Lino Vitti - Príncipe dos Poetas Piracicabanos

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domingo, 15 de maio de 2016

O valor da crônica


Lino Vitti

Crônica – termo oriundo de cronologia – registro diário dos eventos e pessoas, é um texto escrito em poucas linhas de estilo elevado, conciso, nobre, podendo pender para a poesia ou num recheio de figuras literárias, capazes de chamar sobre si a atenção dos espíritos evoluídos e incontestavelmente inteligentes.
Aprecio sobremaneira a crônica e durante toda minha vida jornalística me empenhei em cultivá-la, com prazer e aperfeiçoamento. No valioso Jornal de Piracicaba, onde lidei anos e anos como redator, em certa época tive a meu cargo a edição da crônica chamada “Prato do Dia”, a que o diretor Losso Netto dedicava carinhos especiais. Deve ter agradado a muitos, pois recordo que dezenas de anos depois de haver sido extinta pela incompreensão de um editor que passou por aquele matutino, ao encontrar com leitores e assinantes me interrogavam: “ seu Vitti, por que tiraram fora o “Prato do Dia”? Ou então “quando vai voltar o “Prato do Dia”, de novo?”
O testemunho entretanto do valor inconteste da crônica e em especial do “Prato do Dia”, me veio às mãos lá pelos idos de 1983, de uma das mais altas autoridades nacionais da língua pátria, o eminente mestre de Português e Dicionarista famoso, prof. Napoleão Mendes de Almeida, responsável durante décadas de sua vida pela coluna ‘QUESTÕES VERNÁCULAS’ , célebre coluna de “O Estado de São Paulo” que, diariamente levava a professores, alunos, jornalistas e redatores, ensinamentos sobre o correto uso do idioma e solucionava quaisquer dúvidas que a respeito lhe fossem enviadas e solicitadas. Remexendo, como todo escritor, poeta, redator faz, em sua velha estante onde se amontoam desordenadamente livros, cadernos, papéis, arquivos, etc., encontrei a seguinte preciosidade, vinda daquele inimitável dicionarista brasileiro: “Caro professor Lino Vitti: Estou a cometer grave falha: é a conclusão a que chego ao folhear neste instante duas grossas pastas de correspondência, numa das quais dei com a sua gentileza de 5 de fevereiro de 1981 , dia em que no “Prato do Dia” anunciou de maneira mais amiga possível o lançamento deste meu “DICIONÁRIO DE QUESTÕES VERNÁCULAS”. Dois rápidos anos se passaram mas creio estar ainda em tempo para trazer-lhe o exemplar prometido.
Não me leve a mal o atraso do cumprimento da promessa então feita; estou quase três anos sem férias e passo meses inteiros sem fins-de-semana .
Com um abraço, meus votos de saúde ao distinto professor e bondoso amigo. São Paulo, 29-3- 83 – assim. Napoleão Mendes de Almeida”.
Não preciso acrescentar mais nada.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

FEIO? CULPA DO LUAR...

                                                                                
           
                                                                       Lino Vitti 

            Poetas, escritores,  pintores, músicos  e cantores, atribuem ao luar belezas e encantos, estranhável então que eu intitule este trabalho redatorialístico com um título onde se negam essas qualidades naturais do astro noturno, outrora amigo dos namorados e dos românticos, hoje já não tanto porque o homem foi mexer  lá no infinito com a Lua cheia, fazendo caminhar por ela os sapatões de  americanos descobridores primeiros desse continente celestial. E aí a Lua ficou conhecida como uma coisa estéril, sem rios, sem verde, sem gente, sem aves, sem animais. Apenas coberto de crateras mortas, inadequada portanto a provocar quaisquer pensamentos ou sentimentos de amor e romantismo. Começo este trabalho inserindo nele selene porque está muito ligada ao que vou desenvolver adiante, como principal motivo desta triste história  de um raro pássaro de que se ocupou a imprensa semanas atrás.
            Chamada de urutau o que muitos ignoram pois é raro mesmo o aparecimento dele à vista do homem, essa ave de vida e hábitos noturnos, foi mencionada pelo “O Estado”, despertando a curiosidade popular, vista num logradouro da ciclópica S. Paulo . A imprensa local em edição de semana atrás, teve a felicidade de  fotografar e publicar a figura do urutau que por casualidade rara veio morar num poste de uma rua desta cidade, onde recebeu o olhar curioso de muita gente.
            O que sobressai no estranho pássaro é a feitura. Em minhas andanças pelos bairros de Santana, Santa Olimpia e Fazenda Negri , tive a possibilidade de conhecer, já faz alguns anos idos, a rara ave , ao vivo, como diz a tevê, pois só tinha uma vaga idéia do que fosse o urutau porque entrava apenas  como objeto de brincadeiras em meus tempos de longínqua infância. Havia crianças que se diziam ser o urutau e saiam pelo terreiro de braços aberto, soltando gargalhadas, porque o canto do pássaro é realmente um gargalhada esquisita em meio  da madrugada da roça. Deu-me conhecimento dele o teatrólogo de Santa Olímpia Francisco Degáspari. É ave de curiosos costumes, foi explicando o Chico. Veja lá: ele fica pousado na ponta do galho seco mais alto de uma árvore, por aproximadamente 40 a 50 dias, imóvel, mimetizado com o galho da mesma cor de suas penas, chocando o único ovo que ele bota e fixa  naquela pontinha que é o seu ninho para a criação. O filhote aparece com a cabecita entre as penas da barriga paternal ou maternal, cresce, alimentado pelo urutau com besouros, mariposas, borboletas, abelhas e  lagartixas, que porventura apareçam circulando ao redor das lâmpadas da rua, durante a noite.  Ao vir dos albores da manhã, o urutau solta seu canto (gargalhada assustadora para muitos que não o conhecem) e vai para o pico do galho seco recolhendo-se na mesma imobilidade e silêncio durante todas as horas da luz do dia.  O urutau – acentuou  o amigo Francisco – deve ser uma ave emigratória, pois só aparece por estas bandas nos meses de setembro, outubro e novembro, sumindo nos demais meses do ano, não se sabe para onde.      
            O urutau é um pássaro feio. Digam-no os que o viram ao vivo ou em fotografia. Essa feiura tem explicação folclórica. A lenda conta que certa jovem feia, estava ansiosa por casar, entretanto devido às suas poucas qualidades de miss universo, sobrou como solteirona e um dia desanimada e descrente do mundo fugiu enveredando por um caminho em meio da floresta. Acontece, como em todas as histórias desse gênero que em meio ao caminho, em plena noite de lua cheia, sentou sobre um tronco à beira da floresta... Para surpresa da infeliz, aparece um cavaleiro que ao vê-la em pranto e solitária, condoeu-se dela e para a consolar, sentou-se ao lado. A sombra das árvores encobriam  o rosto da moça feia. Conversaram. Tempo decorrido a lua foi galgando o céu e o cavaleiro – decerto um príncipe – foi constatando  claramente o quanto feia era a jovem. E então perdeu todo o entusiasmo, levantou, montou  a sela do rico cavalo ajaezado e partiu, deixando a desgraçada moça feia envolta em pranto.
            Foi o momento em que apareceu a bruxa. Aproximou-se da jovem, soube de sua desventura e indagou dela o que desejava ser. Um pássaro, foi a resposta. E imediatamente, graças aos poderes mágicos de uma  bruxa e à tristeza e desconsolo no amor de uma infeliz mulher,  apareceu no mundo o urutau, sem penas coloridas, sem canto que preste, sem que desfrute a luz do dia, sem que tenha um ninho fofo e belo para seu filhotinho, sem nada que lembre a beleza e a maviosidade de um pássaro feliz.
            E tudo por que? Porque um raio de luar teve que espancar a sombra que cobria a feiura de uma infeliz desiludida e mostrá-la a um príncipe aventureiro que parou no caminho, talvez movido pelo amor, supondo tê-lo encontrado  naquela figura de desespero  sentada, em prantos, à beira do caminho.
                                                                       

terça-feira, 12 de abril de 2016

O FUTURO DA ÁGUA

                                 

