Lino Vitti - Príncipe dos Poetas Piracicabanos

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A CAMISETA OU QUASE ISSO


                                        Lino Vitti

Ninguém mais tem dúvidas sobre o desarvoramento em que anda a humanidade. O preto já não é mais preto, o branco branco mais não é. Coletiva e individualmente, homens e mulheres não se entendem, pais e filhos, além de não se entenderem não se comunicam, marido e consorte se desrespeitam com extrema facilidade, mestres e alunos não afinam as responsabilidades. Tudo isso para embatucar mais e mais a cachola pensante daqueles que, ainda (ainda?!) anseiam por um mundo tisnado por laivos de felicidade. Desagregadas, social e internamente, as famílias se desmilinguam. E cada lar (?!) vira foco de desavenças, discordâncias, incompreensões e mais substantivos desse jaez.
Essas tiradas, moralísticas até certo ponto, provinham da quiçá última boa             cabeça-chefe da família Júbia, ninho de tradições e convicções, um pouco ainda lambuzada por velhos preconceitos, por desprezados princípios, por criteriosas intenções.
O comandante-famílial, o Júbia, condutor daquela pequena nave social, pelos mares borrascosos do mundo, meteu a numerosa prole dentro de um torniquete de moral religiosa, cívica e comunitária, conforme as exigências das origens, conforme o exemplo dos antepassados, conforme a dignidade obrigatória trazida até então pela bagagem do tempo. Isto o obrigava a viver sempre no alerta, porque a sociedade, tachada de moderna, materialista e anti-religiosa pelo velho Júbia, amiudava seus ataques ao reduto do defensor da moral, sem rebuços, das convicções, a todo o custo.
****
O Jubialito, um dos filhos da récua patriarcal, às tantas daquela monotonia vivencial, assim julgada por quantos gostavam de viver à moderna, à atualização sem termos da vida e das inteligências, do espírito e do corpo, o Jubialito – repete-se – resolveu (resolução orquestrada pela irmandade sequiosa de novidades) casar, montar família, não só porque a idade se lhe avançava celeremente, acompanhada pelo batalhão de exigências biofísicas, mas também por haver amealhado, graças ao emprego de caixeiro-viajante, algumas indispensáveis economias.
Giselina, uma lindura do bairro, graciosa e estuante de instintos – a escolhida – topou a parada casamental, mesmo porque os pais não tinham como negar tão naturais e reais anseios da jovem casadoira. E assim, realizou-se a festa do “conjugo vobis”, sob as bênçãos do Vigário, o aplauso da sociedade e a inveja de muitas outras aspirantes a esse sacerdócio-branco, onde às vezes se criam anjos, outras muitas, demônios terríveis.
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Lua-de-mel! Misteriosos dias de suposta felicidade que seguem o mais importante acontecimento da vida dos jovens! Programa-se numa localidade distante um quarto em geral de hotel; motel, não (porque impressionaria mal os moradores do bairro e amigos dos conjugantes), um leito convidativo entre paredes imunes a bulhas e a vozes, com luzes abafadas para tornar tudo envolto numa penumbra crepuscular, um CD lânguido a musicalizar baixinho a alcova comprometida, criados mudos camaradas em sua mudez, pijamas perfumados e coloridos, talvez flores em algum canto propício, eis, em resumo, o que constitúi o supra-sumo de uma noite, da primeira noite de uma ansiosamente aguardada lua-de-mel.

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E os comparsas do sublimado acontecimento nupcial? Ele e ela?! A quantas anda a cobiça do moço? A quantas anda a timidez da jovem? Não adianta negar, mas para quem vai virgem a um ato tão especial, para quem foi educado na contenção familiar dos instintos, há sempre a indecisão, o medo, o desconhecimento, a possível decepção! Ou a dor, o pranto, a discordância! Diria eu, longe de Freud e caterva, que esse momento é crucial, é um “ultimatum”, um ato de guerra a dois, travada longe do mundo, longe dos olhos invejosos dos outros mortais, um gesto memorável, pois se trata, nada mais, nada menos, do que vencer a virgindade, entregar o corpo e alma ao domínio exigente dos instintos, para um futuro adiante, até que “a morte os separe”, reza-se ao pé do altar.

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Alerta-se o leitor, caso estas linhas tenham a felicidade de chegar até ele, que os jovens desta pequena história foram ensinados pelo escola dos tempos em que não se aprendia nada sobre essas coisas íntimas a que embora estamos todos sujeitos ou não um dia na vida. Os comparsas, pois, desta elucubração contística, não fugiram às regras do seu tempo, ou melhor, do seu ambiente. Nem por isso, entretanto, deixaram de receber, em grau disperso, em proporções mínimas, por meios desconexos, os ensinamentos contraditórios da tradição e do passado.
Há sempre alguém mais sabido, mais entendido, uma comadre novidadeira, uma colega ou um amigo avançados que insinuam aos futuros cônjuges formas e modos de destruir a finalidade primordial da união entre seres.
Fosse hoje, a parafernália de meios de comunicação, de escolas, de livros, de revistas, de jornais, de bocas-comadres, de exibição ao vivo em teatros a até em praias, onde se cultua o nudismo, ter-se-ia incumbido de ensinar aos nossos heróis luademelantes, como evitar traumas, dores, temores, desconfortos e tristezas, dando lugar soberano aos prazeres da carne, às alegrias, aos confortos, à beleza, primordiais condições para uma felicidade duradoura a dois, e, depois, quiçá, a mais que dois.
Chegara o momento da prática, empurrando para trás quaisquer teses e teorias. O momento era grandioso! Era glorificante!
- A camiseta, pediu Giselina...
- ?!?!?!?!?!
- A camiseta, repetiu a jovem, já corada ao máximo e encabulada com a ignorância do provável pai de seus filhos.
Jubialito, sob indícios de um valente suadouro, tímido e atrapalhado, corre até a mala de viagem, remexe-a nervosamente, e com ímpetos estranhos fuça de um lado, fuça de outro, descobre afinal a camiseta de ginástica que, por via das dúvidas decerto, a preventiva mãe envolvera entre os ternos e camisas para a primeira aventura conjugal do seu menino.

E com ar triunfante, bagas de suor agora rolando cara abaixo, o estreante marital içou, como um troféu, a camiseta, a solicitada camiseta, pela noiva ansiosa. Asas de felicidade esvoaçavam pela –– assim vista nesse sonhado momento –– alcova estufada de fantasias, de desejos, de possibilidades, de amor.

Era uma estranha figura humana aquela no recôndito de um quarto de hotel, empunhando como bandeira de vitória, leve e quase esvoante peça de roupa, rumo de uma longamente esperada conquista, numa hora em que o animalismo da espécie perde todas as noções da normalidade para enveredar por uma região totalmente desconhecida, onde encontrar, quem sabe, a ventura para o resto da vida, quando não o dissabor supremo do fracasso, do erro, do desprezo.

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Ao sabor da brisa gestada pela modernidade dos ventiladores, a camiseta erguida pelo mastro do braço, lembrava bem um lábaro daquela guerra de esqueletos aguardada por brancos lençóis, por cortinas de cambraia, por aquele céu adrede preparado para uma noite de amor, do primeiro amor.
Do outro lado, o exército formado de um único soldado, ou melhor, de uma única guerreira, não pareceu entusiasmado com a bandeira desfraldada. Surpresa, aborrecida, carranca terrível (sabem vocês o que é carranca de mulher ofendida e descontente?) Giselina repeliu o atacante estupefato, e prorrompeu num choro convulsivo abafado pela alvura dos travesseiros e gemeu:
- Não, tolinho, não é nada disso. É aquela coisa que evita a gravidez.
- ?!?!?!?!
Concluindo, pode o contista escrever que foi mais uma lua-de-mel fracassada. E fracassada, não porque houvessem faltado cenário, decisão, vontade, esperança, desejo. Fracassada por um simples erro de semântica gramatical, por uma troca singela de vocábulos, pelo uso indevido de um diminutivo substantivado.
Evidentemente sob o impacto da emoção, a noiva que (digo-o agora), não desejava a gravidez, e não estava ainda devidamente familiarizada com o uso dos termos da modernidade matrimonial, balbuciou “camiseta”, quando, nesse ponto culminante de sua vida, o certo e o que desejava mesmo era o outro diminutivo gramatical de camisa.

Coisas da educação sexual de hoje.

