Lino Vitti - Príncipe dos Poetas Piracicabanos

Lino Vitti - Príncipe dos Poetas Piracicabanos
Lino Vitti- Príncipe dos Poetas Piracicabanos

O Príncipe e sua esposa, professora Dorayrthes S. S. Vitti

Casamento

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Bodas de Prata

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Lino Vitti e seus pais

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Lino Vitti e seus vários livros

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Bisneta Alice

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BISNETA ALICE

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O Príncipe agradece a visita e os comentários

60 anos de Poesia


sábado, 31 de julho de 2010

POEMA À PIRACICABA

POEMA À PIRACICABA
Lino Vitti

A beleza das verdes colinas
enamora o audaz capitão.
A esperança dourada das minas
e os mistérios do rico sertão.
O rumor musical da cascata
a que o peixe teimava escalar,
o murmúrio das águas de prata,
todo um mundo de encantos sem par!
Terra roxa, divina promessa,
rio largo a buscar o Tietê.
Tudo corre, engrandece, tem pressa,
Povoador acredita e prevê.
Traça o chão onde um dia a cidade
será grande, quiçá capital,
surge no alto, à solar claridade,
a feliz Piracity eternal.
Ei-la em busca de um grande futuro,
muito amada por filhos geniais
que lhe ofertam o afeto mais puro
e acalentam-lhe os nobres ideais.
Ficou “noiva”, casou com o progresso,
da cultura fez sólido ideal.
Fez da agrícola ciência o sucesso
dessa ESALQ de fama mundial.
Pontilhada de escolas soberbas,
berço altivo de profissionais,
venceu lutas hostis mais acerbas,
fez dos sonhos os fatos reais.
Minha histórica Piracicaba,
dona excelsa de idílico véu,
meu amor, por você, não se acaba,
nem jamais serei cínico incréu.
Que seus filhos da urbe ou da roça
lhe dediquem o mais vivo amor.
Essa vida de amores remoça
no trabalho, realeza e fulgor.
Que o destino ofereça a grandeza
de fazê-la grandiosa e feliz.
Nossa vida a esse amor fique presa
a esse povo que a quer e bendiz.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um momento histórico!


UM MOMENTO HISTÓRICO!
Lino Vitti

Pára. Contempla o salto. Oh! Que deslumbramento!
Final feliz de um sonho, aliado a uma esperança.
Findava a viagem, sim. Que histórico momento!
Capitão Povoador! Piracicaba, criança!

Seu olhar percorreu as colinas. O vento
Sussurrou-lhe : “é aqui, Sem mais tardança,
Funda nova cidade; olha o céu que portento!
Olha o salto, olha tudo, que abastança!...”

Histórico momento. A Noiva da Colina,
Foi ao salto buscar seu véu tão lindo,
Beijou o Capitão como feliz menina.

Cresceu... Meus parabéns. Teu povo vai seguindo
Tudo quanto de bom Deus lhe destina...
Ela faz anos hoje, e , certo, está sorrindo...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Último Perfume

ÚLTIMO PERFUME
Lino Vitti

Eu, você, todos nós, seguindo a vida afora,
poderemos um dia, abatidos e quietos,
mesmo diante da luz generosa da aurora,
ter um destino igual aos míseros insetos.

Tais quais viver, também em monturos dejetos,
voejando ou rastejando entre o horror da pletora.
Ver um mundo morrer, sem flores e sem tetos,
sem o estrelado além que à noite se alcandora.

Um dia – lhes repito – há de a terra poenta
mostrar toda a aridez, sorver todo o calor
de um perpétuo verão que a dor e o mal sustenta.

Nada porém será se das sombras do Amor
em todos os jardins de cor viva e opulenta
puderes aspirar o último olor da flor.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Per àspera

(foto da enchente do Rio Piracicaba em 2010)

PER ÁSPERA...
Lino Vitti

Passou a enchente sobre a minha vida !
E, ao léu rodando da brutal enchente,
Fui ter a uma região bem diferente
Da que era por meu sonho apetecida.

Vales e montes, sucessivamente,
Remansos do paisagem colorida
Se perderam ao longo da corrida
Em desfeitas visões na triste mente.

E este lugar para onde a água me trouxe
Nada tem de beleza e de alegria,
Nada tem de encantado nem de doce.

Paira sobre ele densa névoa fria;
A luz dos horizontes apagou-se
E a solidão me abraça e me asfixia.

domingo, 25 de julho de 2010

Velho Livro


VELHO LIVRO
Lino Vitti

Quantas vezes, a sós, à luz de um candelabro,
-momento de silêncio, e saudades, e sonho –
alma de anacoreta, as páginas entreabro
do livro do passado e a relê-las me ponho!

Tantos dias tão bons! Um minuto macabro!
Muita felicidade a rever me disponho!
Empurro para trás um veloz descalabro,
transformo em alegria o que era então tristonho!

