céu.

          

sábado, 14 de fevereiro de 2015

ESTRELAS

Lino Vitti

Estrelas!
Sarampo luminoso do céu
Que é a epiderme da noite tropical.
Estrelas!
Suor dourado escorrendo na face da treva
Que está ardente de febre, ou, frígida de agonia!

Estrelas!
Milagre de maná ofuscante, chovendo
No deserto do espaço!
Cristais rutilantes de gotas sangüíneas
Gotejando da ferida crepuscular
Que um monte assassino pouco antes
Rasgou na tarde, com uma punhalada no horizonte,
Círios acesos que os anjos trouxeram a braçadas.
Para velar o dia defunto que o monte assassinou
Entocaiado na dubiedade do crepúsculo.

Estrelas,
Letras de ouro na página do céu
Onde as Três Marias põem
 Uma reticência de ansiedade
Depois que o olhar releu embevecido
O poema divino do Cruzeiro
E o romance fabuloso da Via-Látea.

Estrelas!
Desejos íntimos de almas sofredoras
Que, não achando, na terra, um coração
Onde se depositar, como num cálix,
(E o coração é um cálix atulhado de hóstias de dor)
Subiram para o céu, cristalizados,
E, hóstias, ficaram luzindo na eterna elevação
Do Sacrifício noturno.
Rosários férvidos de orações balbuciadas, baixinho,
No recesso espiritual dos conventos;
Tremulados nos lábios da velhice,
Espiralados das boquinhas inocentes das crianças.
Preces esperando sua vez pra entrar no céu.

Estrelas!
Versos inquietos de poetas incógnitos
Que bebem poesia na taça lírica da noite.
Borrifos incendiados do repuxo das constelações.
Dilúvio de vagalumes do infinito
Que sonhei, em pequerrucho, tantas vezes acariciar
Com as mãozinhas gulosas
Nessa mania angelical de pedir das crianças.
Estrelas,
Sonhos de românticos batráquios e libélulas
No céu fundo e invertido das lagoas cismadoras
Onde há encantamentos de palácios de fadas
E há estrelas soltas a vagalumear.



Estrelas!
Estrelas, sarampo do espaço!
Estrelas, suor das alturas!
Estrelas, maná luminoso!
Estrelas, gotas de sangue!
Estrelas, círios dos anjos!
Estrelas, escritas na noite!
Estrelas, hóstias! .
Estrelas, preces!
Estrelas, versos!
Estrelas, borrifos!
Estrelas, vagalumes!
Estrelas, estrelas! Eu quisera
ter um coração grande como a noite

Para abrigar-vos todas dentro dele!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

ELEGIA AO MEU IRMÃO

                                              Rita de Cássia Brunelli Vasca


O tubo enfraquecido retalha
A obra inacabada que agoniza.
Terrível manhã!
Há tempo percorro esses corredores,
Sem percebê-los, ao seu encontro.
Em teu isolamento, entro
Junto ao meu coração, sozinho, carregando
Dor.
A indiferença de teus sentidos põe-me a orar.
Choro!
Por quê, e se no torpor da sedação
Algum mistério no abismo de teu cérebro
Faz-te ouvir?
Irmão meu, não vás! Luta! Luta!
Mas hoje, a dolorosa visão
Do em que tua inimiga o transformou,
Faz-me, em desespero recuar.
São apenas alguns maus-passos na via crucis
De outro dia,
Para alcançá-lo e recitar liras divinas.
Mas não os dou.
Paro! Sem leme, perco-me.
Meus olhos cobrem-no, assustados.
Meu corpo arde em vasta fogueira, semeando
As chagas de um Cristo humano.
O cheiro da morte exala de teu corpo sombrio,
parado, frio...
Sei que vais morrer, por isso,
Amargo convulsões em minha diligência.
Giro em direção à porta lenta
E do lado de fora de teu cárcere
Tenho um colapso de força:
Não morras, não morras, és novo ainda...
Fica! A vida ainda há de ser bela para ti!
Hás de encontrar o caminho neste labirinto de circo
em que te fizeram de palhaço.
Quantas vezes salvei-te dos crimes sepultos
Vindo da mesquinharia de tuas pessoas!
Quantas vezes deste laçadas num violão
Para entoarmos, em desafino, músicas de que tu gostavas.
Eu não! Mas, o que me importava se a alegria
Pouco pousou em ti?
Os carros ensurdecem  a solitária avenida.
Ando, penso:
Amparei-te na vida e salvei-te
algumas vezes da chegada da morte,
Mas, hoje, vou em direção a uma casa banhada em depressão
À espera de uma voz, atrás de um aparelho,
Que se lúgubre não fosse,
Poderia ser a tua, em teu chavão de humor cotidiano:
– “Sabe quem morreu?”
E, dessa vez, minha resposta seria:

– “Sei, Você!”

terça-feira, 8 de abril de 2014

DE VOLTA












Lino Vitti

         - I -

Vinguei, num brusco esforço, o velho morro
Daquele saudosíssimo caminho.
Mais uns passos. . . e perto já adivinho
Uns latidos amigos de cachorro.

Sinto-me leve agora, quase corro;
E' minha terra, é meu querido ninho!
E toda a infância, num imenso jorro
De saudade, me inunda, em torvelinho!

Relembro. . . e enquanto assim vou relembrando
Chego ao terreiro bem em frente à casa,
Onde me esperam todos num só bando. .

Um turbilhão de abraços já me arrasa,
Todos falam e gritam. . . e eu vou entrando: -
- "Água, sim, por favor". . . a goela em brasa...

                         - II -

Dois segundos de espera, e sobre um prato
Vão-me servindo, em copo de cristal,
Essa água clara e boa que há no mato,
Matadora de sede sem rival.

Bebo-a, sôfrego, quase de um só jato!
Que gostosura fria e vegetal!
Devem, creio, ocultar no anonimato
Alguma geladeira no quintal.

Impossível senão delícia tanta
Nesse copo, o mesmíssimo de outrora,
Do meu tempinho bom de meninice.

O mesmo em que molhei minha garganta
Dolorida de prantos, naquela hora
Derradeira, um pouco antes que eu partisse


sábado, 5 de abril de 2014

O MEU ROMANCE


Lino Vitti

O meu romance. Abri o meu romance.
Capítulo primeiro: a minha infância.
Reli tudo, reli lance por lance,
Cena por cena, na ânsia
De quem tenta agarrar uma coisa à distância
Que já ficou atrás fora do seu alcance.

Cromos de sol, painéis enluarados,
Minúcias de paisagem infantil!
Abril, abril,
Com vôos cruzados
De andorinhas nas tardes borradas de anil.

O meu romance. Capítulo segundo:
Mocidade !
Sinto nessa leitura um sabor profundo,
Um gosto amargo, e, parece que me afundo
Num vácuo delicioso de ansiedade. . .
Capítulo segundo. . . Começo.. . Não releio.
Tenho receio. . .
E' reler, devagar, toda a minha saudade !

O meu romance. Capítulo terceiro:
Velhice. Estão as páginas em branco.
Ainda nada escrito. Será cedo!?
Sairá este capítulo mais triste que o segundo
E que o primeiro?
E eu novamente tenho medo, ..
Tenho medo de principiar.
Cismo. . . Enraiveço-me. . . Depois, arranco,
Uma por uma, num grandioso gesto fútil,