domingo, 24 de março de 2013

REBELIÃO DE INSTINTOS OU SUGESTÃO DE UMA FOLHA


Lino Vitti

O caso é que Lupércio (ele detestava o próprio nome) abrira os olhos azuis num humilde quarto de humilde casa da roça, arrancado do berço maternal, onde vivera nove
meses prisioneiro de um útero fértil, um útero forte, responsável pela gestação de nada menos que dez rebentos entre varões e mulheres. Uma barriga maternal pródiga, cristã, exuberante, em cujas profundidades criadoras jamais se ousara meterem-se ferros e bisturis, senão que apenas as longas e nervosas mãos da tradicional parteira das redondezas. Partos perfeitos, criaturas perfeitas.
Lupércio não poderia ser exceção. Berrou com toda a valentia, custou a arrefecer os vagidos do contato com o mundo que o aguardava, e prometia, pouco depois enrolado, esticadinho, naquela panaria limpa e branca com que as mães do sítio apertam em longa e larga faixa o tiritante corpinho do mal-nascido, prometia, repito, crescer forte, bonito e corajoso, como aliás, almejam todos os pais e mães que assim seja.
E cresceu, virou menino, descambou para a adolescência. A meninice viveu-a, poderse- ia dizer, como a vivem todos os meninos da roça, no que se pode chamar de ambiente doméstico e circundante. Não porém, a sua personalidade em botão. Desde muito cedo, Lupércio, saudável de corpo, e muito mais de espírito, ouvia bem de perto o ulular da caterva de instintos. Eram labaredas que lhe subiam dos pés, pelas pernas, pelo tórax, pelas mãos, pela cabeça, rumo ao cérebro, onde se formavam fantasias imensas, onde vinham se estadear fantasmas sexuais. Não eram poucas as vezes em que o pré-adolescente se perdia a contemplar aves, animais, domésticos e selvagens, se unirem para o ato da procriação natural. Aquilo lhe transmitia um calor aos olhos, algo que queimava o corpo de alto a baixo, numa ânsia de imitar, de fazer. E no âmago de sua cabeça efervescente as figuras das companheirinhas de escola, das vizinhas, até de jovens e moças de muito mais idade, vinham amiúde se apresentar. Sonhando com o mistério que um dia se lhe poderia desvendar.
O adolescente da roça, sabem os sociólogos e os sexólogos, tem multiplicados
exuberantemente seus instintos. Em toda a parte, se lhe oferecem oportunidades para
fantasiar mais e mais, aguardando com ansiedade o dia, a hora de poder fazer o que fazem os animais domésticos e selvagens, dando assim vazão a essa força colossal e indomável, que lhe queima o corpo e lhe atrapalha a alma, com mal compreendidas necessidades biológicas, na busca de um alívio físico e espiritual que ainda não sabe bem como há de conquistar e conseguir.
O estado da adolescência é terrível. O moço sente, vê, debate-se com os instintos, mas não há como enfrentar toda essa pujança sem ferir pruridos de consciência, da fé, de família, do mundo. Parecia a Lupércio que todo o universo lhe apontava o dedo condenatório: não pode, não deve.
****
Um dia (que dias tremendos há na vida!) o adolescente Lupércio viu-se metido num coletivo urbano, ao lado de desgastada mala lotada de roupas, cobertas, lençóis, um par de tênis barato, escova de dentes, sabonete de coco. Partia. Dezessete anos. A desconhecida vida de um internato religioso. Até quando? O que haveria de vir? Lupércio lembrava-se apenas de engolir o nó da garganta e enxugar, com as mãos, um tanto às escondidas, as dificilmente escondidas lágrimas.
Seria o fim? Não sabia. Poderia sim, ser o fim daquela maravilhosa vida de infância na roça, onde ficavam as árvores, os pássaros, as colinas, os colegas, amigos e companheirinhas, as chuvaradas, as noites estreladas, os luares românticos, as plantações, as caçadas, as colheitas, o terço em família, a felicidade de uma infância despreocupada e feliz, aivada de surtos e sustos de instintos em ebulição.
****
O Internato! Casarão terrível a engolir adolescências para forjar, na disciplina e no estudo, as incógnitas personalidades de amanhã! Lupércio espichou os olhos, ainda a relampejar paisagens silvestres e roceiras, por aquelas paredes acima um, dois, três, quatro pavimentos. As janelas em fileira indiana pareciam dizer-lhe “lascsiate ogni speranza o voi che intrate”. Atrás daquele portal e daquelas janelas misteriosas que decerto jamais viriam a ser ocupadas por aqueles que adentravam o internato, em gestos de espiar a rua e o mundo, devia existir um outro mundo, completamente diverso e estranho do vivido até então pelo jovem aspirante ao sacerdócio.
Se ao deixar os pagos natais já se lhe derrocaram, anos de vida, já entendia como perdidos atos, gestos e pessoas daquele seu trecho feliz de vida, o que não lhe deveria caraminholar a cabecinha ainda mal estruturada para mudança tão brusca, a visão daquele edifício imenso, coalhado de mistérios, físicos e psíquicos, onde deveria colocar seus pés, para um contrastante modo do viver, no seio de uma família estranha que não aquela deixada nos cafundós do sítio!?
O convite daqueles portais era inexorável. Era um convite para mudar um destino! E transpostos os umbrais atrás dos quais se lhe enclausuraria esse mesmo destino, Lupércio sentiu um frio pelo corpo. Reagia-se-lhe a alma adolescente naquela manifestação física capaz de dizer-lhe: “esqueça tudo o que ficou para trás! Esqueça a infância, as brincadeiras, os colegas e as coleguinhas, a mãe, o pai, os irmãos, as paisagens, os divertimentos, a vida roceira enfim. Deixe que sangre a hemorragia da saudade incurável, que os perseguirá pelos dias afora”.
****
E assim se fez, porque assim estava escrito na página do destino! Deram-lhe uma caminha de solteiro, um banquinho titubeante para criado-mudo, um 1avatório imenso, longo e cheirando a todos os sabonetes.
Uma gaveta fixa numa estante à moda de guarda-roupa coletivo, cobertas simples pouco adequadas à intempéries de um dormitório metido no sótão do grande prédio. Os preparativos para as suas noites eram rápidos e repetitivos. Dormir era uma exigência disciplinar. E no dia seguinte, mal o dia tingia de rubro o horizonte, uma sineta tenebrosa, insensível, dramatizava o despertar daquela legião de adolescentes e jovens. E se iniciava um ritual vídeo-tape de um e de outro dia, com longas horas de estudo, infindáveis horas de aula, caínhas horas de recreio e muitas horas de silêncio e oração.
Todo programa ritmado e repetitivo não conseguira arrefecer na alma e no corpo do adolescente aspirante, as exigências dos instintos. Passava noites em briga com eles. De
um lado a escalada cada vez mais apressada e forte do sexo exigente, de outro, a palavra dos mestres e instrutores, condenando sumariamente aquela força incontestável e indefensável que lhe energizava o corpo. E a luta se travava intensa entre a ordem e a disciplina, o pecado e o prazer. Noites mal dormidas, lembranças longínquas da infância, remorsos e escrúpulos, o prêmio do céu e o castigo do inferno, aí presentes como um pêndulo fantástico a tocar para frente as horas, os dias, os anos.
Os instintos, cada vez mais contundentes, cresciam. Os deveres e obrigações cresciam também. De tal sorte que a luta era tremenda, travada na solidão das horas noturnas ou nas longas horas dos silêncios dos estudos e dos recreios.
****
E os anos foram somando batalhas com derrotas e vitórias quiçá. Aproximava-se o dia fatal da decisão vocacional. Lupércio temia a sua chegada, pois sabia que as forças dos instintos superavam de muito as forças vocacionais. As lutas haviam sido muitas e muitas as derrotas. Como esperar agora o advento de um auxílio tão forte capaz de levá-lo a esquartejar, com a espada de luz da coragem e da valentia adolescentes, o inimigo há tantos anos enfrentado e nunca, ou quase nunca vencido!?
****
O acaso decide. O acaso socorre em muitas oportunidades aqueles que não enxergam mais uma saída para a solução de graves e íntimos problemas. Lupércio topara, casualmente, com esse personagem, do qual se engendraria uma solução para aquela longa e ingrata batalha dos instintos rebelados, dos instinto exigentes, dos instintos que querem o que querem, dos instintos que lutam aos extremos para fazer valer sua vitalidade, sua presença no homem, seu destino de elemento continuador de espécie.
O pátio do internato onde alunos dos mais variados cursos e oriundos das mais variadas localidades, esparramava-se amplo e sombreado por figueiras frondosas. Sob elas reuniam-se grupos de estudantes. E as árvores como que ouviam as conversas, os diálogos, os debates, os cochichos entre aquelas bocas controladas e presas a uma disciplina rígida.
Foi quando uma grande folha, amarelecida, despencou do alto de copa e caiu, dançando,
entre os debatedores, passando rente ao rosto de Lupércio. Um relâmpago de pensamento cruzou-se-lhe no cérebro e a boca murmurou:
- Ei, colegas, essa folha rolante é bem a imagem da minha vocação, do meu destino.
Amarela e ressequida, levada pela brisa, é como a sinto dentro de mim.
Poucas palavras, significativas palavras. O diretor de alunos ouviu-as e guardou-as para com elas traçar o destino daquele lutador de instintos, de importantes instintos humanos. E no recesso da cela convocara o indigitado aspirante e qual fora um raio terrível, Lupércio ouviu:
- Então estás como a folha esvoaçante da figueira? Não queres mais ficar preso na fronde deste internato, onde se cuida das coisas de Deus, com vontade e amor, dedicação e empenho? Segue pois o trajeto da folha amarelecida que é andar de rastros no pó do chão... voltarás para teus pagos, onde a consciência estará mais livre para essa luta de instintos que dizes sustentar a tantos anos...”
O ultimato superior fatalizava-lhe o destino. Tinha a força de quebrar, como dinamite, aqueles muros altos e intransponíveis que lhe cerceavam os passos para a talvez
aparente liberdade do mundo, onde supunha o aguardariam todas as liberdades corporais e instintivas, transformá-las em armas para derribar ao pó o demônio daquela força profunda que lhe vivia a atormentar os dias e as noites, o interior e o exterior da personalidade.
Aguardava-o um diverso retorno, depois muitos anos, àquele trecho da existência de onde partira, sob o impacto de uma luta infrene, entre espírito e carne, entre virtude e pecado.
E a ordem, o mandamento, partira não de um fato de enorme poder sobre o destino das pessoas, sobre o seu próprio destino, mas de apenas um minúsculo e inédito acontecimento trivial de uma folha de figueira, balouçante, despregada do galho da árvore mãe, combalida e em agonia vegetal, rumo ao ignóbil destino de morrer de rastros na frialidade e indiferença do solo.
Quantas folhas, no mundo, se despedem da fronde, esvoaçam por instantes entre o  azul e a terra, rolam pela areia, apodrecem ao vir primeira chuva, viram solo, sem que ninguém, sem que olhar algum, lhes dediquem qualquer atenção, lhes sirvam de modelo de vida, de solução vocacional, de diretriz para quem quer que seja! Ignoram-nas simplesmente! E aquela, aquela estranha mas significativa folha de figueira a amarelecer,
por que haveria de aparecer em seu caminho, como se fora uma folha viva, inteligente, mensageira, escrevendo na lousa dos acontecimentos pessoais de um brigar mourejante de instintos, o que era preciso fazer, qual o caminho a seguir daquele átimo de tempo em diante?
Qual o dedo milagroso que apertara o pedúnculo vegetal daquela folha entre milhões de folhas de figueira, para num exato instante, inesperado mas valioso, ditar novo rumo para uma alma em cujo seio se desenrolava, surda, oculta, dolorosa, uma batalha que só neste momento viria a lume?
E depois de meio século de vida, quando a arte exigiu do seu personagem uma história a contar?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Deslumbramento