                                                                       Lino Vitti

            Estando eu a debicar pelos sites da internet, detive-me naquele que responde pelo  www.indekx.com  onde você poderá ver, saber e ler  sobre a edição, na íntegra, dos jornais  das  maiores cidades e capitais do mundo inteiro, e no respectivo idioma. É uma das maravilhas da informática, da computação, da internet, da eletrônica, das comunicações, da ciência, das descobertas humanas,  uma das maravilhas que está instalada em todas as casas bancárias, comerciais, industriais, educativas, leigas e religiosas, na cidade e no campo, ricas, normais, remediadas e até pobres. Crianças (sim, gente, crianças!!!), adolescentes, jovens, adultos, idosos, macróbios,  estudantes, operários, analfabetos até, chefes e subordinados, a parafernália de usuários da internet é universal, arrasadora, incontrolável.
            Não é esse que aí fica,  entretanto, o assunto de minha incursão às colunas deste centenário e vitorioso matutino piracicabano, ao qual contribuo com minha  humilde redação articulística há mais de 50 anos. Não. Estas linhas mal servem de ingresso ao principal, entrevisto no título acima: O FUTURO DA ÁGUA.
            É verdade que pouco ou nada entendo dessa preciosidade universal e que existe desde o início da Criação e sem a qual a humanidade estaria fadada à morte há muitos séculos, mas a teimosia  de escrever que adquiri nos meus muitos anos de JP, sempre insiste, me tenta : vamos lá, Lino, escreva. E o tolo escrevinhador lá vai ao teclado moderno e téque-téque-téque. Alguma coisa brota do velho bestunto e corre a clicar no “enviar” para que chegue logo a sua já barbuda colaboração , para o aprovado ou não da nobilíssima editoria. 
            Ora,desculpem,amigos. Estou de novo a digredir e esquecer do principal , do  motivo que me convenceu a  aparecer por estas paragens jornalísticas.
            Estava eu falando de minha invasão internética quando o www.indekx.com me mostra umas linhas de um artigo do jornal francês Liberation.fr, poucas mas de um significado trágico para um futuro próximo. Nada mais nada menos do que o delicado e perigoso desaparecimento da água da face da Terra. Dizem as linhas da notícia: “O acesso à água potável é um dos  maiores motivos dos próximos conflitos .  Onde e como o acesso, onde e qual o modelo econômico, onde as soluções alternativas?”
            São poucas, mas contundentes palavras. Fazem lembrar  que o homem  está insistindo em acabar com as florestas, com o verde sadio das capoeiras e  das matas, em cujo seio se formam as nascentes que vão formar os rios, que vão dessedentar as populações citadinas e rurais. O homem está cavando o solo, em proporções inimagináveis, sugando  as águas que lá se escondem há milênios. O homem está secando  os rios e as fontes, ajudado pela trágica diminuição das chuvas e o desparecimento das nuvens nimbus de onde as chuvas emanam ,  raramente vistas hoje nos céus brasileiros.   O homem desta metade do planeta especialmente  devastou o solo e o está transformando em deserto, onde as águas não moram, nem vivem. O homem inventou os agrotóxicos que acabam com as ervas conservadoras da umidade  do solo, de onde surdiam os vapores para a formação das  nuvens pluviais , portadoras de chuvas para regar os campos e as matas. Diante de tudo isso o céu faz carranca, as nuvens fogem, os ventos ressecam ainda mais . E as fontes, os rios, os lagos, os poços, os regatos, os nevoeiros da terra e do céu , dizem adeus e entregam a sorte da vida humana e animal e vegetal às ordens do rei- sol causticante e  dominador.
            Esse estado terrível está em andamento inarredável, através dos séculos,  pois todos querem sugar a água, beber, industrializar, jogar fora,  usar mal dessa riqueza,  enfim contribuir para que ela se  reduza e desapareça paulatinamente.  E terá o homem algum substituto ao preciosíssimo líquido? Terá a ciência como inventar algo semelhante para  salvar o fim da era aquífera?  Haverá um novo Criador que diga “Fiat aqua” e a água se fará como disse um dia “Fiat lux” e a luz se fez?

            A advertência do jornal francês é válida em todos os sentidos. A menos que queiramos continuar nossa condenabilíssima tarefa de abusar e  liquidar com o que ainda resta de água no mundo. 

(Agosto de 2006)

domingo, 27 de março de 2016

Nossa Senhora




                               
                                                                   Lino Vitti

Se contemplas o céu em noite recamada
a grandeza verás das estrelas fulgentes.
São todas corações a palpitar, frementes,
à espera milenar de outra alma, sua amada.


Tão longínquas se vêm, mas tão pertinho as sentes,
quase as prendes na mão em desejos alçada.
Uma brilha porém tão bela e destacada,
um astro a reluzir fulgurações ridentes.


“Stela Matutina” enfeita o céu risonho,
simboliza oração, divindade, almo sonho,
a cintilar tão alto em luzes se alcandora.


E lembra, ao contemplar-lhe o mais sublime brilho
Aquela que nos trouxe um Deus feito Seu Filho
       Estrela da Manhã, Virgem Nossa Senhora.

         O que está escrito aí é um soneto, uma composição poética, de apenas catorze versos
(linhas), resumindo entretanto uma das maiores homenagens que se podem prestar a um assunto ou a uma personagem, quer do mundo religioso, quer do mundo laico.
         Como podem verificar os estimadíssimos leitores deste feliz e importante semanário sócio-cristão, a figura que desejei homenagear no soneto é nada mais, nada menos do que a Mãe de Cristo Salvador. 
         Eu sei que Nossa Senhora merece não apenas 14 versos, mas milhares, um poema dos mais extensos e profundos, do tamanho de sua dignidade e missão de que o Pai Eterno a incumbiu de exercer na Terra, qual seja, a Mãe Daquele que ao mundo veio para abrir o caminho da salvação e felicidade eternas.
         Nossa Senhora é a mulher marcada com o signo da Redenção humana para livrá-la  das garras do Pecado, pois por Ela é que do Céu se dignou baixar à Terra  o Cristo, o Filho do próprio Deus, Soberano, Eterno, Pai.  E para quê ?
         Ora, sabemos todos, sabem-no até os pequenos de espírito,  que o a Humanidade, por força da desobediência pecaminosa de Adão e Eva, primeiros seres criados diretamente por Deus, fora condenada à perdição eterna, pois infinito foi o pecado cometido pelos nossos primeiros pais.  Pecado que exigia uma condenação infinita.
         Como então sair-se de tal enrascada praticada pela gula infeliz de Eva, que seduziu o seu companheiro de Éden a comer da maçã proibida, levando-o a uma condenação conjunta, perdendo a inocência divinal e celestial, cometendo aquele pecado com sabor de eternidade? Como salvar a humanidade  ingrata que haveria de vir, povoar o mundo, viver, multiplicar-se, cuidar do universo? Como obter o perdão infinito do Criador, infinitamente ofendido pela desobediência infeliz de nossos pais edênicos?
         Bem Deus é Deus. E o problema criado pela ingratidão do primeiro casal foi solucionado pela sabedoria infinita. Só seu Filho,  seu único e como Ele eterno e infinito, poderia servir de embaixador da salvação humana.  Assim mandou-o à Terra, para ser Homem, e como Homem e como Deus Filho,  ser condenado  à morte ignominiosa da Cruz, escolhendo para essa divinal transformação a Virgem Maria, em cujo seio , por ação do Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Trindade Santíssima Pai, Filho e Espírito Santo, o Salvador se encarnou, nasceu e com quem viveu até os 33 anos, quando mais uma vez o Homem se levanta contra Deus e condena, e crucifica, e entrega à Morte, Aquele que é o Filho de Deus. 
         Em tudo isso, em toda essa obra divina de arrependimento e perdão, de descida e retorno ao Céu,  de morte e ressurreição, foi sublime a presença de Nossa Senhora. Sublime, divinal, oportuna, e feliz , pois foi ela o elo de ligação entre a Terra e o Céu, foi graças à sua participação infinita que a humanidade pôde respirar novamente os ares da felicidade eterna, graças ao seu “Sim” ao anjo, enviado por Deus que a escolheu para ser participante da Salvação Eterna. Foi Ela que livrou o mundo das garras de Satanás, o Pai do Pecado e da Morte Eterna.
         Como reconhecimento de tanto valor religioso, humano e divino, foi estabelecido pela cristandade  o mês de Maio como consagrado à Virgem Maria, durante o qual, ao menos até recentes anos, se recitavam novenas, celebravam-se festejos, realizam-se atos e práticas, destacando a figura exponencial  de Nossa Senhora, Mãe de Cristo e cooperadora com Deus na vinda de Cristo Salvador,  algo de onde, como de fonte cristalina e santa, cascateou o perdão,  veio a remissão do pecado, desceu à Terra  a luz do Céu.  Tenho recordações belas dos tempos em que floresciam as Congregações de Marianos e Filhas de Maria, não só na cidade como em todos os bairros da zona rural, participantes eméritos nas homenagens à Maria durante o mês de Maio a ela consagrado. Eram manifestações à luz do dia e ao fulgor da noite, dignificando Aquela que um dia disse ao anjo vindo do seio de Deus para trazer a Boa Nova da Salvação: “Faça-se em mim, segundo a Sua Palavra.”, depois de ouvi-lo pronunciar : “ o Senhor esteja convosco, pois bendita sois entre todas as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus”...  

         Por tudo isso então Ela merece as homenagens e a gratidão de todos nós. Que acham vocês?! Rezemos: “Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre todas as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amem.”

