
Lino Vitti
Com permissão dos laboriosos paginadores jornalísticos que nos oferecem, a cada edição, uma diagramação e paginação perfeitas deste semanário, vou iniciar hoje mais uma das minhas croniquetas com o soneto com que, em geral, as encerro. Trata-se mesmo de um trabalho diletante, e penso que os caríssimos leitores de Folha Cidade, o leiam como isso mesmo, pois falta-lhe a profundidade, o ideologismo, a filosofia, a arte redacional que vejo nos artigos de peso dos demais colaboradores e amigos de páginas . Vamos porém ao soneto (poesia com 14 versos (linhas) e quatro estrofes, duas de quatro linhas duas de três) cujo assunto é uma homenagem a esses homens que lidam lutam, lavram, amam a terra, dela extraindo, com suor e canseiras, essa coisa tão necessária à vida que são os alimentos. Para que ninguém me trate de mentiroso (pois prometi o poema para o início e já estou além disso), leiam o que disse eu, certa feita, sobre esses que amanham a terra, para sustento da humanidade.
O LAVRADOR
Mal o dia pintor, caprichoso pincela
Com frisos de ouro em pó as barras do levante,
E –músico –vai pondo em cada alada goela
Um guiso de metal, tinindo tilintante.
Já sai o lavrador para a lavoura; bela
Se lhe desdobra aos pés a messe lourejante.
Entretanto está triste e chora diante dela
E atira a enxada amiga ao chão, febricitante.
O sol que agora surge é uma bênção divina,
Mas que vale a colheita (ele pensa) se o sangue
Lhe suga brutalmente e as carnes lhe assassina?!
E contemplando as mãos agrestes e calosas,
A enxada posta ao lado, o lavrador exangue
Cai de joelhos ao chão, em lágrimas copiosas.
Tenho certeza que muitos do que lerem estas linhas poéticas dirão que o vate bisonho exagera. Que não é bem assim. O lavrador, afirmam é um senhor abençoado por Deus, pela natureza, pelos semelhantes, especialmente por aqueles que ao almoço ou ao jantar saboreiam à mesa o arroz, o feijão, a soja, as verduras, as frutas, vindas lá do campo, onde florescem sempre e para todos os séculos, um arado laborioso, uma enxada felizarda, um trator rumorejante, um burro arquejante, uma carroça barulhenta. E acrescentam que o trabalho roceiro é realmente estafante, suarento, doloroso, mas compensador porque sustenta a humanidade de qualquer parte do mundo. Já calcularam os amigos citadinos se não houvesse um lavrador que vai adiante deles, semeando, tratando, colhendo, distribuindo o que de mais necessário precisamos todos que é comer,encher o estômago, tirar dos alimentos a saúde e a vida?!
Entre os 8 e 12 anos, antes de partir para o seminário religioso, eu fui lavrador. Levantava antes do sol nascer, tomava o leite das vacas caipiras, acompanhado de polenta torrada na chapa fervente, munia-me de uma enxada, de uma foice, de um restelo ou de um lençol rústico ( para apanhar café) e outros amáveis instrumentos que ajudam o lavrador antes, durante e depois da colheita, e lá seguia para aquilo que antigamente se dizia o eito dos escravos, cuidar do arrozal, do cafezal, do milharal , do algodoal, de tantos trabalhos roceiros que só o homem da roça mesmo sabe o que são e o quanto custam.
A alegria do lavrador não é muita. Satisfaz-lhe apenas que o céu mande a chuva indispensável, sem os terrores das tempestades, sente-se feliz quando abre as janelas pela manhã e vê as plantações balouçarem aos beijos do sol e aos afagos das brisas, reluzindo promessas generosas de produção, alegrando-lhe a alma, o coração e fazendo-o se esquecer de todo o trabalho, agruras, dúvidas, temores que acompanham sempre aqueles homens dedicados a oferecer aquilo de que tanto a humanidade necessita para viver e sobreviver.
O lavrador é um crente dos mais sinceros, nunca encontrei um ateu, e sempre notei que ele cumpre as devoções religiosas com mais empenho e fervor do que muitos de nós que nos arvoramos em cristãos, na crença e na prática, Ele crê sincera e profundamente, reza, cumpre os preceitos e mandamentos e sempre dá um jeito de agradecer a Deus por olhar carinhosamente o seu trabalho e a sua produção, É um homem tranquilo, conformado, amoroso, pai extremoso, marido exemplar.
Se você, leitor sábio que é, encontrar alguém de enxada ou foice ao ombro, tira o chapéu, estende-lhe a mão, diga-lhe: você é grande, amigo, pois é você que faz a grandeza da nação.
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