Deslumbramento
Lino Vitti

Batizaram-no de Manuel. Ficou para a vida, depois, o simpático apelido de Manequi. Interessante como se penduricam apelidos nas pessoas. E como todos, pais, familiares, mestres, amigos e outros se unem em torno da alcunha, a repetem, a conservam, a eternizam. Assim, era Manequi daqui, Manequi dali, Manequi de cá, Manequi de acolá. E o Manequi sorria, um sorriso gostoso de quem aprova o nome que de batismo não é. Talvez porque, o Manuel, trazia aquele
diabo de hiato de mau gosto “ue”, tornando-o de certo modo anti¬pático ao uso e meio mole de se pronunciar.
O menino, entretanto, cresceu como todos os meninos da roça, pois na roça havia nascido. Quem baixa a este mundo, em noite escura, arrancado das entranhas maternas por mãos de parteira amadora, já chega berrando, colocando em polvorosa a casa e as vizinhanças, com a força de seu choro valente e promissor. Manuel assim prometia, e mantinha, ao caminhar da vida roceira, a valentia necessária para uma existência difícil, sempre a exigir algo, como eram e são ainda as vidas que brotam, florescem e frutificam na liberdade do campo.
Não quero me deter, por exigências aprisionadoras dos espaços muito preciosos dos jornais de todo o mundo, em desfiar em detalhes os dias de infância do Manequi, em muito semelhante a de todos os meninos roceiros; não poderia deixar de dizer entretanto que o nosso herói nascera com um espírito de observação incomum, porquanto se os demais de sua idade e de origens assemelhadas não davam trela observativa aos fenômenos da natureza campesina, a alma de Manequi como que se deixava imantar pelas maravilhas de um amanhecer ou de um entardecer, de um dia de sol, de uma árvore frondosa, de um lavrador lutando de enxada à mão ou arando, de um temporal a toldar os horizontes natais, de uma floresta cheia de todos os arcanos vegetais e animais, de um plenilúnio seresteiro, de um regato a conversar com as ervas e as flores da mata espessa, enfim, de tudo quanto constitui as belezas, os encantos, o amor e o sonho de uma vida campestre.
E sonhava também. Sonhava com um mundo imenso, generoso, rico, feliz e fantástico que deveria existir e brilhar além dos limites de sua roça, como lhe faziam chegar aos ouvidos e ao seu mundo de fantasia, as conversas das visitas forasteiras, as aulas das professoras escolares, o noticiário radiofônico, e especialmente os livros sobre os quais muitas vezes e feito um poço de curiosidade se debruçava o garoto, sedento de conhecer e desejar um dia, quiçá (?), ver de perto, tocar com as mãos gulosas de esperanças e novidades.
Manequi sonhava muito, aliás. Além das fronteiras domésticas que se estendiam até onde os olhos curiosos podiam deduzir, era possível existirem grandes cidades, fabulosas cidades, novas terras, novos horizontes, novas gentes, novos e muitos lares, novos e muitos amigos! E como os desejava! Muitas vezes, na luminosidade do dia, tocando as nuvens alvas e movediças, roncando como estranho animal voador, Manequi contemplava o voo metálico de um avião e vibrava com a ideia de que lá, nas alturas infinitas, dentro daquele pássaro de ferro, havia pessoas, pessoas que buscavam outras terras, outras gentes, outros horizontes. E invejava, e desejava, e batia palmas ao espetáculo, ansioso de um dia também voar aprisionado no seio da ave de aço que comia as distâncias espaciais como se nada fossem.
* * *
O meio-dia sufocava. A roça diluía-se sob a glória do sol. E o calor, e a hora, e o silêncio e tudo convidava para a sesta. Pássaros e bichos silvestres ou domésticos calaram seu canto e seu mugido, buscando a sombra e a tranquilidade. E o ronco do avião destoava como um absurdo, na imensidade azul do dia.
Ao longe, de súbito, o horizonte se abriu e se distendeu fantasticamente. E na fímbria do infinito foram se delineando, como um milagre, inúmeros arranha-céus. Subiam, subiam, quase arra¬nhavam verdadeiramente o céu. Encostavam nas nuvens. E a festa das vidraças faiscava, tremeluzia, caleidoscopicamente, fantasticamente. E ele via. Manequi via. E a curiosidade do menino escorria por aquelas paredes intermináveis, rumo ao chão. E aqui fervilhavam veículos e mais veículos, de todas as cores, de todos os tipos, num festival fremente de vida e progresso. E homens, mulheres, crianças, velhos, jovens, brancos, negros, orientais, europeus, americanos, fervilhavam num caminhar apressado, como quem vai em busca de uma existência feliz, trabalhosa e sonhada. Regurgitavam lojas, casas comerciais, casas de espetáculos, livrarias, estúdios de rádio e televisão, redações de jornais e revistas, escolas, estádios es¬portivos, trepidavam passos rumo às fábricas, aos supermercados, às praias, aos hotéis e motéis, às repartições públicas, estaduais, municipais, federais... E se fez noite. E a escuridão da noite se iluminou, como se o sol continuasse a sua missão diurna de brilhar. E os en¬tes humanos prosseguiam em sua faina de trabalho, de atividades, de lutas e labutas, sem interrupção entre o dia e a noite. A vida, o caminhar, o trabalhar, o agredir as dificuldades e o viver sonhando com riquezas e belezas, era uma constante, empurrava as multidões apocalípticas para diante, para um porvir fabuloso, na conquista do amor, da esperança, da expectativa, da felicidade enfim.
E Manequi via. Via e se sentia envolto naquela trepidação de vida extraordinária. Via que além de sua vidinha de roça, havia uma enormidade de existência, que ele ignorava, mas que agora contemplava, pressentia, desfrutava. Como era imenso o mundo! E quantos mundos o mundo abarcava!
O pintassilgo da gaiola abriu o biquinho. E cantou. E acordou Manequi de seu sonho, nada mais do que uma realidade que está presente na glória de São Paulo. O menino sonhara? Talvez, não. A televisão mostrava a ciclópica capital paulista, com todo o seu fausto, com todos os seus problemas, com todas as suas conquistas, com todas as suas vitórias e derrotas, em fantástica reportagem, enquanto Manequi, entre a penumbra do sono e da vigília, se deixara envolver pelo deslumbramento da quase ou maior cidade do mundo.
Sonhara de olhos abertos pois a visão que vislumbrara era, sim, a fabulosa São Paulo, festiva e sensacional comemorando seus 450 aniversários de fundação.