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O SEMEADOR MÁRIO ORSI



Lino Vitti

         Não faz muito tempo, por uma gostosa casualidade, dessas que são muito raras (raríssimas escrevem os  bons literários) na vida de qualquer um, reencontrei um inesquecível e valioso amigo, colega de serviço público, responsável sem dúvida por aquilo que sou hoje: aposentado municipal do poder legislativo.
         A grata casualidade, embora ocorrida em local não muito grato qual sejam os corredores de um hospital, serviu para um rápido bate-papo e a evocação de algumas das incontáveis recordações de tempos idos, de tempos vividos lá atrás quando ainda não botávamos a atenção ao número de anos de vida, nem se era obrigado a, volta e meia, correr seguidamente para os tristonhos corredores de santas casa, hospitais, unimedes e ----- , pavorosos para quer que seja.
Embora local tão impróprio para encontros saudosos, aquele momento me fez fugir do presente e da tristeza de um hospital, para voltar, num fantástico galopar do corcel da saudade para os dias da juventude, vendo o amigo sorridente e prestimoso apresentar o “desempregado” Lino Vitti ao então prefeito Jorge Pacheco Chaves para uma vaga de bibliotecário na Biblioteca Pública Municipal que seria para o futuro “príncipe dos poetas piracicabanos”, digamos assim, o pasto adequado para as suas vindouras elucubrações no mundo do jornalismo, da crônica e da poesia. Quereis melhor função para um sonhador do que tomar conta e distribuir livros nesse curral sublime de intelectualidades e estudiosos como é uma biblioteca onde repousam milhares de outras intelectualidades do além, já passadas por este mundo onde deixaram luminosidades imorredouras e astrais?
 Cidadão, ou melhor servidor público no exato sentido do termo – MÁRIO ORSI – é o nome do amigo responsável pelo encaminhamento deste “príncipe das arábias”. Como Mário Orsi sabia tratar as crianças leitoras! Em suas mãos repousava o empreendimento educacional infantil da biblioteca. Ele, diria eu, era um semeador de cultura. Distribuía as sementes valiosas e gloriosas dos livros à garotada que, em bandos álacres, como verdes tuins chilreantes que conheci nas matas da minha infância, acorria a sua seção bibliográfica.
Que beleza, Mário Orsi! Eu pensava ao ver aquela algazarra e estudantes infantis que você também virasse uma criança ( e olha lá que não estou muito errado), entrosando-se totalmente naquele papaguear e querer saber, numa demonstração divinal de que o mundo é belo, e encantado, quando as mesmas pessoas como você, o fizerem encantado o belo.
Já pensou, Mário, quantas crianças você transformou em gente, graças as sementes que você semeou no coração e na inteligência delas?
Eu acho que elas se encontram felizes hoje, como eu me encontro, e como você deve se encontrar por haver sido um semeador tão bondoso, tão responsável, tão amoroso. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

NAVEGANDO


Lino Vitti

Costuma-se  comparar  a  vida   a   um   oceano,   através   do   qual   vamos navegando. “É preciso navegar” sentenciam alguns ou muitos. Que somos nós?   Mosquitos  do   universo,  micro-segundos   da   eternidade!   
Barquinhos balouçantes ao sabor das ondas e das borrascas dos mares da existência! Por isso, navegamos.
E nesse navegar sem termos, ou melhor, até o porto que nos espera, quiçá um pouco mais além, (mas sempre a esperar), atravessamos os anos, sonhando às vezes, apavorados outras tantas, pele furor das ondas ou pela placidez da superfície aquosa.
Podem   ver   os   amigos,   quiçá   leitores   destas   desconexas   linhas,   por quantos aspectos diversos, contraditórios, serenos ou tempestuosos, naveguei, ao sabor das belezas de uma infância roceira, de uma adolescência de estudos e   de  trabalhos,   à   cata   do   porto   onde   encontraria   talvez   local   propício   à mocidade, maturidade e velhice, pois todas elas se aproximavam a passos rápidos e decisivos.
De   caixeiro,   ressaltou   o   meu   barquinho   a   ajudante   faz-de-tudo   da diretoria do estabelecimento em que estudaria as ciências contábeis. Sete anos longínquos ficava o seminário. Doze anos se distanciava o tempo da roça, da meninice. E como somos todos Cristóvãos Colombo em busca de terras novas, novas   eras,   novos   horizontes,   passei   de   servidor   da   Família   Zanin,   para servidor do   Município, havendo   sido o  remador do  meu barquinho nessa direção   da   vida,   o   meu   estimadíssimo   amigo   Mário   Orsi,   bibliotecário municipal, cuidadoso e competente responsável, pela Biblioteca Infantil da Prefeitura   de   Piracicaba.   Ora   havia   nessa   repartição-importantíssima   do município o funcionário António Piacentini, contador experiente e sabido,
exercendo o cargo de 2º Bibliotecário, sob a direção do 1º Bibliotecário, que, nada mais nada menos, era o saudoso Prof. Leandro Guerrini. Piacentini ia dedicar-se àquilo de que sempre gostara: a contabilidade, em importante Usina   Açucareira e eu, eufórico naturalmente e sumamente grato ao Mário Orsi, iria fazer aquilo de que mais gostava na vida: trabalhar em meio dos livros, mexer com livros, apanhar nas estantes preciosos volumes dos meus queridos poetas, romancistas, escritores. Que se há de fazer se a vida é essa, se o barquinho pensa seguir um rumo e vai para outro, se o Piacentini se envolvia com os números de que tanto gostava e Lino Vitti se envolvia com as letras de que tanto gostava também. Ao menos uma vez , deixara de a vida presentear-me com os contrastes e seguira a lógica das coisas e os anseios das pessoas.
Como sou grato a você Mário Orsi por dirigir-me o leme do barco para esse maravilhoso mar dos livros, como deve ser considerada uma biblioteca. A você, saudoso Leandro Guerrini que elaborou a primeira folha de pagamento de meu ordenado municipal: 400 mil reis! Uma fábula para aqueles tempos! E com que anseio, com que bater rápido do motorzinho do peito corri a entregar essa   fortuna   ao   velho   que   para   sustentar   uma   família   de   onze   ou   doze membros recebia do Estado quase três vezes menos.
Miserável cronista que, depois de oitenta anos, vem contar essas coisas!
Que   interessam   ao   mundo   e   às   gerações   de   agora   esses   acontecimentos envolvendo a vida de um “príncipe”. Malvadezas do destino? Ou riquezas da existência? “Sei lá”, como escreve muitas vezes o navegador cronista aí da 2ª página, para justificar as tramóias com que o destino nos presenteia

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

MEU AGRADECIMENTO



   ( Quando do recebimento da Medalha de Mérito Cultural em  2013)                                      
    Lino Vitti

                  Em crônica anterior comentei o assunto  “gratidão” . Dizia da necessidade de todos procederem  com a   manifestação desse gesto sempre  que por qualquer motivo  fossem honrados ou dignificados com outro gesto, desde que recebedores de  um benefício, social, moral, espiritual , físico  ou cultural, formas diversas de que a sociedade faz uso para outorgar benefícios dessa ordem.   De qualquer forma ,  o dever de sermos gratos  é uma constante necessidade  humana , para que tudo caminhe nos eixos  e no ordenamento  das relações  entre gente e coisas.
                   Recebi, em dia aprazado de agosto, um Sábado feliz de minha vida, embora o mês, no conceito popular e folclórico, seja  de expectativa contrária,  recebi, repito, uma honraria de parte do Município de Piracicaba, mais precisamente da sua Secretaria da Ação Cultural, concedendo a “Medalha de Mérito Cultura “Prof. Olênio  de Arruda Veiga “, instituída par premiar aqueles cidadãos piracicabanos  que se tenham destacada  na  disseminação  da cultura entre os seus conterrâneos  ou mais amplamente , em áreas superiores, como do Estado ou do País.
                    Confesso-me humildemente surpreendido com a honraria, pois  entendo  que apesar de minha contribuição  à cultura geral de Piracicaba, outros existem  de maior trabalho e projeção dignos de a ela fazer jus, mais do que este singelo servidor da poesia , do jornalismo, da literatura através de crônicas e contos, quiçá com um currículo bem mais avançado  do que este  combativo lutador da cultura desta terra  de inegável memória  artística e  cultural.
                      Foi pois  à sombra de tais idéias que recebi das mãos do prefeito José Machado,  um insigne protetor e incentivador da cultura piracicabana  a medalha  criada para tão  alta finalidade , autoridade máxima do município que se dignou comparecer ao ato  dignificando este  mero cultor da arte literária , de tantos integrantes  entre nós. O que  sem dúvida representa muito e tanto  para quem tem o prazer de servir  a essa distinção que a vida oferece aos que  a ela se dedicam.
                     Ser poeta é um privilégio de poucos. Ser homenageado tendo como motivo  uma intensa divulgação da poesia é outro maior privilégio . Por isso , a alegria  de receber a honraria , em singela festa onde compareceram  pessoas gradas, autoridades eminentes, como o presidente da Câmara de Vereadores, o presidente do Instituto Histórico e Geográfico, o Secretário Municipal da Ação Cultural, o afinado coral  de Santa Olímpia, sob a batuta da  sua competente maestrina, jogral de jovens da UNINEP,  que declamaram, juntamente com  uma excelente declamadora cujo nome me foge à memória de  idoso, várias poesias de minha lavra, não faltando ainda a presença em espírito do Presidente da Academia Piracicabana de Letras e o orador  do IHGP, professor Elias Salum.
               Vejam vocês que se entre gente desse quilate, não seria para Lino Vitti estourar de satisfação e emoção e assim sentir-se, diante de tão alta representatividade, mais digno de receber a ínclita Medalha  de reconhecimento cultural. E mais que tudo, ainda porque  perante  aquela  platéia de eminências, dirigidas pelo anfitrião, meu amigo poeta  Ésio  Pezato ,que desfiou  a síntese da vida  e participação cultural de  Lino Vitti, senti-me elevado  a emoções sem termo , quase arrebentando o coração do  velho.
                Paro por  aqui. Antes, porém, muitíssimo obrigado que só o que sabemos dizer em tais saborosas homenagens.