Como é bom recordar os momentos felizes,
esquecer de uma vez agruras e deslizes,
as páginas de dor que o volume me aponta!

E penso ser assim que todo mundo vive,
relendo como eu fiz, num momento qual tive,
a outra história feliz que a vida sempre conta.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

PRÍNCIPE TIROLÊS




Príncipe Tirolês


Ao Príncipe Poeta eu faço uma visita
Em agradecimento a tudo o que lhe devo.
Entre nós a amizade é especial e infinita,
Coberto de ouro em pós relevo após relevo.

Do Príncipe recolho uma ideia bonita
Mas imitar-lhe o dom no verso não me atrevo.
O seu olhar azul com ter nura me fita
E a ele meu coração se desfaz num enlevo.

Oh, Príncipe imortal! tua alma de Poeta
Rima sons e canç ões de harmonia secreta
E não sei de onde vem essa paz soberana.

Mas por certo ela vez da dupla de princesas
Em em ternuras lhe dão amor em correntezas
E são dois corações: Santa Olímpia e Santana!



Esio Antonio Pezzato

15.07.2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Escrevendo a Vida - Dia do Escritor - 25 de julho


ESCREVENDO A VIDA
Lino Vitti

Salve, salve os escritores,
Que nas letras põem a vida,
Com seus encantos e dores,
Tristonha, alegre e querida.

Aos sonhos dando guarida,
Cantando seus esplendores,
De forma bela e subida
Enaltecem os amores.


Todas as luzes e cores,
Vão buscar em nobre lida.
Para onde quer que tu fores
O escritor chama e convida.

Livros, livros : é a corrida
Cheia de imensos fulgores,
Que nos dão estremecida
Os amigos escritores.

Salve, salve, os escritores
Que nas letras põem a vida,
Com seus encantos ou dores,
Tristonha, alegre ou querida.



Dedicação Poética - À Maria Cecília Bonachella


DEDICAÇÃO POÉTICA (16/01/1999)
Lino Vitti

A Maria Cecília Bonachella
muito incapaz que sou qual rude onagro,
este breve soneto lhe consagro
pelo valor que em tudo ela revela.

Num estilo decerto pobre e magro
sem poder relatar o valor dela,
acanham-me estes versos e se esfarela
tudo quanto à poetisa canto e sagro.

Há porém na poesia que publica
uma safra de poetas, grande e rica,
sonhadores que a adoram como mestra.

E a página encantada da poesia
que nos oferta, com amor, Maria
é uma feliz e sonorosa orquestra.

****************************************

OBRIGADA, POETA LINO VITTI
Maria Cecília Machado Bonachella

Muitas vezes, nem sou compreendida,
se exijo dos poetas mais empenho,
Verdade é que estou sempre envaidecida
por revelar novos nomes. Se venho

num trabalho, razão da minha vida
- que a poesia é o bem maior que tenho –
nela despejo minha fé incontida:
amor que, ao exprimi-lo, me contenho.

Eu não me sinto, porém, como mestra
a reger, decidida, uma orquestra
e agradecer aplausos dos ouvintes.

Esta página do Jornal é rica
porque você também aqui publica
seus poemas tão cheios de requintes!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Velhos Amores


VELHOS AMORES
Lino Vitti

Amo a luz, amo o sol, amo o dia que esplende
Na aleluia global do azulado infinito;
O mundo que desperta ao acender ardente
Da manhã caprichosa e altiva como um grito.

Das aves o cantar generoso e bendito
Também tem meu amor, mais intenso e fremente.
Tudo vejo vibrar qual divino conflito,
A cada amanhecer de Deus, gratuitamente.

Um novo dia é a vida a dar continuidade
Aos sonhos, à esperança, ao encanto,à saudade,
Que a cada instante nasce, e vibra, e diviniza.

Mas o amor, como tudo, igualmente envelhece
Como tudo ele nasce, ele vive e fenece...
E se é tão belo o amor, por que não se eterniza?

domingo, 18 de julho de 2010

Dois Quadros


DOIS QUADROS
(à maneira de Castro Alves)
Lino Vitti


Pirilampejam vagalumes quentes
os martelos nervosos cravam os dentes
no ferro abrasador...
As faíscas são lágrimas acesas
que ele chora, calado, sem defesa
estorcendo-se em dor.

O ferreiro – homem rude do cenário
transforma-se em algoz, negro sicário
estranho satanás.
De cedo à tarde massacrando vítimas
de ferro, deve ter razões legítimas
só por gosto não o faz.

É mais! É sacerdote! Uma oficina
por templo. Seu trabalho por doutrina,
o pobre, por irmão.
Malho e bigorna por altar sagrado,
ruivo turíbulo de incenso ao lado
tudo numa oblação.