sábado, 29 de maio de 2010

Tragédia na Ponta de um Pau



TRAGÉDIA NA PONTA DE UM PAU
Lino Vitti

Anda a humanidade ingurgitada de tragédias de todos os calibres, modos e maneiras,
diversidade essa que a traz em constante “ser ou não ser”, segundo cogitar poético de
ilustre representante das tragédias de antanho.
Dentre as inumeráveis formas de contar a vida, fui buscar na roça, numa árvore da
roça, na ponta de um galho seco da árvore da roça, o motivo para estas elucubrações
fantasiosas a que, desenvolvido “quantum sátis”, nos orgulhamos, patotisticamente, de
chamar Conto.
Conta-se assim que o Zé Querêncio, sitiante dos bons, dono inconteste de umas terras
agrícolas, altamente dignas de seu trato a poder de enxada, arado, foice e bestas ruanas,
desperta, alta noite –– noite negra como o breu, dizem –– a ouvir, vinda da escuridão
impenetrável, uma voz, ou melhor, uma gargalhada enigmática.
- Ué! Quem é esse cara que se mete a rir, perdido na noite? Alma penada, meu
Deus?
E a risada noturna e soturna bisava, sob a curiosidade da noite toda estrelas – uma
curva e imensa peneira de pingos de ouro invertida sobre a paisagem negra do sítio.
O caboclo encabulava.
Noite seguinte, a semi-sinistra risada encafuada no negrume, surdia novamente. E o
caboclo cismava, cismava, e perdia-se fantasiando a cabeça rústica em mil e uma
interrogações.
- Que será, que não será?
Compadre Vicente, padrinho do caçula, tinha sítio próximo. De uma feita casual
encontro propíciou a Zé Querêncio oportunidade de desfazer a misteriosa “coisa” a
espalhar gargalhadas noite a dentro, noite afora.
- Ché, compadre – adiantou o Vicente. Então você não sabe? Esse estrupício de
risada é o Urutau, o canto do Urutau.
- Verdade, Vicente? Então não é assombração, nada dessas coisas de assustar a
gente?
- Imagine! Passe lá no meu sitioca e eu lhe mostro a “assombração”...
Querêncio foi. E viu!
Viu o Urutau. Um pássaro estranho, da cor de galho seco de árvore. Grudado na
ponta do pau, mimetizado com ele em tudo, viu o dono daquela casquinada noturna,
imóvel como uma estátua, em riste, como se fora a continuação do próprio galho.
- Mas, Vicente, isso aí fala, ri, assusta?
- Claro, compadre – sentenciou o outro.
E dando uma de entendido, desfiou diante do vizinho, atento e embasbacado, tudo
quanto sabia sobre a misteriosa ave.
- Você vê, Querêncio, isso é feio que dói. A feiura, porém, não lhe tira a graça de sair
por aí, por pomares, capões de mato, barrocas ciliares a rir da vida e de nós caipiras,
muitas vezes assustando aqueles que o ignoram e o seu modo de vida: - de dia, como um
monge em oração, como duas mãos unidas em prece, quietinho, garimpado no topo de um
galho de árvore; de noite, voejando pela escuridão, a rir, rir, de “nóis” e a mandar pro
bucho borboletas, mariposas, lacraias, besouros, ratos e tudo quanto invente povoar de
vida os canfundós da roça...
Vicente calou-se um minuto, bateu fósforo e baforou uma nuvem cheirosa extraída do
seu cigarrão de palha, dando uma banana a essa mania civilizada que veta a delícia caipira
de tragar o saboroso fumo de corda do Bairrinho.
Depois, satisfeito o vício, prosseguiu:
- Então, compadre, esse estapafúrdio que você vê, grudado no pico do galho seco, faz
dele moradia e ninho. Mora e cria. Não tece nada. O ovo que bota, único e anual, gruda-o
no ventre, tal e qual a raposa (os cientistas tem um nome para isso) e choca-o sob as penas
do peito, durante 40 a 45 dias. Daí, Querêncio, o filhote nasce e começa a botar a
cabecinha de fora, com medo decerto do mundo grande que vê além das penas maternas.
Depois de duas e pouco mais de semanas, o passarico, que já não cabe mais no seio macio
de plumas, mete-se ao lado do pai ou da mãe, passando o tempo abraçado pelas asas
maternais. Empena, cresce, voa... e sai pelo mundo a povoar novos cumes de novos galhos
secos, de novas árvores...
Compadre Zé Querêncio suspirou profundamente ao calar-se a voz de outro.
Ruminava no íntimo de todas aquelas novidades estranhas sobre um gargalhar noturno que
povoa as noites rurais, nada mais do que um canto ancestral de ave noctívaga, símbolo de
mistério, figura fantasmal do mundo alado do campo e da noite sertaneja!
****
Pingaríamos aqui o ponto final da história. O Zé Querêncio, todavia, não nos deixa. E
não nô-lo deixa porque a sua rude curiosidade nos diz que o Urutau e sua criaturinha não
se deram bem com a vida. Certa manhã, espairecendo pelas terras do compadre, foi até a
“casa” do pássaro para revê-lo e ao seu filhote.
E aí, a tragédia. A ponta do pau seco, vazia. No chão, mãe e filho, estraçalhados. Por
que? Por quem? Mistério! Esses acontecimentos da natureza, são iguais aos
acontecimentos trágicos humanos. Inexplicáveis! Insolúveis!
E a memória querenciana, num retorno repentino aos dias do passado reviu, por
caprichoso e doloroso recordar, num relancear de fatos, a tragédia – tal e qual a do infeliz
Urutau e sua prole – da sua esposa e filho tragados pela fatalidade do infortúnio.
Foi assim.
Temporal inclemente vergastou com o chicote de sua terrível ventania e a fusilaria de
seus raios e trovoadas, horas seguidas, a soberba paineira alcandorada e gloriosa ao lado
da casa, florida de roxo, às vezes; outras, crivada de painas esvoaçantes. Vergastou,
chicoteou, sacudiu raivosamente até que o roble secular cedeu à fúria que o prostrou ao
solo, e, de roldão, tombou sobre o teto da casa, esmagando, sinistramente, a esposa e o
pequeno caçula.
Zé Querêncio – como agora – diante da desgraça, emudeceu, mudamente chorou,
carregando para sempre aquele quadro inominável. Quadro que revivia em toda plenitude,
em dolorosa lembrança, ao contemplar no chão, inertes e destroçados, como sua cara
consorte e seu querido filhinho, inertes e destroçados pela natureza enfurecida e
impiedosa.
Há momentos na vida em que esquecer é o melhor remédio, talvez, o mais profundo
consolo.
Frente a frente com o drama que a manhã roceira lhe apresentara, numa realidade
inarredável, e, frente com a realidade de um passado que não se apaga jamais da
lembrança de qualquer mortal, Zé Querêncio optou pelo alívio medicinal do esquecimento.
Cavalgou o alazão. A galope, se afastou envolto num halo de nostalgia, daquela
paisagem recordativa e entristecedora, daquele inusitado acontecimento a cavar-lhe da
sepultura de um ontem doloroso, a imagem de um quadro que tanto quisera esquecer, mas
viera à tona face a face com aquele infeliz desfecho de um lar alado, desfeito por não se
sabe que mão do destino.
Tal e qual, talvez, a mesma e incomplacente mão terrível que se comprazera em
derruir, inexorável, um Urutau e sua prole, cuja felicidade vivencial se encontra apenas no
pico de um velho e seco galho de árvore. É por isso que a canção popular canta: “Eh! Vida
malvada, não dianta fazer nada, prá que se esforçar se não vale a pena trabalhar”.
Zé Querêncio cavalgou, cavalgou. Esqueceu da vida, esqueceu do mundo. A noite
fechou e o céu desdobrou um dilúvio de estrelas. Contemplou-as por momentos. Ora, lhe
pareciam lágrimas luminosas, ora risos caricatos.
- Para onde vai, compadre? – Perguntou-lhe, no meio da escuridão, a improvisada e
imprevisível presença do Vicente, retornando da vila onde estivera às compras.
Silêncio!
- Para onde vai, repetiu o vizinho.
- Pro inferno, compadre! Pro fim do mundo! “Prum” lugar onde não tem dessas
coisas!...
E castigou a besta que saiu a galope pela cegueira da treva noturna.
O tátátá... tátátá... da cavalgadura enchia lugubremente a imensidão da negra
paisagem, assustando as estrelas piscantes e a lua cheia que o espiava no horizonte
indefinido, qual carantonha enorme a rir de sua desgraça.
De súbito, alguém gargalhou, em casquinada fantasmal dentro do enigma da noite...
Zé Querêncio estacou. Assuntou a vastidão silente e trevosa, cuspiu para o lado, em
protesto contra aquela inoportuna gargalhada e berrou, loucamente, para a paisagem:
- E ainda você dá risada, seu porcaria?!...
Só o eco tristonho dos vales, das florestas, dos montes, respondeu ao protesto do
Querêncio.
O luar pleno banhou de luz macia a vastidão da paisagem.
****
Poder-se-ia encerrar assim e aqui a minúscula história.
Exigem contudo a lógica e a final clareza dos fatos saiba o possível leitor de que
profundez noturna, de que goela estúpida, de que treva cega, de que origem inominada
surdira aquele motejo cabalístico, aquele irônico rir, enegrecendo mais ainda a alma
entenebrecida do infelicitado caboclo.
Para Zé Querêncio, machucado pelas lembranças funestas da fatalidade,
inopinadamente ressuscitadas pelo imprevisto quadro contemplado ao amanhecer, ficava
difícil compreender que tinha um irmão de desdita, que aquele gargalhar dolorido era o
canto de dor que ia n’alma de um pássaro igualmente ferido pela infelicidade.
Ele sobrevivera à tragédia. O Urutau, também. Ambos ficaram sós no mundo,
testemunhas únicas de um lar ditoso, estraçalhado por um terrível destino. Sofriam um e
outro a mesmísssima dor.
Zé Querêncio chorava; o Urutau ria. O homem precisa saber contudo que a natureza e
a vida são contrastantes. O riso do Urutau também é pranto.
Duas, então, eram as vítimas.