     

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

POETAS E POETISAS


Lino Vitti

            Meu principado é grande, é generoso, é belo e divino! Há 65 anos, mais ou menos, iniciei meus passos poéticos por esse flóreo caminho da arte do verso e da rima, do ritmo e da estrofe ( ou do verso sem rima, sem ritmo (métrica) e sem estrofe como desejam muitos e muitas). Que senda maravilhosa, alegre, colorida e feliz é essa pela qual palmilham os passos aéreos dos poetas e poetisas!
            A poesia, a verdadeira poesia, não cansa, não arma barraca em meio da jornada da vida, porque o Belo jamais fenece, o caminho não finda nunca, os sonhos prosseguem porque não se desfazem ao vir da crueza lucífera de um sol de verão, ou enregelam à chegada da frigidez hibernal dos anos tardios.
            Não é digno de ser chamado poeta, ou poetisa, aquele que abandona, covardemente, o encanto dessa manifestação inamovível do coração humano. Aquele que cansou de rimar, cansou de versejar, cansou de sonetar. Em questões de poesia não há aposentadoria condigna, não há salário-mínimo aceitável, não há sentar-se à beira de um barranco estradeiro para ver a caravana dos ideais, dos sonhos, dos encantamentos, passarem em demanda daquilo que é eterno, pois eterna é a poesia!
Vejo que Piracicaba é proprietária dessa caravana cultural da poesia, pois imensa é a legião daqueles que se dedicam à arte das musas poéticas. Basta ver quantos e quantos livros por igual número de versejadores, como aves pipilantes, abrem voo por estes céus literários! Vejo eu, por exemplo, quão numerosos livros enfeitam as prateleiras da minha humilde estante, onde pousaram, vindos de inúmeros lançamentos com que nos brindaram poetas e poetisas, parecendo haverem encontrado por estas plagas culturais, - sabiás sonoros de Gonçalvez Dias – o seu laranjal predileto para desfiar seus cantos poéticos e nobres! Estaria me exprimindo bem, caríssimo trinador de versos e rimas, Ésio Pezatto, com os tropos literários aí deixados pela minha velha veia descritiva? Se não, meta você  a cachola artística a funcionar e descubra, formas e figuras mais adequadas a retratar essa plêiade versejante que honra, dignifica, encanta e genializa a nossa terra!
Tão ricos somos de poetas e poetisas (vêem vocês que insisto na aplicação do termo poetisa, porque não admito se denomine uma representante do mundo feminino com um esdrúxulo vocábulo masculino, quando é tão lindo e sonoro o “poetisa”!), tão ricos somos de poetas e poetisas – repito – que nosso diários jornalísticos nos reservam páginas inteiras semanais para a divulgação da poesia piracicabana. Temos até mesmo um mensário, estufado de páginas, do Clube dos Escritores que nos cumula de poesia, doméstica e forasteira, tudo numa demonstração que Piracicaba mantém a tradição encantadora de sustentar a arte intelectual da poesia, tão importante na vida da humanidade que gregos e latinos – povos mais cultos da história – mantinham deuses e deusas protetores e incentivadores dessa sublime manifestação do  espírito.
Ouso afirmar que sem ela – a Poesia -  este escrivinhador não seria nada na vida, pois tudo quanto de bom e indispensável à uma existência condigna e feliz, floresceu provindo desse envolvimento em que me engajaram a beleza das estrofes, das rimas, mormente do Soneto, cultivados com amor e dedicação, entregues com carinho e prazer à leitura e cultura de milhares de pessoas que sentem no âmago de si mesmas, muitas vezes ocultas, outras tantas manifestas, as maravilhas de ler e entender a vida como uma imensa Poesia.

Avante, então, meus súditos poéticos! Nada de esmorecer diante das exigências dos anos e das dificuldades do viver. Relegar os sonhos, esquecer os encantos desse fantástico mundo em que vivem os bardos, não é de espíritos empreendedores e lutadores. Que vençam os poemas, que cantem as estrofes, que tilintem as rimas!   

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O DOCE



ALGUMA  CRÔNICA (LXXVIII)


Lino Vitti

       Falar em doce é lembrar  de menino. Esses caretinhas que só  pensam em brinquedos e gulodices são loucos por uma cocada. Mel então nem se fala! Melado , que delícia! Um doce de leite, coisa de dar água na boca! O simples açúcar ao natural, isto é, saído da biquinha da usina, algo estonteante para o paladar do moleque !
      A respeito , tenho algo a contar. Criança da roça, antigamente, só consumia açúcar batido que é o nome que se dava ao produto saído do engenho, tempos em que usina era coisa muito rara pelas bandas da minha terra  natal. As famílias recebiam o açúcar fabricado aí mesmo , no  engenho das próprias, em sacas volumosos  que eram guardadas na despensa, local propício para as furtadelas  da meninada. Em chegando o escurecer, quando os
idosos batiam papo  num local reservado para as tertúlias  crepusculares, os meninos mais afoitos pulavam a janela da despensa , um a um , sacando valentes punhados do saboroso batido e se mandavam a sugá-lo , com sofreguidão, em esconderijo adrede determinado , longe da vista do pessoal todo  distraído em conversar sobre as peripécias do trabalho do dia.
        Outro motivo do consumo doceiro ocorria quando da realização das festas religiosas nas igrejas dos bairro infantis. Ao  longo do caminho  que dava acesso aos povoados, os doceiros da cidade montavam suas mesas  de iguarias dulcíferas, onde  se podiam adquirir , por alguns tostões (devem ser os centavos de hoje) gostosos doces de batata, cocadas brancas ou morenas, pés-de-moleque, pudins, nacos de bolo, e uma infinidade de doçuras de fazer inveja a qualquer paladar.
         Meninos e meninas viviam atormentando os pais , visando angariar os tostões com que matar a vontade  de saborear qualquer doce que fosse  nas banquinhas dispersas à beira  do caminho. Meu saudoso velho  não era fácil no alongamento das moedas, o que   fazia com que Guilherme, Lino, Valter, Artur , de paladar aceso para degustar um pé-de-moleque , ficassem rodeando  os “banqueti”, como em dialeto se chamava a geringonça montada pelos vendedores da cidade. Lembro-me que de olho comprido na parafernália  doceira, em caso de conseguirmos arrancar do pai, os desejados tostões, escolhíamos  dentre  os maravilhosos (ao nosso olhar) espécimes, os mais vistosos e que poderiam ser também os mais gostosos..
           Assim aconteceu.. Com dois tostões no bolso  deliciei-me com  uma cocada, reservando a Segunda moeda  para o final da tarde, algo assim como uma sobremesa, de olho num tubinho de papel recheado de qualquer coisa. E quando “a tarde morria”, julgado asado o momento para a aquisição  do quitute  final , lá me fui, todo lampeiro, à conquista da “mercadoria” desejada, com o último tostão da festa .
             Que tristeza! Que decepção! O secreto canudinho , que a minha fantasia infantil supunha conter algo nunca visto nem saboreado , nada mais era do que  amendoim torrado, por sinal exageradamente  salgado! Uma  droga! Sem outro remédio para a desdita , fui até onde se encontravam Guilherme e Valter , em cujas mãos, num gesto desolado depus os intragáveis amendoins , acompanhados de um  tristonho “en vôt” que traduzido do  dialeto para o português  nada mais quer dizer do  que “você quer “?

              E eu que esperava encontrar no enigmático canudo  uma  dulçorosa  peça melífera para encerrar  mais um dia de festa , das minhas saudosas festas de infância , fui enganado .pela aparência.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