Mas não. Esse homem rude no trabalho
reza. O estridor dessa bigorna e malho
é uma bela oração,
que vai da terra ao céu, porque da terra
leve toda grandeza que se encerra
no humilde ganha-pão.

sábado, 17 de julho de 2010

Contrastes


CONTRASTES
Lino Vitti

Carregas no teu rosto o mais real retrato
do que na alma te vai e o coração detém.
Da profundez do olhar brota a luz do recato,
quando não, muita dor e lágrimas se vêem.

Hoje ouves: meu amor; depois, traidor e ingrato.
Ao lado, a solidão, a tortura, ninguém!
A quem a tua voz era um chilreio grato
agora é surda e má, é um poço de desdém..

Por que tudo há de ser assim feroz, chocante?
Por que imagens de um rosto estranhamente acenam
convites e repulsa em gestos contrastantes?

A face que sorri, os olhos que se alienam
ocultam muita vez algo desconcertante:
a língua que maldiz, os lábios que condenam

sexta-feira, 16 de julho de 2010

SONETO


SONETO
Lino Vitti

Dois quartetos rimados a capricho,
dois tercetos de aprimorada rima,
e está pronto o famoso e grande “bicho”
do soneto que o mundo tanto estima.

Da montanha brutal ao carrapicho,
do verme ao astro que o infinito encima;
do ouro da mina ao caminhão do lixo,
tudo o que ao mundo anima e desanima,

é trançado um quarteto a outro quarteto,
em tudo o que de unido e de disperso,
na pequenina jóia de um terceto.

E na corrente azul do último verso,
há o momento supremo do soneto,
há a síntese a abarcar todo o universo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

URUTAU - 3 sonetos


URUTAU (I)
Lino Vitti

Na quietude da noite outonal e estrelada,
trazida ao perpassar de uma brisa que chora,
ferindo a solidão – casquina a gargalhada
do pássaro infeliz a prenunciar a aurora .

De onde vem? Por que vem? Em que galho ou ramada
o exótico urutau tece o ninho em que mora?
É um mistério talvez, ou talvez seja nada,
pesadelo quiçá de uma lenda encantada.

Sonâmbulo da treva, o seu cantar assusta,
agouro fantasmal, fantasma taciturno,
oh! como foi-lhe a sorte ingrata, atroz, injusta!

Pior que, feio urutau, esse piar soturno,
esse canto que dói, que entristece e desgusta,
qual triste gargalhar de um espectro noturno?

URUTAU (II)

A noite vai em meio, o silêncio é uma tumba,
o respirar da brisa é um gemido tristonho,
a escuridão parece um pavoroso sonho,
algo muito especial transformado em macumba.

De súbito, porém, dentro da catacumba
da quietude roceira escuta-se enfadonho
o sincompado pio errático e medonho
com que o estranho urutau a solidão retumba.

Incógnito duende, agourento poeta
povoa de mistério a vida ao derredor...
É um pássaro, um fantasma, uma alma anacoreta ?

E quando a lua aponta envolta em seu palor
o canto do urutau dentro da noite quieta,
é um rude gargalhar soturno e assustador.

URUTAU (III)

(Na vastidão noturna do campo, o urutau desfere
seu canto enigmático, como uma mensagem de
de profunda solidão, um monge a entoar seu
cantochão penitencial no recesso misterioso de
um convento)

Caia do céu cinzento a chuva milionária,
abrase o ínclito sol tostando em alto grau;
uive o vento, a gemer, uma fúnebre ária,
vibre o seu martelinho o mestre picapau,

lá está ela, em silêncio, a estátua do urutau.
imóvel como posto em urna mortuária.
Mimetismo feliz de um ressequido pau,

ave-mistério rude, estoica, solitária.
Quando ouves do urutau a voz estranha e vaga
podes crer que ele ri da vida caricata

- mensageiro abismal do espírito da terra.
Quando ouves do urutau a voz dorida e aziaga,
cabalístico e feio a gargalhar na mata,
é a solidão que canta e, à noite humana, aterra.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Campestre

CAMPESTRE
Lino Vitti

No milagre rural à beira de um estrada,
banhada pelo sol qual divinal oferta,
com guirlanda estelar quando a noite é fechada,
circundada de mata ou de amplidão deserta,

a choupana cabocla é convite que agrada,
a porta nunca fecha e a janela está aberta.
E a cristalina voz da ingênua meninada
é uma graça roceira enchendo o dia alerta.

Acredito que ali, debaixo desse teto,
more um mundo feliz de encantos e de afeto,
um lar entretecido em amor e carinho.

De certo vive lá dona felicidade,
pois dizem que ela adora e quer essa humildade
que é a riqueza de um rancho à beira do caminho.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Liberdade Campestre

(Horto de Rio Claro - pintura de Gracia Nepomuceno)

LIBERDADE CAMPESTRE
Lino Vitti

Quantas vezes me encontro em meio à liberdade
de um descampado verde em pleno meio-dia,
noivando a luz do sol, amando a imensidade,
solitário e feliz, de alma quieta e bravia.