domingo, 23 de maio de 2010

Caprichos da Vida - Conto


CAPRICHOS DA VIDA
Lino Vitti

Ao longo daquele trecho de rua, quase central, a casinha de Zé Minguante assumia
antes o aspecto de casebre. Tão granfinos eram os edifícios de um e de outro lado
erguidos, galgando o espaço, que davam a impressão de se estarem acotovelando para
espiar lá embaixo a humildade da casinhola. Explico as razões do "Minguante". Não era
sobrenome, mas apelido vindo desde a infância, sugerido pela sua extrema pequenez, que,
agora, com a velhice, quase poderia ser classificado entre a família dos anões. É um
divertimento esse do acúmulo dos anos em apequenar as pessoas, certo pelo peso de serem
muitos, acontecendo com o Zé Minguante, nesse particular, o mesmo que acontecia com
sua casinha em relação aos sobrados vizinhos; ambos, casa e proprietário, sentiam-se
asfixiados: um pelo peso dos dias, outro pelo concreto circunvizinho. E toda essa massa,
equilibrada na rigidez arquitetônica das suas linhas, tinha um só dono: Gervásio Cabral,
Dr. Gervásio Cabral.
Bafejado que fora pelas graças da fortuna, esse personagem que se compraz em
dividir as posses a seu bel prazer, presenteando a uns em demasia, a outros comprazendo-se em ser sumamente mofina, - seu Cabral, Moloch de dinheiro, - foi devorando um a um, saboreando lentamente os pratos que a sorte lhe oferecia, todos os prédios daquele quarteirão, transformando-o no aglomerado de residências finas que, também, cautelosamente, ia se apoderando, em avalanche de pedra e cal, das construções vizinhas.
E, uma a uma, desapareciam desfeitas em cacos, mastigadas pelo mastim do progresso as casas acachapadas ao rez do chão. Alguém, porém, resistiu às mandíbulas do dragão: - Zé Minguante.
Não conseguiram arredá-lo de sua choupana as fabulosas ofertas de dr. Cabral. Não,
porque aquele pequeno amontoado de pedras, à feição de presepe entre os arranha-céus,
constituía legado de família, guardava em si o repositório histórico de seus antepassados, era, enfim, o único bem material que os anos não lhe puderam roubar. Além do mais,
servia de ninho aos seus: dona Cesarina, a mulher, e Jovita, a filha, alegria e razão de ser da sua vida.
- Como é, seu Zé, dou Cr$ 200.000,00, insistia o dr. Cabral. E propositadamente
quase lhe raspava o passeio da calçada com a Cadilac reluzente.
- Impossível, dr. Cabral, retrucava a humildade acanhada de Zé Minguante. Seria
vender o coração.
E a Cadilac sumia adiante, doida por aquele cantinho de chão, pois, o dr. Cabral, em
cujo cérebro fervilhava um grande plano industrial, a montagem de uma fábrica
gigantesca, ou cousa que o valha, tinha necessidade dele. Daquela nesguinha de espaço.
E monologava o espírito do homem: “Sujeito teimoso. Pago-lhe bem pago, e não
quer. Mais dias menos dias, boto-o a muque para fora daquela vergonha. Onde se viu
mesquinhez daquela a enfeiar todo o quarteirão”. Buzinava, quebrando a esquina.
Atrás, no entanto, Zé Minguante ficava meditando: “Arre, também, que isso é
demais. Tanta casa, tanto terreno, e ele aí a querer me alijar deste cantinho que é meu. E
prá ir aonde depois? Não. Nem por milhões”. Entrava soturno e pensativo. Lá dentro
vicejava a primavera na beleza e juventude da filha. Rescendia nos 17 anos. Era ela, a bem dizer, o sustentáculo da família. Tresdobrava-se a fim de garantir aos velhos pais alimento e roupa para o corpo; desfazia-se em sorrisos e carinhos, para atenuar-lhes a amargura dos últimos dias.
Entretanto, Jovita era carne e osso. Apesar de uma alma imensa habitar-lhe o corpo,
sentia também o império da mocidade a sacudir-lhe os instintos. Amava. Mas o amor de
Jovita, pelo seu objeto, revestia-se da condição da impossibilidade. Porque o seu príncipe encantado era, nada mais, nada menos, do que o Cabralzinho, filho do dr. Cabral.
Leitor, ou leitora, aí está mais uma artimanha da vida, mais uma forma de que é
pródiga, para espezinhar o ser ou seres humanos. Por que haveria ela, dona dessa imensa sementeira do amor, botar a migalha de uma de suas sementezinhas no coração de Jovita?
Por que?Não sabia acaso a dona vida, que haveria de surgir a ave má do impossível para querer beliscar o rebento da semente mal tentasse romper o solo em que fora lançada? Se o sabia ou não, é difícil dizêrmo-lo, o certo, contudo é que a vida doidivana achou de brincar com o coração do dr. Cabralzinho e lá também enterrou a sementinha fatal. E ali enraizou, cresceu, frondejou e, resultado lógico, passou a namorar Jovita. Amam-se, agora, apesar da divergência e diversidade de classe social, consideradas, por muitos, entrave insuperável para o casamento. Amam-se, porque a mocidade não vê empecilhos ao amor que floresce em seu coração. Infelizmente, porém, nem sempre é fácil. De contínuo esbarra em milhares de tropeços, distendem-se-lhe à frente incontáveis e imprevistas peias, detém-no, travam-no, ameaçam-no, matam-no, muitas vezes.
E qual seria a sorte daquele que apenas desabrochava esperançoso nos dois jovens enamorados? Frutificará? Ou não?
****
Os meses se escoaram. Jovita e o filho do milionário entendiam-se às maravilhas,
forjando projetos, sonhando, furtando, às escondidas, da vida e dos pais, um pouco de
felicidade para a sua juventude. Doiravam castelos, construíam um mundo só para sí, para sua suposta eterna ventura.
Apesar do azul do céu, que os cobria, ao longe, como um ponto a princípio, crescendo ao depois, lenta e pronunciadamente, surgia uma nuvem negra, prenúncio de
tempestade. Que não tardou a chegar, toldar o céu, cair sobre aquele seu mundo em
bátegas vergastantes e tempestuosas. Era a oposição paterna que se fazia presente,
trovejando, esbravejando, derribando ao solo os castelos de ouro de seu amor.
- Como?! Então você, meu filho, (era o dr. Cabral que fuzilava), você a meter-se com
aquele caco de moça, você, multi-milionário, descer a tanto?! Francamente... meu filho,
francamente nego-o, nego-o, ouviste? Queres enlamear a estirpe? Ora, ora... essa é boa!...
Saia furibundo, para voltar logo mais com novas catilinárias sobre o rapaz.
De outro lado, Zé Minguante também esbravejava. Mas as bravatas deste eram, como
não podiam deixar de ser, humildes queixas:
- Jovita, minha filha, porque você fez isso? Não viu que era impossível? Nós somos
pobres, você bem sabe... Essa gente...
Não podia concluir porque o pranto da filha abafava qualquer argumento.
E assim, ao que parece, murchava e morria a linda roseira de sonhos que dona vida,
num de seus momentos de loucura, plantara naqueles corações.
Morria?
Não, não morria!
E não morria porque o espírito ultra-prático e capitalista do dr. Cabral vislumbrava
genialmente uma fresta, uma saída. Digamos, comparando: Cabral despejava sobre a
roseira emurchecida um eflúvio refrescante, o orvalho rejuvenescedor de interesse próprio.
Ora, tão fácil! Como é que não lhe bacorejara no bestunto a mais tempo solução tão a
jeito?...
- Que se amassem, os louquinhos, que se amassem, vá. Mas, (aqui a genial ideia) com
a condição, sine que non, de se pôr abaixo o casebre teimoso. Era o sumo de ocasião: ou
agora, ou nunca. Entre a espada de sua imposição e a parede da felicidade da filha, Zé
Minguante, desta feita, cederia...
E um sorriso sarcástico de vitória lhe vincou de leve a boca burguesa.
****
Foi num misto de espanto, de ódio e de temor, que a notícia estourou lá pelos arraiais
pacíficos de Zé Minguante. Assombro, pelo imprevisto de que se revestiam os
acontecimentos, em face da hipótese armada pelo Cabral: ódio, contra a forma impositiva de que se revestia a solução proposta pelo doutor; aproveitando-se de sua pobreza e da falta de armas iguais para combater; temor, pelas consequências que adviriam, quer aceitando, quer negando as exigências do capitalista.
Este, saboreando charutos, bestificado; estirado sobre um sofá, aguardava, não com
impaciência, mas com laivos de perversa superioridade o resultado da luta em que, a estas horas, se debatiam pai e filha: Zê Minguante e Jovita, ambos coração imenso, disputavam a palma do sacrifício. De um lado, a renúncia ao amor, todo sonhos e primaveras; de outro, a renúncia daquela nesga de chão, daquele amontoado de tijolos humildes, é verdade, mas que representavam para o seu dono, um pedaço de sua própria vida, um naco de sua própria carne. Na íntima arena de Jovita, sobre o tablado de sua luta interior, defrontavam-se - exímios lutadores - o amor filial e o amor ao seu príncipe. Travavam grandiosos duelos, esmurravam-se um ao outro, com intensidade e afã, cada qual tentando curvar a seu favor a vitória.
No coração de Zé Minguante não menor, nem menos intensa ia a batalha. Se adorava
a filha, se valia o sacrifício para vê-la venturosa, o faria, sem dúvidas. Doía-lhe, porém,
como punhalada, a idéia de abandonar a sua casinha, a cuja sombra vivera toda uma
existência, despreocupada e quase feliz.
Bosquejamos assim, nas pinceladas precedentes, o estado de três almas, protagonistas
de um único drama humano, cujo epílogo, nem nós poderíamos prevê-lo e transmiti-lo a
quem nos seguiu os passos ao longo desta narrativa, não fosse a entrada em cena de outro ator, ou melhor de outra atriz, dessa trágica e derradeira personagem de todos os dramas e comédias da humanidade - a morte.
Gervásio Cabral, repentinamente, falecera. Eterna e ferrenha adversária da vida, a
magra colhera-o no exato momento em que aquela que ia propiciar quiçá uma das suas
mais árduas conquistas, pois, o poder do milionário, dono de arranha-céus, para quem tudo fôra fácil conseguir, esbarrara diante da resistência do minguado Zé Minguante.
Gervásio falecido, o herdeiro universal, Cabralzinho, entra na posse de tudo, manda
às favas as convenções e implicâncias paternas e apodera-se também, sem mais aquelas,
daquilo de que mais necessitava o seu coração: Jovita.
Casou e fez questão de que no registro legal do ato constasse: em regime de comunhão de bens, porque assim, pelo sim, pelo não, roubava do Zé Minguante a linda
Jovita, dando a esta em troca entretanto, a possibilidade de uma incomensurável fortuna e àquele, sogro agora, devolvia o sossego para os últimos dias de sua vida.
Sobretudo, aprendiam uns e outros, que tanto a vida como a morte, andam por aí, mundo a fora, a tecer e destecer dramas, e semear toda a sorte de imprevistos, bons e maus, para a pobre humanidade, trazendo-a, de contínuo, em justificados sobressaltos,
Ricos e pobres, Cabrais ou Zés Minguantes, Jovitas e Cabraizinhos, ninguém lhes escapa às tramas fatais.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Rebelião de Instintos