MENOS ÁGUA E ÁGUA MAIS CARA


                                                                                     Lino Vitti

Desalentadoras notícias sobre o secular abastecimento de água através do Piracicaba, obrigam-me a voltar a escrever sobre o assunto, pois havia combinado comigo mesmo não tocar mais nessa encrencada peça – importante peça aliás – da vida da comunidade piracicabana.
É demasiado longo e já se tornou fastidioso, pela falta de real solução e pelos caminhos tortuosos por que enveredou, tratar da despoluição do rio Piracicaba (e agora também do rio Corumbataí), fatos que arrefeceram o ânimo e a pena deste teimoso colaborador da imprensa local, com o fito puramente cívico de ajudar este povo na sua luta contra a destruição da potabilidade das águas do seu rio, e ao que parece, a destruição física do velho abastecedor de nossas casas.
Ao que deduzo daquele noticiário, a tomada, ou melhor, o furto consentido das águas que vêm até nós pela via aquosa que nos margeia, não terminou. Há gente montando processos de se apoderar de mais líquido precioso do Piracicaba, unindo-se nessa terrível tarefa, ao governo do Estado que faz muitos anos (eu ainda era jovem quando escrevia a respeito neste matutino), inventou de montar uma “bomba” sucçora às cabeçeiras das nascentes, até hoje sugando, sugando, reduzindo o volume e contribuindo assim para que o esgoto jogado por dezenas de cidades, à montante, engrosse mais e mais as águas do nosso consumo, transformando-as num caldo grosso e intragável, trabalhosamente posto em condições de consumo graças à perícia tecnológica do SEMAE.
Li ainda, entre descrente e envergonhado, que se cogita de promover uma campanha para o reflorestamento das margens das correntes de água na região e imediações, como se fosse uma novidade e viesse salvar efetivamente o rio da desgraçada poluição. Enquanto assim se cogita, gente da roça me informou que houve um desmatamento (é verdade que semi-artificial) em terras municipais, atingindo exatamente dois ribeiros. E quem irá replantar tantos espécimes vegetais ao longo do Piracicaba, em agonia biológica e ecológica, capaz de purificar-lhe as águas, se continuarem cidades imensas a meter esgotos, águas servidas, produtos químicos, materiais hospitalares, etc. etc., torrente líquida abaixo? E a quantos anos à frente essas árvores cumprirão sua missão recuperadora? Utopia, utopia!
Outro fato que me chamou a atenção naquelas informações jornalísticas é o da criação de um percentual monetário pelo uso das águas.
Necessário que assim seja, entretanto, convm lembrar que o povo anda escorchado de tantas cobranças oficiais, de tantas taxas, de tantos impostos, de tantos aumentos, de tantas enfiadas de mãos governantes em seus raquíticos bolsos financeiros. Ao que concluo nesse novo ataque aos cofres particulares pelos cofres públicos, é que os piracicabanos, massacrados há dezenas de anos pela poluição de seu rio, vai ter que desembolsar mais dinheiro para pagar a despoluição de seu mesmo rio, vai ter que desembolsar mais dinheiro para pagar a despoluição daquilo que não poluiu. Pagar pelos pecados dos outros.

Em síntese: menos água, e água mais cara, como digo no título desta matéria. Menos, porque não se volta atrás no caso da retirada das cabeçeiras do rio, ao contrário, parece, ao que leio, que querem aumentar a indústria do chupa-chupa aquoso, com a instalação de novas bombas surripiantes do líquido. Água mais cara, porque, também leio, já está acertado um “pequenino” aumento do consumo que, logicamente, não vai sair dos bolsos oficiais, mas das míseras algibeiras populares.           

domingo, 29 de março de 2015

"TENHO SEDE"


Lino Vitti

Encimam o título desta crônica palavras divinas. Palavras proferidas no momento mais triste e significativo da história do mundo, da história da Fé, da história da humanidade. Cristo, Filho de Deus, crucificado por aqueles de quem fora o próprio Criador, quase sem forças para fazer ouvir-se-lhe a voz, brada angustiado: “tenho sede”. Em outras palavras: preciso beber, dêem-me água. E os soldados não lhe deram água, mas fel.
O grande contra-senso! Um Deus, autor do universo e de tudo quanto no universo vive, vegeta, sensível ou insensível, a pedir água – água que lhe é negada porque o homem se julga senhor de tudo, inclusive de uma cuia do valioso líquido a ser estendida ao moribundo no ponto culminante de sua morte.
A água é criatura de Deus! Quando o mundo era o caos a voz de Jeová disse: “separemos as terras das águas”. E elas formaram os oceanos, formaram os rios, formaram os ribeiros, formaram os lagos, formaram as fontes, formaram as correntes que circulam nos sub-solo e as nuvens que presenteiam o mundo com a grandeza das águas pluviais. Onde não há água, domina o deserto, de onde a vida foge porque a água é vida e sem ela comanda a morte.
A ciência a chama de H20. Como quer que a chamem, como quer que a denominem, ela é a alegria, ela é o frescor, ela é a beleza, ela é o prazer, ela é o amor , ela é, como disse, a vida.
É alegria porque o mundo animal e vegetal, sorri diante de uma fonte borbulhante cujos lábios a sugam e cujo frescor lhes mitiga o ardor da sede: ela é beleza porque encanta aos que a buscam: ela é prazer, porque nada mais delicioso do que um copo de água para aquele que necessita dessedentar-se; ela é amor, porque foi um gesto de amor divino que nô-la deixou à disposição a qualquer hora e em qualquer necessidade; ela é vida, sim, é vida, porque onde falta a água surge a morte e a destruição.
O homem, entretanto, é o eterno contraditor de tudo quanto lhe deu de presente o amor divino. E costuma sempre emporcalhar com sua ignorância e maus instintos, as grandezas que se lhe foram oferecidas e cujo uso lhe é livre e soberano. É o que está fazendo hoje a criatura, quando desconsidera o valor do prêmio santo da água e a destina para fins ignóbeis, ou a suja com seus elementos venenosos, desumanos, condenáveis e impiedosos. Os rios, as fontes, os oceanos, nada escapa ao processo destruidor da poluição humana. Basta olhar, mesmo que de relance, para os crimes que se cometem contra as torrentes líquidas da terra, do país, do universo, tudo engendrado pelo próprio homem a quem cabe, antes que mais nada, fazer exatamente o contrário, isto é, preservar, defender, tornar cada vez melhor, a fonte de onde extrai a água para seu viver, para o viver de suas famílias, de seus conterrâneos, dos homens, mulheres e crianças do mundo inteiro.
Essa é uma verdade facilmente demonstrável. Basta apenas ver o rio Piracicaba, que até há pouco tempo nos ofereceu suas águas para matar a sede e servir de uso a toda uma comunidade. Que fizeram dele? Um esgoto infeliz e doloroso que ao vir do inverno, quando as chuvas generosas escasseiam se transforma em leito de pedras sujo e fétido. Piracicaba, cujo serviço de abastecimento é um dos melhores, senão o melhor do país, e quiçá do mundo, vive a desdita de ver a água que consome, submetida a caríssimos processos de tratamento para poder ao menos ser aproveitada pela população, porque se lançam em seu seio, milhares de toneladas de esgoto humano, industrial e agrícola. As autoridades e o órgão responsável, partem para outra fonte abastecedora. Mas que ocorre? O homem, sempre o homem, lá aparece com a sua maldade e inconsciência para conspurcar mais uma vez as águas da nova fonte, com venenos industriais e agrícolas. E as consequências sabem-nas todas quais são.
Meus irmãos. Não foi para isso que Deus nos doou esse prêmio de vida. Não foi para o sofrimento que se criaram e abriram os mares, os rios, as fontes, os lagos. Foi para que vivesse a humanidade melhor e mais feliz. E só poderíamos hoje dizer, bem alto e com toda a alegria da alma: “Obrigado, Criador, pela água que nos deste!”

sábado, 13 de setembro de 2014

OS FRADES CAPUCHINHOS


Lino Vitti


            Os bairros de Santana e Santa Olímpia, em matéria de Fé e de Religião, foram privilegiados. Através de todos os seus anos de existência sempre puderam contar com a presença de um sacerdote missionário, em geral um frade franciscano ou capuchinho, dedicados sacerdotes de tempos idos, pacientes, muito virtuosos e preocupados em distribuir os ensinamentos de Cristo e a palavra evangélica.
            Apesar de os operários do Senhor serem poucos, a população trentino-tirolesa sempre teve a graça de contar quase mensalmente com o enviado de Deus, um frade para rezar-lhe a Santa Missa, confessá-los, realizar batizados e distribuir-lhe a Comunhão. Com o caminhar dos tempos, os atos religiosos e a presença ministerial de um sacerdote foram se tornando mais amiudados, e a par do crescimento populacional, verificou-se um aumento de oportunidades de assistência religiosa, a tal ponto que hoje a comunidade de Santa Olímpia conta com um sacerdote da própria terra que reside entre as famílias, podendo assim proporcionar um significativo aumento de missas, casamentos, comunhões, aprendizado, confissões, e o desenvolvimento de espírito cristão.
            Voltando aos frades capuchinhos, lembro-me neste momento de um velho franciscano, chamado Frei Virgílio, um santo no trabalho e nas virtudes, mas que deixou fama entre os moradores de muita severidade. Não tinha receio de cergastar os costumes, as faltas, as transgressões da religião, e apontá-las nos sermões que eram longos, cheios de incriminações, alusões ao fogo do inferno e aos castigos eternos, que sempre fazia com veemência  e com voz de autoridade no assunto. Muitos não gostavam de Frei Virgílio, não só porque ele não deixava para depois o que tinha a dizer, mas também porque os atos religiosos eram meticulosamente realizados com voz pausada e firme, o que muitas vezes ultrapassava o tempo normal de duração.

