
Lino Vitti
Não me seria poeticamente lícito escrever sobre aranha e suas teias, sem primeiro falar dos tempos de infância, quando essa maravilha da natureza enfeitava surpreendentemente os pagos de então. Os olhares curiosos de qualquer menino roceiro (e acredito que também citadino) não podem deixar de ver os aranhóis, ver e contemplar, e observar, e admirar...e até temer, porque a construtora dessa obra de seda - dona aranha – é bicho altamente assustador entre a meninada e mesmo entre adultos.
A artista que se compraz estender, geralmente à noite, a sua teia é a melhor bordadeira de todos os tempos. A melhor, a mais rápida, a mais estética. Nunca se viu na natureza, afora num ninho de beija-flor, tanta arte e tanta graça. Uma aranha é a melhor geômetra do mundo pois o seu trabalho prima pela meticulosidade das medidas e do desenho. Toda arte da fabricação aracnídea transborda ao nascer do sol, quando o astro-rei se compraz em enviezar feixes de luminosidades pelos vãos da folhagem que vão pousar sobre a obra artística tricoteada durante a escuridão da noite ou ao plenilúnio, pelo caprichoso inseto. Aquela luz vinda do horizonte, bate de chapa sobre a filigranada teia, e as gotículas de orvalho sobre os fios tensos, luzem, luzem como se a natureza toda estivesse enfeitada com milhares de estranhos colares rutilantes. E no centro da beleza do dia que acorda, dona aranha, simulada de quem está dormindo, na verdade espreita. Espreita a primeira incauta borboleta, abelha, ou inseto voador que tiverem a ousadia de querer beijar aquela mortal maravilha, levados pelo brilho convidativo do crochê primoroso.
Como há aranhas dos mais variados tamanhos, as suas teias como que obedecem a esse pormenor da vida. Assim elas se apresentam ora distendidas, do tamanho do engodo e da traição, ora nem dilatadas nem pequeninas, segundo a dimensão de suas autoras e donas, ora minúsculas, quase impossíveis de se ver, mas sempre armas pegajosas e colocadas de molde a manter a sua estrutura de caçadoras, pois é esta a precípua finalidade dessa trama geométrica de fios sedosos, quase invisíveis, entretanto funcionais e perfeitos. As aranhas tecedeiras moram é mesmo naquela coisa linda, entretecida de fios luminosos e macios, mas colantes de uma tal maneira que a vítima visitante da dona daquela casa, nunca se sai bem e fica enovelada e morre sob o ferrão traidor, envolta num cobertor feito de brilhos e sedas.
A vida tem muitos aranhóis, Tem muitas tecedeiras de teias chamejantes, atraentes, como aquelas que rebrilham ao sol matinal nas frondes altas ou ervas rasteiras. São engodos, oferecem felicidade, sorriem como pareciam sorrir as teias de aranha da minha infância, enfeitadas por um pingo de traição que mora bem no centro da rede luminosa e balouçante atraindo com intenções mortíferas. O aranhol é a arma cintilante do talvez mais traiçoeiro inseto do universo. Uma aranha, em seu posto, está imóvel, mas enxerga, escuta, anota. E ao primeiro tremular dos fios investe, ataca, evolve, devora.
Dizei-me vós, poetas, poetisas e cronistas. Por que a felicidade, a voar de cá para lá, de repente em seu voejar sem termos, é envolvida pela trama de uma teia, cai, inocente e tola, no visgo traiçoeiro de um aranhol humano ?
Os pecados contra Deus, contra os semelhantes, contra a vida e contra a esperança, podem ser considerados terríveis aranhóis, pois é fácil neles se envolverem os homens, as mulheres, elementos de todas as raças e nações, jovens, infantes, sábios e broncos, crentes e descrentes. Eles são encontrados em qualquer caminho, em qualquer atalho, em qualquer espaço aberto, são brilhantes, atraentes, parecem distribuir felicidade, mas tudo isso é enganador. No centro e invisível se posta a aranha da condenação cuja vigilância constante cega o olhar que a contempla, envolve os passos do iludido ser humano que dela difícil ou nunca conseguirá se libertar, porque a teia é pegajosa, envolvente, traiçoeira.
Quantas vezes os nossos passos nos levam às teias luzentes do pecado! Quantas vezes os nossos olhares incautos são atraídos pela beleza geométrica e artística dessas numerosas teias espalhadas pelos caminhos da existência, em locais onde menos esperamos! Somos míseras moscas, míseros insetos, borboletas tontas, incapazes de fugir daquela espetacular atração que se esconde no encanto da linda arma engendrada pela arte malvada da aranha do mal! E somos apanhados, somos devorados inexoravelmente .
Quando criança, morador na roça, em casa rústica, ficava muitas vezes horas inteiras, ao entardecer, a contemplar donas aranhas (eram muitas) tecerem as suas teias perfeitas, mas enganadoras, num ângulo das portas, por onde transitavam insetos diversos. E então tudo funcionava perfeitamente, os pobres insetos eram envolvidos sumariamente e devorados pela gulodice aracnídea. Mas não imaginava nunca que um dia, decorridas décadas de anos, estaria aqui a escrever crônicas saudosas e nelas colocar como objeto as construtoras de instrumento tão perfeito e tão mortal, como é um aranhol.
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