REBELIÃO DE INSTINTOS OU SUGESTÃO DE UMA FOLHA
Lino Vitti

O caso é que Lupércio (ele detestava o próprio nome) abrira os olhos azuis num
humilde quarto de humilde casa da roça, arrancado do berço maternal, onde vivera nove
meses prisioneiro de um útero fértil, um útero forte, responsável pela gestação de nada
menos que dez rebentos entre varões e mulheres. Uma barriga maternal pródiga, cristã,
exuberante, em cujas profundidades criadoras jamais se ousara meterem-se ferros e
bisturis, senão que apenas as longas e nervosas mãos da tradicional parteira das
redondezas. Partos perfeitos, criaturas perfeitas.
Lupércio não poderia ser exceção. Berrou com toda a valentia, custou a arrefecer os
vagidos do contato com o mundo que o aguardava, e prometia, pouco depois enrolado,
esticadinho, naquela panaria limpa e branca com que as mães do sítio apertam em longa e
larga faixa o tiritante corpinho do mal-nascido, prometia, repito, crescer forte, bonito e
corajoso, como aliás, almejam todos os pais e mães que assim seja.
E cresceu, virou menino, descambou para a adolescência. A meninice viveu-a, poderse-
ia dizer, como a vivem todos os meninos da roça, no que se pode chamar de ambiente
doméstico e circundante. Não porém, a sua personalidade em botão. Desde muito cedo,
Lupércio, saudável de corpo, e muito mais de espírito, ouvia bem de perto o ulular da
caterva de instintos. Eram labaredas que lhe subiam dos pés, pelas pernas, pelo tórax, pelas
mãos, pela cabeça, rumo ao cérebro, onde se formavam fantasias imensas, onde vinham se
estadear fantasmas sexuais. Não eram poucas as vezes em que o pré-adolescente se perdia
a contemplar aves, animais, domésticos e selvagens, se unirem para o ato da procriação
natural. Aquilo lhe transmitia um calor aos olhos, algo que queimava o corpo de alto a
baixo, numa ânsia de imitar, de fazer. E no âmago de sua cabeça efervescente as figuras
das companheirinhas de escola, das vizinhas, até de jovens e moças de muito mais idade,
vinham amiúde se apresentar. Sonhando com o mistério que um dia se lhe poderia
desvendar.
O adolescente da roça, sabem os sociólogos e os sexólogos, tem multiplicados
exuberantemente seus instintos. Em toda a parte, se lhe oferecem oportunidades para
fantasiar mais e mais, aguardando com ansiedade o dia, a hora de poder fazer o que fazem
os animais domésticos e selvagens, dando assim vazão a essa força colossal e indomável,
que lhe queima o corpo e lhe atrapalha a alma, com mal compreendidas necessidades
biológicas, na busca de um alívio físico e espiritual que ainda não sabe bem como há de
conquistar e conseguir.
O estado da adolescência é terrível. O moço sente, vê, debate-se com os instintos,
mas não há como enfrentar toda essa pujança sem ferir pruridos de consciência, da fé, de
família, do mundo. Parecia a Lupércio que todo o universo lhe apontava o dedo
condenatório: não pode, não deve.
****
Um dia (que dias tremendos há na vida!) o adolescente Lupércio viu-se metido num
coletivo urbano, ao lado de desgastada mala lotada de roupas, cobertas, lençóis, um par de
tênis barato, escova de dentes, sabonete de coco. Partia. Dezessete anos. A desconhecida
vida de um internato religioso. Até quando? O que haveria de vir? Lupércio lembrava-se
apenas de engolir o nó da garganta e enxugar, com as mãos, um tanto ás escondidas, as
dificilmente escondidas lágrimas.
Seria o fim? Não sabia. Poderia sim, ser o fim daquela maravilhosa vida de infância
na roça, onde ficavam as árvores, os pássaros, as colinas, os colegas, amigos e
companheirinhas, as chuvaradas, as noites estreladas, os luares românticos, as plantações,
as caçadas, as colheitas, o terço em família, a felicidade de uma infância despreocupada e
feliz, aivada de surtos e sustos de instintos em ebulição.
****
O Internato! Casarão terrível a engolir adolescências para forjar, na disciplina e no
estudo, as incógnitas personalidades de amanhã! Lupércio espichou os olhos, ainda a
relampejar paisagens silvestres e roceiras, por aquelas paredes acima um, dois, três, quatro
pavimentos. As janelas em fileira indiana pareciam dizer-lhe “lascsiate ogni speranza o voi
che intrate”. Atrás daquele portal e daquelas janelas misteriosas que decerto jamais viriam
a ser ocupadas por aqueles que adentravam o internato, em gestos de espiar a rua e o
mundo, devia existir um outro mundo, completamente diverso e estranho do vivido até
então pelo jovem aspirante ao sacerdócio.
Se ao deixar os pagos natais já se lhe derrocaram, anos de vida, já entendia como
perdidos atos, gestos e pessoas daquele seu trecho feliz de vida, o que não lhe deveria
caraminholar a cabecinha ainda mal estruturada para mudança tão brusca, a visão daquele
edifício imenso, coalhado de mistérios, físicos e psíquicos, onde deveria colocar seus pés,
para um contrastante modo do viver, no seio de uma família estranha que não aquela
deixada nos cafundós do sítio!?
O convite daqueles portais era inexorável. Era um convite para mudar um destino! E
transpostos os umbrais atrás dos quais se lhe enclausuraria esse mesmo destino, Lupércio
sentiu um frio pelo corpo. Reagia-se-lhe a alma adolescente naquela manifestação física
capaz de dizer-lhe: “esqueça tudo o que ficou para trás! Esqueça a infância, as
brincadeiras, os colegas e as coleguinhas, a mãe, o pai, os irmãos, as paisagens, os
divertimentos, a vida roceira enfim. Deixe que sangre a hemorragia da saudade incurável,
que os perseguirá pelos dias afora”.
****
E assim se fez, porque assim estava escrito na página do destino! Deram-lhe uma
caminha de solteiro, um banquinho titubeante para criado-mudo, um 1avatório imenso,
longo e cheirando a todos os sabonetes.
Uma gaveta fixa numa estante à moda de guarda-roupa coletivo, cobertas simples
pouco adequadas à intempéries de um dormitório metido no sótão do grande prédio. Os
preparativos para as suas noites eram rápidos e repetitivos. Dormir era uma exigência
disciplinar. E no dia seguinte, mal o dia tingia de rubro o horizonte, uma sineta tenebrosa,
insensível, dramatizava o despertar daquela legião de adolescentes e jovens. E se iniciava
um ritual vídeo-tape de um e de outro dia, com longas horas de estudo, infindáveis horas
de aula, caínhas horas de recreio e muitas horas de silêncio e oração.
Todo programa ritmado e repetitivo não conseguira arrefecer na alma e no corpo do
adolescente aspirante, as exigências dos instintos. Passava noites em briga com eles. De
um lado a escalada cada vez mais apressada e forte do sexo exigente, de outro, a palavra
dos mestres e instrutores, condenando sumariamente aquela força incontestável e
indefensável que lhe energeizava o corpo. E a luta se travava intensa entre a ordem e a
disciplina, o pecado e o prazer. Noites mal dormidas, lembranças longínquas da infância,
remorsos e escrúpulos, o prêmio do céu e o castigo do inferno, aí presentes como um
pêndulo fantástico a tocar para frente as horas, os dias, os anos.
Os instintos, cada vez mais contundentes, cresciam. Os deveres e obrigações
cresciam também. De tal sorte que a luta era tremenda, travada na solidão das horas
noturnas ou nas longas horas dos silêncios dos estudos e dos recreios.
****
E os anos foram somando batalhas com derrotas e vitórias quiçá. Aproximava-se o
dia fatal da decisão vocacional. Lupércio temia a sua chegada, pois sabia que as forças dos
instintos superavam de muito as forças vocacionais. As lutas haviam sido muitas e muitas
as derrotas. Como esperar agora o advento de um auxílio tão forte capaz de levá-lo a
esquartejar, com a espada de luz da coragem e da valentia adolescentes, o inimigo há
tantos anos enfrentado e nunca, ou quase nunca vencido!?
****
O acaso decide. O acaso socorre em muitas oportunidades aqueles que não enxergam
mais uma saída para a solução de graves e íntimos problemas. Lupércio topara,
casualmente, com esse personagem, do qual se engendraria uma solução para aquela longa
e ingrata batalha dos instintos rebelados, dos instinto exigentes, dos instintos que querem o
que querem, dos instintos que lutam aos extremos para fazer valer sua vitalidade, sua
presença no homem, seu destino de elemento continuador de espécie.
O pátio do internato onde alunos dos mais variados cursos e oriundos das mais
variadas localidades, esparramava-se amplo e sombreado por figueiras frondosas. Sob elas
reuniam-se grupos de estudantes. E as árvores como que ouviam as conversas, os diálogos,
os debates, os cochichos entre aquelas bocas controladas e presas a uma disciplina rígida.
Foi quando uma grande folha, amarelecida, despencou do alto de copa e caiu, dançando,
entre os debatedores, passando rente ao rosto de Lupércio. Um relâmpago de pensamento
cruzou-se-lhe no cérebro e a boca murmurou:
- Ei, colegas, essa folha rolante é bem a imagem da minha vocação, do meu destino.
Amarela e ressequida, levada pela brisa, é como a sinto dentro de mim.
Poucas palavras, significativas palavras. O diretor de alunos ouviu-as e guardou-as
para com elas traçar o destino daquele lutador de instintos, de importantes instintos
humanos. E no recesso da cela convocara o indigitado aspirante e qual fora um raio
terrível, Lupércio ouviu:
- Então estás como a folha esvoaçante da figueira? Não queres mais ficar preso na
fronde deste internato, onde se cuida das coisas de Deus, com vontade e amor, dedicação e
empenho? Segue pois o trajeto da folha amarelecida que é andar de rastros no pó do
chão... voltarás para teus pagos, onde a consciência estará mais livre para essa luta de
instintos que dizes sustentar a tantos anos...”
O ultimato superior fatalizava-lhe o destino. Tinha a força de quebrar, como
dinamite, aqueles muros altos e intransponíveis que lhe cerceavam os passos para a talvez
aparente liberdade do mundo, onde supunha o aguardariam todas as liberdades corporais e
instintivas, transformá-las em armas para derribar ao pó o demônio daquela força profunda
que lhe vivia a atormentar os dias e as noites, o interior e o exterior da personalidade.
Aguardava-o um diverso retorno, depois muitos anos, àquele trecho da existência de
onde partira, sob o impacto de uma luta infrene, entre espírito e carne, entre virtude e
pecado.
E a ordem, o mandamento, partira não de um fato de enorme poder sobre o destino
das pessoas, sobre o seu próprio destino, mas de apenas um minúsculo e inédito
acontecimento trivial de uma folha de figueira, balouçante, despregada do galho da árvoremãe,
combalida e em agonia vegetal, rumo ao ignóbil destino de morrer de rastros na
frialidade e indiferença do solo.
Quantas folhas, no mundo, se despedem da fronde, esvoaçam por instantes entre o
azul e a terra, rolam pela areia, apodrecem ao vir primeira chuva, viram solo, sem que
ninguém, sem que olhar algum, lhes dediquem qualquer atenção, lhes sirvam de modelo de
vida, de solução vocacional, de diretriz para quem quer que seja! Ignoram-nas
simplesmente! E aquela, aquela estranha mas significativa folha de figueira a amarelecer,
por que haveria de aparecer em seu caminho, como se fora uma folha viva, inteligente,
mensageira, escrevendo na lousa dos acontecimentos pessoais de um brigar mourejante de
instintos, o que era preciso fazer, qual o caminho a seguir daquele átimo de tempo em
diante?
Qual o dedo milagroso que apertara o pedúnculo vegetal daquela folha entre milhões
de folhas de figueira, para num exato instante, inesperado mas valioso, ditar novo rumo
para uma alma em cujo seio se desenrolava, surda, oculta, dolorosa, uma batalha que só
neste momento viria a lume?
E depois de meio século de vida, quando a arte exigiu do seu personagem uma
história a contar?