            Só os mais idosos do bairro conheceram e tiveram assistência religiosa de Frei Virgílio, que apesar de suas implicações e severidade, era muito estimado e respeitado. Deixou saudade sem dúvida entre os membros das comunidades de Santana e Santa Olímpia e dos bairros circunvizinhos. Deixou também uma esteira de santidade e de trabalho de exuberante formação cristã, que se reflete ainda sobre os descendentes daquelas famílias que conviveram com o brabo Frei Virgílio.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

GENTE BOA DE SANTANA


MÁRIO VITTI

                                                    por Lino Vitti

Dentre as pessoas que merecem ser lembradas nestas cronicazinhas figura sem dúvida o meu tio Mário Vitti, filho de Jorge e Rosa Cristofoletti, cuja moradia ficava nas proximidades do Grupo Escolar, hoje Escola Estadual com ensino primário e secundário. Ele era meu tio em virtude de ser irmão de meu pai, aliás de numerosa irmandade mista, figurando meu progenitor como o mais velho e o tio Mário como o caçula.
Fomos, a bem dizer, colegas de infância, participando da mesma escola e dos mesmos divertimentos infantis, às vezes também de tarefas roceiras, das mesmas pescarias e caçadas.
Era muito dedicado na lavoura enquanto nela trabalhou, pois depois de certo tempo optou pelo serviço público como servente-contínuo de escola do Estado de São Paulo, inicialmente no próprio grupo escolar do bairro, depois em estabelecimento da cidade onde veio a se aposentar.
O forte do meu tio Mário era a religião, herdada especialmente de sua mãe, minha vovó Rosa. Foi Congregado Mariano fervoroso e ativo, sendo praticamente responsável pela introdução dessa entidade católica no bairro de Santana. Com que amor e orgulho ostentava a sua Fita Azul, símbolo do marianismo, com que fervor participava das rezas, vias-sacras, retiros, missas e comunhões, e não tenho dúvidas em proclamar alto e bom som que ele era um congregado modelo, exemplar, a ser imitado em sua fé, em seu cristianismo por todos quantos o cercavam. Indicado para presidente da Congregação Mariana soube conduzí-la com carinho e capacidade modelares, crescendo muito em fé e em religião a instituição, graças ao seu trabalho, ao seu exemplo, aos ensinamentos que sempre soube transmitir aos demais membros de diretoria e congregação.
Mesmo mudando-se para a cidade, tio Mário não esqueceu a religião, participando de atos e atividades da Igreja com aquele mesmo ardor de sempre, constituindo família numerosa sob as bênçãos do Senhor a que sempre serviu.
Tio Mário deve ser considerado uma pessoa especial dos bairros Santana e Santa Olímpia, cristão e católico convicto, exemplo do probidade e virtude, honrado pai de família e um cidadão de primeira linha.
Rendamos-lhe pois nossa sincera homenagem.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

OS CARPINTEIROS



                                                      Lino Vitti

Profissional muito requisitado nos primórdios de vida das comunidades de Santana e Santa Olímpia, e ainda hoje, era o carpinteiro. É um trabalho árduo, exigente, bonito. Só um verdadeiro artista do formão, enxó, serrote, martelo e pregos de todos os calibres será capaz de exercer a arte da marcenaria. Afora esses instrumentos especiais, o profissional deve ter vocação para o serviço, pois é uma tarefa que exige muita concentração, muita paciência, muito trato com as medidas métricas.
O carpinteiro mais antigo de que aqueles bairros têm memória foi sem dúvida o português Rodrigues que exerceu seu trabalho no bairro Santana, mas seu especial afazer se estendia também a Santa Olímpia, Fazenda dos Negri e comunidades vizinhas. Cômodas, armários, guarda-roupas, camas, cadeiras, mesas, criados-mudos, ataúdes para levar adultos e crianças à última morada, eram construídos pelo saudoso Rodrigues. Digo “saudoso” porque cheguei a conhecer o carapina, nos meus distantes dias de infância, em pessoa, servindo-me de motivo até para a elaboração de um de meus Contos literários “O Mistério do Lampeão”. Mas isso é outra história.
Outro artista do formão e da plaina foi o Francele Stênico, em Santa Olímpia e se não erro em minha memória ele era filho de Simão e Tia Maria Stênico. Que mão abençoada tinha o pai do Abrahão! Os trabalhos fabricados pelo Francele chegavam à perfeição. Parece-me que foi o responsável pela construção de altares da igreja de santa Olímpia e dos bancos da sua nave, bonitos, funcionais, duráveis. Especialidade do Francele  foi a confecção de urnas para enterros, dava até gosto morrer para ocupar uma coisa tão bem feita pelas mãos longas e hábeis do filho da Tia Maria.
O Césare – um italiano vindo da guerra de 1915, junto com a família Malusá – foi também carpinteiro em Santana e redondezas. Especializou-se na fabricação de bancos para a igreja e, se não me engano, sua habilidade nessa arte chegava até a construção de carroças e carrinhos. O Césare blasfemava muito, ao que me recordo. Nem por isso deixou de atender ao pedido dos diretores da igreja de Santana para a construção dos seus bancos e outros móveis de sacristia.
O último dos carpinteiros de que tenho lembrança e que conheci bastante foi o Virgílio Bombach. Como gostava de vê-lo entalhar madeira, lixar, alisar, martelar, pintar, móveis residenciais, abastecer os novos casais, servir a toda a comunidade em seu importante trabalho de carpintaria. Caprichoso, paciente, conversador dos bons, Virgílio, além de muitos e belos móveis que fez para os bairros, deixou uma grande saudade, porque eu acho que ele foi um bom, um excelente profissional, um exemplar pai de família e um grande amigo.

Deus os tenha a todos em seu reino!

domingo, 29 de dezembro de 2013

UM HINO SILVESTRE


Lino Vitti  

           Nos meus felizes tempos de meninice, passada por entre gente e paisagem da roça, tinha especial predileção pelos caminhos  e pelos atalhos cujo destino podia levar a um bairro, a um sítio, a uma fazenda ou a nenhuma dessas coisas para ser então um simples final de estrada que levava à lavoura, a uma lagoa, a um mato virgem, a um ribeirão onde moravam traíras, bagres e lambarís, felizes, porque sem poluição das águas pelos venenos agrícolas assassinos de hoje.
                        Como era agradável, como era saudável, como era encantador  enveredar pelas velhas estradas, muitas vezes erguendo nuvens de poeira ao sopro manso de qualquer brisa; outras, enlameadas pelas chuvas; hoje dando passagem ao chiante carro de bois, a transportar grossas toras de jequitibá ou peroba para a serraria dos Negri onde virariam  tabuas para as residências em construção, ou então, oferecendo o espetáculo de uma carroça puxada por várias bestas fogosas,   ofegantes com a carga pesada de produtos agrícolas, rumo aos paióis ou tulhas acolhedores. Quantas vezes os caminhos rurais serviam de passagem de tropas de muares ou manadas de rezes, o que para a curiosidade dos meus olhos infantis ou adolescentes  se constituía num belo espetáculo!
                        Todavia,  não só disso vivia a paisagem  campestre de então. Em geral, as estradas eram enfeitadas em suas margens por trechos maravilhosos de mataria virgem, ou surgiam, como um milagre verde, árvores imponentes, orgulhosas de haverem fugido da sanha dos machados, palco indefectivelmente procurado por pássaros de porte ou avesitas canoras, como sólio de seu descanso ou local ideal para exibirem  as suas melodias matinais ou vesperais. E o passante, como sempre o fazia eu, fosse ao despertar da manhã ou ao entardecer luminoso do dia, não deixava de aplicar seus ouvidos às manifestações das aves, feitas um hino de vida e alegria, ora em conjunto, ora em solo teatral e cuja sonoridade tinha o poder mágico de atrair e encantar o meu passeio.
                        Ouvir um sabiá desfiando suas melodias para saudar o sol nascente ou se entristecer com o ocaso do sol morrente , não é coisa para qualquer um. É preciso amar a roça, é preciso amar-lhe todas as manifestações, é preciso ouvir com ouvidos de carinho e atenção, aquele desdobrar de notas vindas de um pássaro, pequenino às vezes como um pintassilgo, maior, outras, como o sabiá de que vos falo. Seja daquele, seja deste, é sempre um hino que vai ao ar, que toma conta do espaço, que leva sonoridades enigmáticas e ao mesmo tempo felizes aos ouvidos de quem resolveu colocar-se como ouvinte da ópera matinal da roça. 
                        A ciência ornitológica ensina que, ao iniciar o seu canto, o uirapuru, ou o seu bailado, os tangarás nacionais, têm o poder de fazer calar todas as outras aves, para que todas e tudo fiquem embevecidos  daquela sublimada festa de sons  e ouçam com amor e atenção o hino daquelas gargantinhas de ouro e felicidade que estão a se exibir com maestria e perfeição divinais.
                        Ouvindo, quer ao raiar do dia, quer ao apagar dos estertores saudosos da tarde,  o hino do sabiá ou do pintassilgo à beira da estrada, confesso, como que esquecia de tudo e de todos e  a vida nada mais seria do que aquela voz alada a dobrar notas e mais notas musicais, de que aquilo não iria além de uma demonstração, em ponto pequenino do que existe no céu, reservado apenas para ouvidos terrenos que tivessem tímpanos sensíveis e arejados para ouvir o hino preparado por um sabiá ou por  um pintassilgo, rústicos e diminutos  Beethovens ou Mozarts   colocados no universo pelo seu Criador, para nosso lazer, nosso encanto, nossa felicidade.
                        Eu sei que muitos dos caríssimos leitores não tiveram e nunca terão quiçá  essa oportunidade de se extasiar, como inúmeras vezes o fiz, diante de um pássaro madrugador ou entristecido pela fuga da luz do dia, que resolve postar-se à beira de um caminho, no topo de uma árvore,   e aí desfiar, para quem passa ou simplesmente para a natureza circundante,  o milagre de seu canto, o hino que aprendeu quando ainda, homens e aves moravam no Éden. Só pode ser de lá que nos veio, por obra e arte santas coisa tão bela, coisa tão divina.