Todas as folhas desse meu romance inútil

terça-feira, 10 de setembro de 2013

POEMA A PIRACICABA


Lino Vitti

A beleza das verdes colinas
enamora o audaz capitão.
A esperança dourada das minas
e os mistérios do rico sertão.
O rumor musical da cascata
a que o peixe teimava escalar,
o murmúrio das águas de prata,
todo um mundo de encantos sem par!
Terra roxa, divina promessa,
rio largo a buscar o Tietê.
Tudo corre, engrandece, tem pressa,
Povoador acredita e prevê.
Traça o chão onde um dia a cidade
será grande, quiçá capital,
surge no alto, à solar claridade,
a feliz Piracity eternal.
Ei-la em busca de um grande futuro,
muito amada por filhos geniais
que lhe ofertam o afeto mais puro
e acalentam-lhe os nobres ideais.
Ficou “noiva”, casou com o progresso,
da cultura fez sólido ideal.
Fez da agrícola ciência o sucesso
dessa ESALQ de fama mundial.
Pontilhada de escolas soberbas,
berço altivo de profissionais,
venceu lutas hostis mais acerbas,
fez dos sonhos os fatos reais.
Minha histórica Piracicaba,
dona excelsa de idílico véu,
meu amor, por você, não se acaba,
nem jamais serei cínico incréu.
Que seus filhos da urbe ou da roça
lhe dediquem o mais vivo amor.
Essa vida de amores remoça
no trabalho, realeza e fulgor.
Que o destino ofereça a grandeza
de fazê-la grandiosa e feliz.
Nossa vida a esse amor fique presa
a esse povo que a quer e bendiz.


PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA

CURRICULUM VITAE
( Síntese de Vida)
NOME – Lino Vitti
IDADE – 08/02/1920
ESTADO CIVIL – Casado, em únicas núpcias, há 56 anos, com a Professora Dorayrthes Silber Schmidt Vitti
FILIAÇÃO – José e Angelina Vitti
NATURALIDADE – Piracicaba, Estado de São Paulo –Brasil
Bairro Santana , Distrito de Vila Rezende
VIDA FAMILIAR
Casamento Civil e Religioso em comunhão de bens, Pai de sete filhos: Ângela Antónia, Dorinha Miriam, Rosa Maria, Fabíola , Lina, Rita de Cássia, Eustáquio.
VIDA PROFISSIONAL
Aposentado como Diretor Administrativo da Câmara de Vereadores de Piracicaba, e como Redator do “Jornal de Piracicaba”. Exerceu atividades no comércio, no Magistério, na lavoura até os l3 anos, na municipalidade local, como bibliotecário, lançador de impostos, protocolista, Secretário Municipal.

VIDA CULTURAL
ESCOLA PRIMÁRIA –
Grupo Escolar “Dr. Samuel de Castro Neves”, Santana, seminarista vocacional ao sacerdócio por seis anos, no Colégio Santa Cruz, da cidade de Rio Claro (SP), onde cursou humanidades, línguas, religião, ciências, matemáticas, música.
CURSOS –
Formou-se Técnico em Contabilidade, lecionou latim, francês, datilografia.

VIDA RELIGIOSA
Católico, Apostólico, Romano, fez curso de religião em seminário dos Padres Estigmatinos, foi organista da Catedral e da Igreja de São Benedito, de Piracicaba, e Congregado Mariano.
VIDA LITERÁRIA
Bafejado por ensinamentos de sábios sacerdotes em colégio de formação religiosa, recebeu extraordinário acervo literário que lhe propiciou enveredar pelo caminho da poesia, da crônica, dos contos, do jornalismo, havendo editado de l959 a 200l sete livros de poesias e contos, com edições em milheiros de volumes, os quais estão aí para satisfazer o gosto daqueles que apreciam a arte literária.
São seus livros : “Abre-te, Sésamo”, l959; “Alma Desnuda”, l988; “A Piracicaba, Minha Terra”, l99l; “Sinfonia Poética”, de parceria com o poeta Frei Timóteo de Porangaba; “Plantando Contos, Colhendo Rimas”, l992; “Sonetos Mais Amados”, l996 e “Antes que as Estrelas brilhem”, 200l. O poeta conta ainda com o prazer de haver composto hinos para diversos municípios, bairros rurais, entidades sociais diversas, continuando a colaborar ainda, após os 83 anos em colunas literárias e com artigos de ordem geral em jornais da terra.
Faz parte da Academia Piracicabana de Letras que lhe outorgou o título honorífico de “PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA’.
Foi-lhe concedida Pelo Município de Piracicaba, através de sua Secretaria da Ação Cultural, a MEDALHA DE MÉRITO CULTURAL, “ Prof. OLÊNIO DE ARRUDA VEIGA’; é detentor do TROFÉU IMPRENSA, concedido pelo Lions Clube de Piracicaba, centro, e da MEDALHA ITALIANA, concedida pelo governo italiano de Benito Mussolini aos alunos de escolas e seminários de origem daquele país que tivessem se destacado em redação de trabalhos literários escritos na língua de Dante.
O Município de Saltinho, para o qual contribuiu com o Hino dessa comunidade municipal , conferiu-lhe o título de “Cidadão Saltinhense”.