sábado, 6 de março de 2010

Noites Fantasmais


NOITES FANTASMAIS
Lino Vitti - 1 -
(Príncipe dos Poetas Piracicabanos)

E disse Jeová: “façam-se as trevas com todos os seus astros”! E assim se fez. As estrelas, a lua, os cometas, as constelações, enfeitaram as noites cósmicas, porque veio a Noite, larápia do Sol. E dentro das noites do mundo formataram-se os fantasmas apavorantes, e os fantasmas povoaram a Terra, ora em forma de assombração, ora em forma de saci, ora em forma de mula-sem-cabeça, ordinariamente vagando pelas estradas desertas, aterrando povoados a dormitarem, assustando sitiocas e fazendas, assaltando taperas e santas cruzes das estradas.
O sertão ressuma fantasmas! Quanto mais a solidão se apodera das distâncias ignotas noturnais, mais presente se faz o enigmático personagem fantasmal . E cresce, cresce, avoluma-se, avoluma-se o medo agarrado ao homem do sertão. E o sertanejo que “é antes de tudo um forte”, como dizia o Euclides da Cunha, assassinado por amar sua consorte, diante das trevas de uma estrada encurralada dentro da noite, fica magrinho, fraquinho , reduzido, como um caniço de brejo. E a tese euclidiana perde toda a sua imponência afirmativa. Porque o caboclo treme, suja as calças, foge diante de um foco de luz que caminha pelas encostas, ou se move pelos vales rurais, ou se do seio misterioso da mata o urutau solta a sua gargalhada fantástica ! E não só o caboclo, mas qualquer viajante deste universo, more no sertão ou viva na urbe, sói tremer e emporcalhar os fundilhos ao topar na escuridão soberana da noite uma bola de fogo movediça a esvoaçar pelo campo embrulhado pela cegueira da treva noturna.

* * *
O pedreiro- lavrador Jair, apesar de suas mãos honestamente calejadas pela rusticidade profissional, tinha uma cabeça cheia de fraseado literário adquirido por seu próprio esforço, conquistado pela leitura contínua e estudada de livros, almanaques, revistas e

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tudo quanto escrito lhe fosse cair nas mãos. E desse contato com as letras, alimentado pelo ambiente rural da sua vida, saliente observador dos fatos e pessoas, vivente inarredável das noites da roça, Jair acabou pintalgando muitas laudas de papel em branco, com a criatividade de seu lápis. Admiravam-no os conterrâneos , pois não é raro surgir, como silvestre flor de maracujá, por entre gente dos cafundós do Judas , uma inteligência privilegiada como a de nosso personagem.
Por outro lado, o Jesuino da Silva, metido a intelectual daqueles sertões, não cansava de mexer com a literatice do quase vizinho Jair, e não se envergonhava de às vezes, quando o pseudo-escritor passava as noites longe da casa, pé-ante- pé, como um ladrão de terceira classe, ir bisbilhotar o “escritório” do amigo e contemporâneo, para desvendar que mistérios teria ele lançado nas rústicas folhas de papel sobre que vivia rabiscando, rabiscando, sabe-se lá o quê ? E numa dessas aventureiras invasões ilegais, digamos assim, o Jesuino descobriu uma breve mas gostosa história sobre um mistério que há muito tempo encucava a população do roceiro povoado. Lançou as mãos larápias sobre as laudas e, cautelosamente, sob a lamparina foi depois colocar a sua curiosidade sobre o que poderia ter saído da cachola do companheiro e amigo.
E viu, ou melhor, leu. Leu o que era a solução de um velho mistério noturno que há muitos anos embatucava a população . Não fora essa revelação de Jair , cronista caipira do bairro , e ainda hoje perduraria ignoto o fato, talvez para sempre. A menos que aquelas páginas rabiscadas e quase inintelegíveis, não passassem de uma brincadeira do “genial escritor” pedreiro. E Jesuino, assaltante de páginas cronísticas que jamais talvez viessem a lume, tornou-se um arauto delas e tornou possível que chegassem até nós. E o que teria descoberto o estranho ladrão de crônicas? Sigam o Jesuino ,

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concentrado, à luz da lamparina , na historiazinha encontrada nos papéis surripiados do pedreiro-escritor:
“UM CASO DE LOBISOMEM - O fato de acreditar depende de cada um de nós e todos temos o direito de crer ou não em alguma coisa. Muita gente afirma que lobisomem existe e até já viram com seus próprios olhos. Dizem que tem preferência pelas cocheiras e galinheiros, sempre à meia noite, na Sexta-feira, quando ele se transforma em lobo , cumpre o seu tempo, depois volta ao normal. Palavra de quem acredita . Aquelas pessoas que ouvem passos , barulhos, enxergam vultos e até conversam com os mortos. O mesmo acontece com os que vêem lobisomem .
Na pequena comunidade havia algumas parteiras para
servir a população e eram estas que faziam o atendimento das mulheres. Certa noite, numa Sexta-feira, uma mulher estava para dar a luz e logicamente o marido procurou a parteira do povoado cujo nome era Minca, num sítio vizinho. Partiu Minca a bordo de um carrinho puxado por um animal.
A família atendida acreditava na existência do lobisomem e comentavam que todas as sextas-feiras era ouvido um barulho no galinheiro e seria o tal de lobisomem que atormentava as aves galiformes e sempre levava consigo uma ou duas delas.
Enquanto Minca aguardava a hora do desfecho eis que surge o costumeiro barulho pelas bandas do galinheiro. A família como sempre assustada, pediu à parteira que ficasse em silêncio pois era a hora do lobisomem. Esta porém abriu a porta de vez , saiu apressada e foi até o galinheiro. Aí fechou a portinhola da casa das galinhas pela tramela do lado de fora. E gritou surpresa para o lado da casa, onde se acotovelavam os donos do galinheiro: “venham, o lobisomem está preso”. Apavorados todos se recusavam, mas Minca insistia até que os convenceu a chegar até lá.E à luz de um lampião, abriram a portinhola e lá estava, com a maior cara-de-pau o famoso lobisomem. E sabem quem era?
Nada mais, nada menos, do que o carreiro da fazenda que em todas as sextas-feiras ia fazer sua féria furtando as galinhas para saboreá-las no fim da semana. E esse foi mais um caso desvendado por Minca e fez com que a família nunca mais acreditasse em coisas do outro mundo”.
Jesuino embasbacou diante do que lera no manuscrito “roubado” do amigo. E como era também ferrenho crente dos mistérios fantasmais das noites roceiras, converteu-se . E hoje se lhe perguntam o porquê dessa mudança fantástica, responde simplesmente: “cá o quê... Lobisomem é gente mesmo”...

PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA

CURRICULUM VITAE
( Síntese de Vida)
NOME – Lino Vitti
IDADE – 08/02/1920
ESTADO CIVIL – Casado, em únicas núpcias, há 56 anos, com a Professora Dorayrthes Silber Schmidt Vitti
FILIAÇÃO – José e Angelina Vitti
NATURALIDADE – Piracicaba, Estado de São Paulo –Brasil
Bairro Santana , Distrito de Vila Rezende
VIDA FAMILIAR
Casamento Civil e Religioso em comunhão de bens, Pai de sete filhos: Ângela Antónia, Dorinha Miriam, Rosa Maria, Fabíola , Lina, Rita de Cássia, Eustáquio.
VIDA PROFISSIONAL
Aposentado como Diretor Administrativo da Câmara de Vereadores de Piracicaba, e como Redator do “Jornal de Piracicaba”. Exerceu atividades no comércio, no Magistério, na lavoura até os l3 anos, na municipalidade local, como bibliotecário, lançador de impostos, protocolista, Secretário Municipal.

VIDA CULTURAL
ESCOLA PRIMÁRIA –
Grupo Escolar “Dr. Samuel de Castro Neves”, Santana, seminarista vocacional ao sacerdócio por seis anos, no Colégio Santa Cruz, da cidade de Rio Claro (SP), onde cursou humanidades, línguas, religião, ciências, matemáticas, música.
CURSOS –
Formou-se Técnico em Contabilidade, lecionou latim, francês, datilografia.

