
Lino Vitti
Digo “velha” porque ela não mais existe. É uma referência apenas para que o leitor saiba de antemão que não vamos falar da Praça Nova, aquela que roubou o lugar da outra, mas não lhe roubou a beleza, a imponência, a figura expressiva de um jardim lindo e valioso, trazendo todas essas coisas para o presente, para as gerações que vêem uma praça reduzida à sua expressão mais simples, sem nada que faça recordar aquilo que, no tempo e por obra do homem, desapareceu.
Eu conheci, usufruí, amei e trago, inteiro, na recordação aquele pedaço central de Piracicaba, que oficialmente era Praça José Bonifácio, mas todo mundo dizia o Jardim, pois era isso mesmo que havia lá para o povo ver, para o povo desfrutar,para o povo usar à vontade, cruzar pelos extremos, pois lhe haviam dado ruelas carinhosas que adentravam de um lado ou de suas extremidades e conduziam os passos para ver o âmago florido, o laguinho com seu repuxozinho incansável, os bancos felizes por acolherem idosos , crianças, casais e solitários cidadãos, com a ternura de um colo, para ver peixinhos vermelhos, rosas imensas de variadas cores, copas altaneiras por onde a brisa passava tocando seu violino, palmeiras imperiais furando o azul do infinito, namoros sem fim coroados de amor e felicidade, invejada por quantos passavam, e especialmente, por uma felicidade surpreendente de ouvir sinfonias saudosas, marchas, polcas, hinos, modinhas, enviados aos ouvidos de todos por uma banda, dona inconteste de um coreto colaborador de todo aquele passear, olhar, divertir, namorar, conversar, brincar, ouvir.
Sobretudo, o jardim velho da Praça José Bonifácio se transformara em confidente de casamentos . Ele reservava as suas laterais externas, confundidas com o passeio das calçadas, como conselheiro do amor. As moças casadoiras, como um rio movediço de rostos, olhares, pernas,braços, vestes, em passo lento, caminhavam em direção contrária à dos moços sequiosos de encontrar a futura mulher de seus sonhos. E nesse trafegar, a maior tarefa cabia ao olhar especulativo rumo a outros olhares que vinham em direção oposta e sempre dava certo , nesse cruzamento de gratas intenções, chocar-se o amor de uma para outro. Estabelecia-se assim o início desse elo, ou melhor desse novelo do amor, que em geral acabava ao pé do altar , sob a bênção do “conjugo vobis” do vigário. Ah! bendito quadrar de jardim! A quantos casais deste a felicidade! A quantos casais veio o amor verdadeiro por culpa daquele andar,andar, inversamente, horas seguidas, noites imemoriais!
Hoje, parece, tudo morreu. Inclusive a felicidade e o amor, a ternura, a visão das frondes balouçantes, as sinfonias do coreto, o “quadrar” namorador, as crianças a brincar, os velhos a bater papo, homens a travar negócios, palmeiras a perfurar o azul, frondes a ciciar violinos, caminho certo dos olhares inquirindo corações! Hoje, os veículos assustadores cruzam as vielas com seus pneus chiantes e suas buzinas pavorosas. O amor abandonou os canteiros de flores e as frondes do arvoredo. O que se adivinha naquela praça que ali está é apenas uma visão de saudade de algo muito bom que ficou para trás, derretido pelo tempo, pelo progresso e pela insensibilidade humana.
Impressiona-me a perturbadora mania de hoje com relação a tudo quanto foi passado, em qualquer campo de atividade. Procura-se soterrá-lo, esquecê-lo, apagá-lo, como se nele não se escondessem valores culturais, sociais, humanos, religiosos, passíveis de serem mostrados o conservados, como modelares e aproveitáveis pelo presente ou pelo futuro.
Quando sabemos que o construído pelo homem no passado, o inventado pelo homem ontem, o delineado nos tempos idos, são alicerces sobre que repousa o a ser construído, o a ser inventado, o a ser delineados, reservados pelo amanhã.
Perguntem a um idoso ou a uma idosa, a alguém que teve a felicidade de ver e aproveitar-se do “Jardim do Centro”, onde encontrou aquela ou aquele que lhe trouxe a felicidade na argola de uma aliança. E tereis certeza de que foi lá, naquele “quadrar”, à escassa iluminação e sob as frondes do basto arvoredo do”Jardim”, no cruzar de um olhar muito significativo que o bom e o belo da vida apareceram, ao som da charanga do coreto e ao sorrir,bem no alto, das palmeiras imperiais.
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