DISCURSO

Por ocasião do lançamento do livro de poesias “Antes que as estrelas brilhem “, pelo poeta Lino Vitti foi proferido o seguinte discursos:

Exmo. Sr. Heitor Gauadenci Jr. dd Secretário da Ação Cultural

Exmo. sr. António Osvaldo Storel. dd. Presidente da Câmara de

Vereadores de Piracicaba

Exmo.sr. Moacyr Camponez do Brasil Sobrinho, dd. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico

Exmo,. sr. Henrique Cocenza, dd. Presidente da Academia Piracicabana de Letras

Exmo.. Sr. Ésio Pezzato , anfitrião desta solenidade

Senhoras e Senhores

Pela sétima vez (graças a Deus) em minha vida lítero-poética vejo-me guindado a uma tribuna improvisada (o que é bom porque torna o fato mais popular), para proferir um discurso de agradecimento, ao lado da oferta de um novo livro de versos. É teimosia essa de poetas em desovar sua produção para que mais gente participe de suas tiradas, muitas vezes fora de forma e de ambiente, mas que o poeta não vê porque , ao editar um novo livro está cego pela emoção , como se fosse a vez primeira. Está aí o Ésio Pezzato, responsável por mais esta minha invasão no mundo das letras poéticas, para dizer se não é assim. Para dizer se não sofre também dessa doença feliz de editar livros e mais livros a ponto de perder a conta, já que a esta altura ele não sabe se já está no décimo ou décimo primeiro. E ainda continua batendo dedos de métrica, sabemos lá por quantos anos ainda !

Tenho um ex-colega de seminário, prof. Hildebrando André, aposentado como professor universitário e com o qual mantenho longa e pródiga correspondência, que não se cansa de enaltecer a felicidade de Piracicaba contar com tantos poetas e poetisas. Tem razão ele, pois se apenas dois deles já conseguiram editar l8 livros de poesia, imagine-se as centenas que seriam necessárias para dar um pouco de vazão a essa raridade intelectual que toma conta da minha terra!

Este meu livro vem à lume por obra e arte do prefeito José Machado , seu Secretário da Ação Cultural e de seu zeloso servidor Ésio Pezzato que se entusiasmaram diante da recitação de diversos poemas meus por um grupo de jograis, alunos da UNIMEP, e impressionados decidiram patrocinar a publicação deste livro, pois entenderam que Piracicaba poética merecia conhecer em mais profundidade o seu príncipe da poesia. E aí está, lindo e impecável, entregue às mãos do povo de Piracicaba, que indistintamente de cor, estudos, intelectualização , posses financeiras, categoria de trabalho, com religião ou agnóstico, jovem ou adulto, roceiro ou citadino, aí está, para quiçá, momentos de lazer e sonho. Sonho , sim, porque a poesia é terrivelmente sonhativa , vive no mundo da fantasia, alicerça-se nas bases da emoção e brota do âmago mais profundo do poeta, e para que as filhas de Eva não reclamem, da poetisa também.

Alguém me perguntará? Como é ser poeta? Juro, nunca pensei nisso. Acho que ninguém consegue ser poeta. Já é. Nasce feito, como dizem.

não é verdade Maria Cecilia, Ivana Maria, Ésio Pezzato , Prata Gregolim, Marina Rolim, Valter Vitti, Mario Pires, Saconi, e tutti quanti enfeitam com seus lindos versos as páginas do “ Jornal de Piracicaba, ou da “Tribuna Piracicabana , e assim também esse cacho imenso de livros poéticos que quase semanalmente são dados ao conhecimento e sentimento público de nossa terra ? Tornando-se um privilégio de uma cidade, como disse alhures o supra citado meu colega seminarístico Hildebrando André. ?