VIDA RELIGIOSA
Católico, Apostólico, Romano, fez curso de religião em seminário dos Padres Estigmatinos, foi organista da Catedral e da Igreja de São Benedito, de Piracicaba, e Congregado Mariano.
VIDA LITERÁRIA
Bafejado por ensinamentos de sábios sacerdotes em colégio de formação religiosa, recebeu extraordinário acervo literário que lhe propiciou enveredar pelo caminho da poesia, da crônica, dos contos, do jornalismo, havendo editado de l959 a 200l sete livros de poesias e contos, com edições em milheiros de volumes, os quais estão aí para satisfazer o gosto daqueles que apreciam a arte literária.
São seus livros : “Abre-te, Sésamo”, l959; “Alma Desnuda”, l988; “A Piracicaba, Minha Terra”, l99l; “Sinfonia Poética”, de parceria com o poeta Frei Timóteo de Porangaba; “Plantando Contos, Colhendo Rimas”, l992; “Sonetos Mais Amados”, l996 e “Antes que as Estrelas brilhem”, 200l. O poeta conta ainda com o prazer de haver composto hinos para diversos municípios, bairros rurais, entidades sociais diversas, continuando a colaborar ainda, após os 83 anos em colunas literárias e com artigos de ordem geral em jornais da terra.
Faz parte da Academia Piracicabana de Letras que lhe outorgou o título honorífico de “PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA’.
Foi-lhe concedida Pelo Município de Piracicaba, através de sua Secretaria da Ação Cultural, a MEDALHA DE MÉRITO CULTURAL, “ Prof. OLÊNIO DE ARRUDA VEIGA’; é detentor do TROFÉU IMPRENSA, concedido pelo Lions Clube de Piracicaba, centro, e da MEDALHA ITALIANA, concedida pelo governo italiano de Benito Mussolini aos alunos de escolas e seminários de origem daquele país que tivessem se destacado em redação de trabalhos literários escritos na língua de Dante.
O Município de Saltinho, para o qual contribuiu com o Hino dessa comunidade municipal , conferiu-lhe o título de “Cidadão Saltinhense”.

DISCURSO

Por ocasião do lançamento do livro de poesias “Antes que as estrelas brilhem “, pelo poeta Lino Vitti foi proferido o seguinte discursos:

Exmo. Sr. Heitor Gauadenci Jr. dd Secretário da Ação Cultural

Exmo. sr. António Osvaldo Storel. dd. Presidente da Câmara de

Vereadores de Piracicaba

Exmo.sr. Moacyr Camponez do Brasil Sobrinho, dd. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico

Exmo,. sr. Henrique Cocenza, dd. Presidente da Academia Piracicabana de Letras

Exmo.. Sr. Ésio Pezzato , anfitrião desta solenidade

Senhoras e Senhores

Pela sétima vez (graças a Deus) em minha vida lítero-poética vejo-me guindado a uma tribuna improvisada (o que é bom porque torna o fato mais popular), para proferir um discurso de agradecimento, ao lado da oferta de um novo livro de versos. É teimosia essa de poetas em desovar sua produção para que mais gente participe de suas tiradas, muitas vezes fora de forma e de ambiente, mas que o poeta não vê porque , ao editar um novo livro está cego pela emoção , como se fosse a vez primeira. Está aí o Ésio Pezzato, responsável por mais esta minha invasão no mundo das letras poéticas, para dizer se não é assim. Para dizer se não sofre também dessa doença feliz de editar livros e mais livros a ponto de perder a conta, já que a esta altura ele não sabe se já está no décimo ou décimo primeiro. E ainda continua batendo dedos de métrica, sabemos lá por quantos anos ainda !

Tenho um ex-colega de seminário, prof. Hildebrando André, aposentado como professor universitário e com o qual mantenho longa e pródiga correspondência, que não se cansa de enaltecer a felicidade de Piracicaba contar com tantos poetas e poetisas. Tem razão ele, pois se apenas dois deles já conseguiram editar l8 livros de poesia, imagine-se as centenas que seriam necessárias para dar um pouco de vazão a essa raridade intelectual que toma conta da minha terra!

Este meu livro vem à lume por obra e arte do prefeito José Machado , seu Secretário da Ação Cultural e de seu zeloso servidor Ésio Pezzato que se entusiasmaram diante da recitação de diversos poemas meus por um grupo de jograis, alunos da UNIMEP, e impressionados decidiram patrocinar a publicação deste livro, pois entenderam que Piracicaba poética merecia conhecer em mais profundidade o seu príncipe da poesia. E aí está, lindo e impecável, entregue às mãos do povo de Piracicaba, que indistintamente de cor, estudos, intelectualização , posses financeiras, categoria de trabalho, com religião ou agnóstico, jovem ou adulto, roceiro ou citadino, aí está, para quiçá, momentos de lazer e sonho. Sonho , sim, porque a poesia é terrivelmente sonhativa , vive no mundo da fantasia, alicerça-se nas bases da emoção e brota do âmago mais profundo do poeta, e para que as filhas de Eva não reclamem, da poetisa também.

Alguém me perguntará? Como é ser poeta? Juro, nunca pensei nisso. Acho que ninguém consegue ser poeta. Já é. Nasce feito, como dizem.

não é verdade Maria Cecilia, Ivana Maria, Ésio Pezzato , Prata Gregolim, Marina Rolim, Valter Vitti, Mario Pires, Saconi, e tutti quanti enfeitam com seus lindos versos as páginas do “ Jornal de Piracicaba, ou da “Tribuna Piracicabana , e assim também esse cacho imenso de livros poéticos que quase semanalmente são dados ao conhecimento e sentimento público de nossa terra ? Tornando-se um privilégio de uma cidade, como disse alhures o supra citado meu colega seminarístico Hildebrando André. ?

Não se suponha que para ser poeta é preciso ter nascido em berço de ouro ou em centros intelectuais de enorme repercussão. Nada disso. Tenho um soneto que define bem esse fato. É assim: “Eu não sou o poeta dos salões / de ondeante, basta e negra cabeleira] não me hás de ver nos olhos alusões / de vigílias, de dor e de canseiras. // Não trago o pensamento em convulsões,/ de candentes imagens, a fogueira. / não sou o gênio que talvez supões/ e não levo acadêmica bandeira.// Distribuo os meus versos em moedas/ que pouco a pouco na tua alma hospedas / - raros , como as esmolas de quem passa. / Mas hei de me sentir feliz um dia/ quando vier alguém render-me graça/ por o fazer ricaço de poesia. // “ . Poetas e poetisas saem do nada , devem trazer o selo ou o bilhete de entrada nesse reino encantado desde o útero materno, embora ouse eu afirmar que a vida é também uma grande mestra , as influências da mentalidade circunvizinha,

o próprio meio ambiente, podem , em circunstâncias outras , plasmar um poeta .

Eu fui plasmado , por exemplo, por entre maravilhas campestres. A roça ou o campo são fantásticos criadores de poesia. Ela anda atapetando por todos os cantos a natureza, as gentes, os animais, os atos e fatos. e a cabeça daqueles com quem ela convive. E o poeta, criador por excelência, se abebera de todas as belezas esparsas pelas colinas, serras, vales e descampados , para transformar tudo em versos e rimas, ou em versos simplesmente, onde pululam , como cabritos silvestres, as figuras literárias, os tropos, as sínteses, as comparações, e todos os anseios que lhe vão no imo da alma. Para satisfação própria e para satisfação dos que convivem com o poeta. E´ por isso que se botardes olhos curiosos sobre meus poemas havereis de tropeçar a todo o momento com um motivo roceiro, pois trago uma alma plasmada pelas belezas rurais de Santana, Santa Olímpia , Fazenda Negri, e especialmente por aquela colina encimada ,no cocuruto, pelo prédio do grupo escolar, onde aprendi a ler e escrever e a poetar.

Peço desculpas por haver-me prolongado um pouco nestas elucubrações poéticas, desobedecendo aos conselhos do amigo Ésio que continua exigindo de mim discursos improvisados, o que seria tão para os ouvintes , que ansiosamente aguardam o momento de bater palmas acabando assim com a verborragia oratória.

Não posso entretanto encerrar esta breve alocução sem deixar consignados meus agradecimentos do fundo do coração ao prefeito José Machado ,ao seu Secretário da Ação Cultural Heitor Gaudenci Junior, ao seu sub-secretário poeta Ésio Pezzato, ao prefaciador Moacyr de Oliveira Camponez do Brasil sobrinho, aos queridos opinadores Maria Cecília Bonachella, Maria Ivana França de Negri, exímias poetisas, prof. Elias Salum e a minha filha Universitária Fabíola Vitti Moro, pela maravilhosa capa, Editores e toda equipe de funcionários , à minha esposa pela sugestão transmitida ao prefeito com relação ao advento desta obra, aos digitadores Nair , minha nora e neto Leonardo, e outros que possa ter esquecido, como é fácil em cachola idosa, - meus agradecimentos repito, pela reunião de esforços e trabalho que tornaram possível o advento de mais um livro de minha lavra.

Obrigado “ em geralmente” como dizem nossos cururueiros, aos que ilustraram com sua arte musical esta solenidade e assim também a todos quantos acharam um tempinho para vir prestigiar-me nesta tarefa de cultura e arte. Levem a certeza de que nada mais desejo do que engrandecer com minha poesia a terra que me viu nascer, a terra que me viu crescer, a terra que me proporcionou oportunidade para chegar a um cargo tão nobre quão dignificante de “Príncipe dos Poetas de Piracicaba”

Meu carinhoso obrigado também aos meios de comunicação, de modo especial “Jornal de Piracicaba”, na pessoa de seu Editor Chefe Joacyr Cury , de “A Tribuna Piracicabana”, na de seu diretor Evaldo Vicente, pela divulgação caprichosa deste evento que afinal nada mais é do que mais uma demonstração da exuberância cultural da Noiva da Colina.

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