            Muitas vezes o homem fica esperando milagres. Não é preciso, não. O milagre ou os  milagres estão dando sopa por aí, de modo especial no campo, onde soem acontecer por obra, arte e graça da natureza, como a ária milagrosa  brotada da gargantinha de um pássaro canoro, como a maravilha dos ninhos criadores, como o vôo no infinito anilado  dos corvos altívolos, como o solene canto de um sabiá que tem o prazer e a alegria de vir à beira dos caminhos campestres desfiar notas e mais notas, talvez horas seguidas, para gáudio do homem e de todos os viventes que tenham tímpanos felizes para ouvir o hino de graças a Deus, timbrado pelo pássaro símbolo brasileiro.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A ARVORE, AMIGA OU NÃO?


Lino Vitti – Príncipe dos Poetas Piracicabanos

         Ao proferir o “fiat arbor” (faça-se a árvore),    Deus – o Criador -  sorriu ante a obra prima que tinha diante dos olhos divinos, sabendo decerto que o Homem além de gostar haveria de admirar, respeitar, louvar e enaltecer essa “criatura”, dadas as belezas de seu  porte, de suas cores, de sua estatura,  servindo  para inúmeras utilidades humanas, como podemos observar através de todos os tempos e de toda a literatura e arte que envolve essa criação . Que imensidade de espécie, que maravilha de forma, que encanto de flores, que grandeza de serviços resultariam de uma árvore, dando ainda, para gáudio humano, um aspecto especial à paisagem, quer unida em floresta, quer isolada, quer em grupo, quer à chuva, quer ao sol!
            Toda  a poesia, todo o encanto, toda a maravilha arbórea se desfaz entretanto  quando o homem resolve, de machado ou serra em punho, utilizar-se da obra divina   para alguma de suas necessidades de vida, pois nada mais triste do que ver-se uma árvore abatida, ao longo do chão, decepada dos galhos, das folhas , das flores, e muitas vezes até dos frutos.
            Afora a arma assassina do homem, outra personagem existe que soe vergastá-la. É a ventania, é  o tufão. Vinda dos confins do horizonte, a tempestade costuma enxovalhar a natureza e assim levar de roldão com sua força assassina, a beleza da árvore, seja no campo, seja na urbe. E nessa desgraça natural dos elementos, a árvore tomba e leva consigo também, e por, e para  infelicidade das coisas criadas, aquilo que serve ao homem ou ao próprio homem.
            Com o decorrer dos tempos a árvore foi muito maltratada, as florestas devastadas, e muitas espécies dela foram plantadas em lugar inadequado, como uma rua citadina, ao lado das moradias, das indústrias, das escolas, dos arranhacéus, e quando o seu inimigo tufão resolve brigar e colocá-las ao solo, infelizmente não se lhes dá oportunidade para escolher,  e assim tombam sobre residências, sobre pessoas, sobre veículos, sobre sistema de energia elétrica ou telefonia, causando estragos e a morte.
            Quando se descobriu o Brasil, os assustados navegantes portugueses viram de olhos curiosos a imensidão verde que cobria as terras descobertas, como um milagre a dominar toda a extensão a que lhe era lícito ver. A Serra do Mar subia, subia, quase tocava o sol que, do infinito, espiava aquela invasão insólita, como que adivinhando o desastre futuro dos machados e serras que, ao manejo do braço humano, acabaram por eliminar, tal e qual faz a navalha na barba um rosto, toda aquela vastidão verde, bela, poética, altiva e maravilhosa.

            E de amiga que era, a árvore se torna inimiga e toda a sua beleza tomba também com a desgraça que provoca...E o homem protesta, reclama, condena, blasfema... Em vão!

terça-feira, 25 de junho de 2013

Caminhando, caminhando


Lino Vitti 


                   É a vida. É o favor eterno  que Deus nos concede, a cada dia, uma graça infinita, lpara que com a vida O amemos mais e mais, e nos empenhemos em ganhar a  felicidade celestial para sempre.
                   Caminhar firmemente,  em busca do cumprimento do porquê estamos neste mundo, para que dormimos e acordamos a cada vir do sol, porque vivemos afanados, e muitas vezes sofredores, teimando na busca da rota desenhada por Ele a cada um, ou nos desviando ao bafejo atraente do Mal, que o horrendo inimigo sóe espalhar no seio da humanidade em sua tarefa  infernal de arrastar as almas para o pecado, o crime, a riqueza  condenável, para um dia descambar até as chamas onde mora o Anjo Decaído  e infeliz?
                   Só há dois caminhos para uma única eternidade: o suave, florido, generoso, amoroso, que nos conduz ao Céu: o pecaminoso, o  diabólico, o horrendo que leva fatalmente ao Inferno, onde se irá viver a eternidade envolto em chamas e desesperanças, sem jamais ter a refrescante visão de Deus Pai.
                   Ah! Como é fácil pecar! Motivos para isso estão espalhados por aí, em qualquer canto do mundo,ao sol ou nas trevas, e a simples vontade do homem ou mulher consegue envolver-se nele em qualquer tempo ou lugar.
                   Poderá alguém alegar que não sabe o que seja pecar. A verdade porém é que há muita má vontade de parte dos pecadores de conhecer o quê, como, onde pecar, pois há a Igreja e seus sacerdotes e até o próprio próximo, aptos a ensinar onde está o pecado, de modo especial, os mandamentos divinos e os ensinamentos daqueles que representam o Senhor e inspirados por Ele  com a luz de Sua Graça. Temos ainda a sentinela humana da Consciência que acusa e mostra onde e como acha o Inimigo condições de fazer o ser humano pecar, ofender ao seu próprio Criador, sua Igreja, seus Irmãos de  vida, e alerta para as ocasiões de pecado e  perdição.
                   Há uma verdade inconteste: a humanidade pende mais para uma existência  pecaminosa do que para uma consciência pura, instruída, sábia, conhecedora do Mal e dos  caminhos da perdição da  alma. E são fatos indicadores dessa fuga dos mandamentos, sacramentos, ensinamentos, a que nos levam os  chamados do infernal inimigo.
                   Ah! como é difícil não pecar, de ouvir a voz de Deus, de ter vontade de viver íntegro, consciente, piedoso! Basta deitar um singelo olhar interior para a humanidade vivente, onde, no mínimo,  se nota um real fuga aos ensinamentos da Igreja, feitos através de seus autorizados e consagrados sacerdotes, em feliz conluio com os irmãos da Fé, batizados uns e outros pela Igreja e ensinados por aqueles que a representam!

                   O mundo está repleto de mostras de Deus e de seus ensinamentos. Só a má vontade poderá negar-se a ver, ouvir e compreender a Igreja e seus ministros, únicos e reais consagrados para transmitirem, através dos tempos a Fé, o conteúdo dos ensinamentos e caminhos morais e sacramentais para se chegar à prometida Eternidade Feliz ou ver efetivamente aqueles outros que levam ao Fogo Eterno…

PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA

CURRICULUM VITAE
( Síntese de Vida)
NOME – Lino Vitti
IDADE – 08/02/1920
ESTADO CIVIL – Casado, em únicas núpcias, há 56 anos, com a Professora Dorayrthes Silber Schmidt Vitti
FILIAÇÃO – José e Angelina Vitti
NATURALIDADE – Piracicaba, Estado de São Paulo –Brasil
Bairro Santana , Distrito de Vila Rezende
VIDA FAMILIAR
Casamento Civil e Religioso em comunhão de bens, Pai de sete filhos: Ângela Antónia, Dorinha Miriam, Rosa Maria, Fabíola , Lina, Rita de Cássia, Eustáquio.
VIDA PROFISSIONAL
Aposentado como Diretor Administrativo da Câmara de Vereadores de Piracicaba, e como Redator do “Jornal de Piracicaba”. Exerceu atividades no comércio, no Magistério, na lavoura até os l3 anos, na municipalidade local, como bibliotecário, lançador de impostos, protocolista, Secretário Municipal.

VIDA CULTURAL
ESCOLA PRIMÁRIA –
Grupo Escolar “Dr. Samuel de Castro Neves”, Santana, seminarista vocacional ao sacerdócio por seis anos, no Colégio Santa Cruz, da cidade de Rio Claro (SP), onde cursou humanidades, línguas, religião, ciências, matemáticas, música.
CURSOS –
Formou-se Técnico em Contabilidade, lecionou latim, francês, datilografia.