Não se suponha que para ser poeta é preciso ter nascido em berço de ouro ou em centros intelectuais de enorme repercussão. Nada disso. Tenho um soneto que define bem esse fato. É assim: “Eu não sou o poeta dos salões / de ondeante, basta e negra cabeleira] não me hás de ver nos olhos alusões / de vigílias, de dor e de canseiras. // Não trago o pensamento em convulsões,/ de candentes imagens, a fogueira. / não sou o gênio que talvez supões/ e não levo acadêmica bandeira.// Distribuo os meus versos em moedas/ que pouco a pouco na tua alma hospedas / - raros , como as esmolas de quem passa. / Mas hei de me sentir feliz um dia/ quando vier alguém render-me graça/ por o fazer ricaço de poesia. // “ . Poetas e poetisas saem do nada , devem trazer o selo ou o bilhete de entrada nesse reino encantado desde o útero materno, embora ouse eu afirmar que a vida é também uma grande mestra , as influências da mentalidade circunvizinha,

o próprio meio ambiente, podem , em circunstâncias outras , plasmar um poeta .

Eu fui plasmado , por exemplo, por entre maravilhas campestres. A roça ou o campo são fantásticos criadores de poesia. Ela anda atapetando por todos os cantos a natureza, as gentes, os animais, os atos e fatos. e a cabeça daqueles com quem ela convive. E o poeta, criador por excelência, se abebera de todas as belezas esparsas pelas colinas, serras, vales e descampados , para transformar tudo em versos e rimas, ou em versos simplesmente, onde pululam , como cabritos silvestres, as figuras literárias, os tropos, as sínteses, as comparações, e todos os anseios que lhe vão no imo da alma. Para satisfação própria e para satisfação dos que convivem com o poeta. E´ por isso que se botardes olhos curiosos sobre meus poemas havereis de tropeçar a todo o momento com um motivo roceiro, pois trago uma alma plasmada pelas belezas rurais de Santana, Santa Olímpia , Fazenda Negri, e especialmente por aquela colina encimada ,no cocuruto, pelo prédio do grupo escolar, onde aprendi a ler e escrever e a poetar.

Peço desculpas por haver-me prolongado um pouco nestas elucubrações poéticas, desobedecendo aos conselhos do amigo Ésio que continua exigindo de mim discursos improvisados, o que seria tão para os ouvintes , que ansiosamente aguardam o momento de bater palmas acabando assim com a verborragia oratória.

Não posso entretanto encerrar esta breve alocução sem deixar consignados meus agradecimentos do fundo do coração ao prefeito José Machado ,ao seu Secretário da Ação Cultural Heitor Gaudenci Junior, ao seu sub-secretário poeta Ésio Pezzato, ao prefaciador Moacyr de Oliveira Camponez do Brasil sobrinho, aos queridos opinadores Maria Cecília Bonachella, Maria Ivana França de Negri, exímias poetisas, prof. Elias Salum e a minha filha Universitária Fabíola Vitti Moro, pela maravilhosa capa, Editores e toda equipe de funcionários , à minha esposa pela sugestão transmitida ao prefeito com relação ao advento desta obra, aos digitadores Nair , minha nora e neto Leonardo, e outros que possa ter esquecido, como é fácil em cachola idosa, - meus agradecimentos repito, pela reunião de esforços e trabalho que tornaram possível o advento de mais um livro de minha lavra.

Obrigado “ em geralmente” como dizem nossos cururueiros, aos que ilustraram com sua arte musical esta solenidade e assim também a todos quantos acharam um tempinho para vir prestigiar-me nesta tarefa de cultura e arte. Levem a certeza de que nada mais desejo do que engrandecer com minha poesia a terra que me viu nascer, a terra que me viu crescer, a terra que me proporcionou oportunidade para chegar a um cargo tão nobre quão dignificante de “Príncipe dos Poetas de Piracicaba”

Meu carinhoso obrigado também aos meios de comunicação, de modo especial “Jornal de Piracicaba”, na pessoa de seu Editor Chefe Joacyr Cury , de “A Tribuna Piracicabana”, na de seu diretor Evaldo Vicente, pela divulgação caprichosa deste evento que afinal nada mais é do que mais uma demonstração da exuberância cultural da Noiva da Colina.

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