
Lino Vitti
Numa série de crônicas escritas, relativas à infância saudosa, falei em fronteira. Fronteira e uma linha divisória, mais imaginária do que real, dividindo os países, os estados, os municípios, até as propriedades particulares. Fala-se muito em fronteiras quando as nações vivem em guerra, brigam por causa da posse de alguns metros quadrados de solo, sendo capazes os homens de manter aceso o incêndio da guerra por anos e anos seguidos, tudo, porque foram, ilegalmente ou não, pisadas as linhas da fronteira por algum dos donos do lado de cá ou do lado de lá.
A História anda cheia de exemplos em que se degladiaram nações e continentes, em guerras terríveis e prolongadas pelo simples gesto de se haver posto o pé, ás vezes inadvertidamente, no terreno do vizinho. Quem compulsar os tomos enciclopédicos encontrará conflitos imemoriais, sangrentos, duradouros e insolúveis por causa das fronteiras que, eu, pobre e desengonçado escrevinhador dos cafundós piracicabanos (cafundós em relação à literatura nacional que nem sabe existirem escritores e poetas, talvez bons, mas ignorados porque não tiveram a felicidade de nascer nalguma capital), eu, repito, achei de bom alvitre usar para título de uma crônica anterior que prometera se espichar, mas não teve seqüência na verdade.
A passagem da fronteira infância-adolescência não é belicosa como são as das nações, ou em ponto menor, de proprietários de terras. Passa-se de uma quadra humana à outra quase imperceptivelmente, diria até mansamente, apesar de muitas vezes a ultrapassagem acumular preocupações, dúvidas, necessidades de auxílios psicológicos e de ensinamentos biológicos pois se trata de uma estranha fronteira em que estão em jogo o corpo e a alma de um ser humano em vias de atingir uma nova etapa da vida, um novo direcionamento dos passos, quiçá socorros morais e psíquicos, para que o rumo não se desvie, a transposição da fronteira infância-adolescência se faça com perfeição, com a necessária perfeição de uma continuidade desejada, conhecida e feliz.
Pode dar-se que passar a fronteira da infância para adentrar no reino da adolescência, não seja cruento, guerreiro, turbilhonante como o são as praticadas pelo homem quando disputa fronteiras físicas e históricas de nações e governos, entretanto, a diversidade da personalidade humana poderá ser um fator desagradável nessa importante passagem da vida, pois nem sempre estão ausentes as lutas morais, as lutas intelectuais, as lutas do amor, as lutas da transformação de um corpo inocente e colorido de alegrias e brincadeiras para um ser repleto de desejos, aspirações, de mudanças físicas e bio-químicas por que passa a idade. Não é difícil então estabelecerem-se divergências psíquicas e corpóreas o que poderia gerar conflitos íntimos, que não se expandem à luz do sol, que temem sair do segredo, estabelecendo-se assim aquela guerrinha surda entre o bem e o mal, entre o permitido ou não permitido, entre o real e o fantasioso.
Quem entra na adolescência, em geral o faz sem plena consciência dessa mudança, havendo momentos em que se julga estar naquela, enquanto se age como se nesta – a infância – ainda estivesse, ou vice-versa, pratica-se a infância quando tudo já mostra que se penetrou definitivamente na etapa seguinte da vida. E sem orientação, e sem ensinamentos, o transpassar da fronteira infanto-juvenil será mais penosa, mais atacada de dúvidas, mais plena de dificuldades, até poderá ser mais infeliz.
A paisagem que se abre aos olhos do adolescente nem sempre tem a tranquilidade de um sol majestoso a iluminá-la. Nuvens tempestuosas toldam também o céu da adolescência, conflitando a alma inexperiente e enredada de dúvidas psíquicas e físicas que costumam envolver o espírito em fase de transição.
A adolescência, todavia tem suas compensações, suas alegrias, suas esperanças, fatores que deverão servir para o mocinho ou a mocinha como apoio para adentrá-la com galhardia e alegres expectativas.
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