VIDA RELIGIOSA
Católico, Apostólico, Romano, fez curso de religião em seminário dos Padres Estigmatinos, foi organista da Catedral e da Igreja de São Benedito, de Piracicaba, e Congregado Mariano.
VIDA LITERÁRIA
Bafejado por ensinamentos de sábios sacerdotes em colégio de formação religiosa, recebeu extraordinário acervo literário que lhe propiciou enveredar pelo caminho da poesia, da crônica, dos contos, do jornalismo, havendo editado de l959 a 200l sete livros de poesias e contos, com edições em milheiros de volumes, os quais estão aí para satisfazer o gosto daqueles que apreciam a arte literária.
São seus livros : “Abre-te, Sésamo”, l959; “Alma Desnuda”, l988; “A Piracicaba, Minha Terra”, l99l; “Sinfonia Poética”, de parceria com o poeta Frei Timóteo de Porangaba; “Plantando Contos, Colhendo Rimas”, l992; “Sonetos Mais Amados”, l996 e “Antes que as Estrelas brilhem”, 200l. O poeta conta ainda com o prazer de haver composto hinos para diversos municípios, bairros rurais, entidades sociais diversas, continuando a colaborar ainda, após os 83 anos em colunas literárias e com artigos de ordem geral em jornais da terra.
Faz parte da Academia Piracicabana de Letras que lhe outorgou o título honorífico de “PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA’.
Foi-lhe concedida Pelo Município de Piracicaba, através de sua Secretaria da Ação Cultural, a MEDALHA DE MÉRITO CULTURAL, “ Prof. OLÊNIO DE ARRUDA VEIGA’; é detentor do TROFÉU IMPRENSA, concedido pelo Lions Clube de Piracicaba, centro, e da MEDALHA ITALIANA, concedida pelo governo italiano de Benito Mussolini aos alunos de escolas e seminários de origem daquele país que tivessem se destacado em redação de trabalhos literários escritos na língua de Dante.
O Município de Saltinho, para o qual contribuiu com o Hino dessa comunidade municipal , conferiu-lhe o título de “Cidadão Saltinhense”.

DISCURSO

Por ocasião do lançamento do livro de poesias “Antes que as estrelas brilhem “, pelo poeta Lino Vitti foi proferido o seguinte discursos:

Exmo. Sr. Heitor Gauadenci Jr. dd Secretário da Ação Cultural

Exmo. sr. António Osvaldo Storel. dd. Presidente da Câmara de

Vereadores de Piracicaba

Exmo.sr. Moacyr Camponez do Brasil Sobrinho, dd. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico

Exmo,. sr. Henrique Cocenza, dd. Presidente da Academia Piracicabana de Letras

Exmo.. Sr. Ésio Pezzato , anfitrião desta solenidade

Senhoras e Senhores

Pela sétima vez (graças a Deus) em minha vida lítero-poética vejo-me guindado a uma tribuna improvisada (o que é bom porque torna o fato mais popular), para proferir um discurso de agradecimento, ao lado da oferta de um novo livro de versos. É teimosia essa de poetas em desovar sua produção para que mais gente participe de suas tiradas, muitas vezes fora de forma e de ambiente, mas que o poeta não vê porque , ao editar um novo livro está cego pela emoção , como se fosse a vez primeira. Está aí o Ésio Pezzato, responsável por mais esta minha invasão no mundo das letras poéticas, para dizer se não é assim. Para dizer se não sofre também dessa doença feliz de editar livros e mais livros a ponto de perder a conta, já que a esta altura ele não sabe se já está no décimo ou décimo primeiro. E ainda continua batendo dedos de métrica, sabemos lá por quantos anos ainda !

Tenho um ex-colega de seminário, prof. Hildebrando André, aposentado como professor universitário e com o qual mantenho longa e pródiga correspondência, que não se cansa de enaltecer a felicidade de Piracicaba contar com tantos poetas e poetisas. Tem razão ele, pois se apenas dois deles já conseguiram editar l8 livros de poesia, imagine-se as centenas que seriam necessárias para dar um pouco de vazão a essa raridade intelectual que toma conta da minha terra!

Este meu livro vem à lume por obra e arte do prefeito José Machado , seu Secretário da Ação Cultural e de seu zeloso servidor Ésio Pezzato que se entusiasmaram diante da recitação de diversos poemas meus por um grupo de jograis, alunos da UNIMEP, e impressionados decidiram patrocinar a publicação deste livro, pois entenderam que Piracicaba poética merecia conhecer em mais profundidade o seu príncipe da poesia. E aí está, lindo e impecável, entregue às mãos do povo de Piracicaba, que indistintamente de cor, estudos, intelectualização , posses financeiras, categoria de trabalho, com religião ou agnóstico, jovem ou adulto, roceiro ou citadino, aí está, para quiçá, momentos de lazer e sonho. Sonho , sim, porque a poesia é terrivelmente sonhativa , vive no mundo da fantasia, alicerça-se nas bases da emoção e brota do âmago mais profundo do poeta, e para que as filhas de Eva não reclamem, da poetisa também.

Alguém me perguntará? Como é ser poeta? Juro, nunca pensei nisso. Acho que ninguém consegue ser poeta. Já é. Nasce feito, como dizem.

não é verdade Maria Cecilia, Ivana Maria, Ésio Pezzato , Prata Gregolim, Marina Rolim, Valter Vitti, Mario Pires, Saconi, e tutti quanti enfeitam com seus lindos versos as páginas do “ Jornal de Piracicaba, ou da “Tribuna Piracicabana , e assim também esse cacho imenso de livros poéticos que quase semanalmente são dados ao conhecimento e sentimento público de nossa terra ? Tornando-se um privilégio de uma cidade, como disse alhures o supra citado meu colega seminarístico Hildebrando André. ?

Não se suponha que para ser poeta é preciso ter nascido em berço de ouro ou em centros intelectuais de enorme repercussão. Nada disso. Tenho um soneto que define bem esse fato. É assim: “Eu não sou o poeta dos salões / de ondeante, basta e negra cabeleira] não me hás de ver nos olhos alusões / de vigílias, de dor e de canseiras. // Não trago o pensamento em convulsões,/ de candentes imagens, a fogueira. / não sou o gênio que talvez supões/ e não levo acadêmica bandeira.// Distribuo os meus versos em moedas/ que pouco a pouco na tua alma hospedas / - raros , como as esmolas de quem passa. / Mas hei de me sentir feliz um dia/ quando vier alguém render-me graça/ por o fazer ricaço de poesia. // “ . Poetas e poetisas saem do nada , devem trazer o selo ou o bilhete de entrada nesse reino encantado desde o útero materno, embora ouse eu afirmar que a vida é também uma grande mestra , as influências da mentalidade circunvizinha,

o próprio meio ambiente, podem , em circunstâncias outras , plasmar um poeta .

Eu fui plasmado , por exemplo, por entre maravilhas campestres. A roça ou o campo são fantásticos criadores de poesia. Ela anda atapetando por todos os cantos a natureza, as gentes, os animais, os atos e fatos. e a cabeça daqueles com quem ela convive. E o poeta, criador por excelência, se abebera de todas as belezas esparsas pelas colinas, serras, vales e descampados , para transformar tudo em versos e rimas, ou em versos simplesmente, onde pululam , como cabritos silvestres, as figuras literárias, os tropos, as sínteses, as comparações, e todos os anseios que lhe vão no imo da alma. Para satisfação própria e para satisfação dos que convivem com o poeta. E´ por isso que se botardes olhos curiosos sobre meus poemas havereis de tropeçar a todo o momento com um motivo roceiro, pois trago uma alma plasmada pelas belezas rurais de Santana, Santa Olímpia , Fazenda Negri, e especialmente por aquela colina encimada ,no cocuruto, pelo prédio do grupo escolar, onde aprendi a ler e escrever e a poetar.

Peço desculpas por haver-me prolongado um pouco nestas elucubrações poéticas, desobedecendo aos conselhos do amigo Ésio que continua exigindo de mim discursos improvisados, o que seria tão para os ouvintes , que ansiosamente aguardam o momento de bater palmas acabando assim com a verborragia oratória.

Não posso entretanto encerrar esta breve alocução sem deixar consignados meus agradecimentos do fundo do coração ao prefeito José Machado ,ao seu Secretário da Ação Cultural Heitor Gaudenci Junior, ao seu sub-secretário poeta Ésio Pezzato, ao prefaciador Moacyr de Oliveira Camponez do Brasil sobrinho, aos queridos opinadores Maria Cecília Bonachella, Maria Ivana França de Negri, exímias poetisas, prof. Elias Salum e a minha filha Universitária Fabíola Vitti Moro, pela maravilhosa capa, Editores e toda equipe de funcionários , à minha esposa pela sugestão transmitida ao prefeito com relação ao advento desta obra, aos digitadores Nair , minha nora e neto Leonardo, e outros que possa ter esquecido, como é fácil em cachola idosa, - meus agradecimentos repito, pela reunião de esforços e trabalho que tornaram possível o advento de mais um livro de minha lavra.

Obrigado “ em geralmente” como dizem nossos cururueiros, aos que ilustraram com sua arte musical esta solenidade e assim também a todos quantos acharam um tempinho para vir prestigiar-me nesta tarefa de cultura e arte. Levem a certeza de que nada mais desejo do que engrandecer com minha poesia a terra que me viu nascer, a terra que me viu crescer, a terra que me proporcionou oportunidade para chegar a um cargo tão nobre quão dignificante de “Príncipe dos Poetas de Piracicaba”

Meu carinhoso obrigado também aos meios de comunicação, de modo especial “Jornal de Piracicaba”, na pessoa de seu Editor Chefe Joacyr Cury , de “A Tribuna Piracicabana”, na de seu diretor Evaldo Vicente, pela divulgação caprichosa deste evento que afinal nada mais é do que mais uma demonstração da exuberância cultural da Noiva da Colina.

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