Não vejo ao meu redor fantasmas de maldade,
não ouço a humana voz que ilude e me entedia.
Sinto a brisa fugaz – invisível deidade –
a beijar-me na fronte em doce rebeldia.

É delícia viver horas de sol de outuno
num lúcido conúbio, embriagado de incenso
das corolas florais, num lírico abandono.

E enquanto o dia flui assim, comigo penso
a vida não ser mais que um sol posto no trono
da vertigem azul de um céu nítido e imenso.

domingo, 11 de julho de 2010

Fotos em família

O poeta e a esposa, sob a guarda de um genro e da única nora, Nair
O Príncipe dos Poetas Lino Vitti, a esposa Dorayrthes e alguns dos netos
Foto de uma reunião do clã Vitti




sábado, 10 de julho de 2010

O Peregrino

O PEREGRINO
Lino Vitti

“Oh! Santa Cruz da estrada,
santa cruz da encruzilhada,
santa cruz desprezada,
santa cruz do meu rincão,
todas as vezes que chego me apareces,
braços abertos como se estivesses
a pedir-me um abraço e eu dar-te preces
repletas de recordação...”
São versos de um poeta que perambulou muitas vezes pelos caminhos rurais, ora sob o olhar magnífico do sol, ora sob o negror das trevas da noite sem luar ou espiada do alto pelo plenilúnio, e que em tais andanças descobriu sempre as misteriosas cruzes de estrada, denúncias irretorquíveis de que ali, aos pés do quase sempre tosco símbolo do Sacrifício do Calvário, deve repousar o esqueleto vagabundo de um caminhante estradeiro, do comparsa de algum caso amoroso, de um assaltante de caminhos apanhado pela tocaia do inimigo invisível, de um misterioso personagem vindo de plagas distantes e que, a meio caminho, encontrou a alfangedora da vida que lhe decepou os passos e o destino.
A cruz, decantada pelo poema do vate, erguida humilde na forquilha barrancosa da encruzilhada, era cuidadosamente mantida pela piedade dos sitiantes das imediações, embora nem todos conhecessem o porquê ou os porquês de sua existência , de sua longa existência aliás e a maioria dos moradores adjacentes ou passantes por aqueles caminhos que levavam a destinos incertos e misteriosos como os há sempre nas terras , como aquelas de então, tomadas pela selva virgem e enigmática – olhasse para ela com sentido sombrio e às vezes temeroso. Protegiam-na um teto de telhas e paredes de tijolos- um pequenino templo- com o lenho, aberto em cruz, devidamente fincado em soco de pedra, como um altar. Corujas e urutaus vinham desfiar seu canto fúnebre no silêncio da noite, como se a alma penada do soterrado viesse do além para amedrontar os aventureiros viandantes das altas horas, que retornavam dos bailes, dos namoros, das rezas, das serenatas, das visitas aos parentes.

* * *
- Chico – recomendou a mãe - não volte tarde demais. Você
sabe muito bem que depois da meia noite , há assombrações, fantasmas, sacis, e tudo quanto é alma penada... A santa cruz!!!...
- Não, mãe... Volto logo, logo... E não tenho medo de nada
dessas ilusões ... O meu corcel aqui é um pedaço de bom...
E acariciava as crinas do fogoso animal. Cavalgou, o coração prematuramente aos pinotes, só de lembrar que o destino seria a casinha branca e acolhedora, toda transpirando felicidade, em cuja janela – mágico olho a espiar as distâncias campestres - o estaria esperando decerto outro coração aos pinotes como o seu. E lépt...lépt...lépt... partiu rumo ao sítio da namorada, um chuchu de menina, no ponto de ser colhido pelo primeiro aventureiro namoriscador.
Passou pelo morro, pela baixada, pela restinga da mata virgem. A paisagem rutilava sob o olhar do sol da tarde encantadora, dessas tardes que a maioria do mundo não conhece, porque as atenções humanas em geral não sabem ver beleza e poesia numa paisagem da roça, não sabem contemplar um sol que se despede devagarinho , como que saudoso de sua viagem luminosa pelo céu. E lépt...lépt...lépt. Passou pela encruzilhada – fatídica no dizer da mãe . A santa cruz que já assistira à glorificação lucífera da tarde, dormia agora sob a mansidão do luar pleno. Estrelas tremelicavam no céu...
E lépt...lépt...lépt... A casa da namorada sorriu-lhe como uma imensa promessa de amor... De sonho!... De felicidade!..O moço da roça quando ama, ama de verdade. Intensamente...
Mas as horas de amor , de sonho, de felicidade, são ligeiras e voam. Oito, nove, dez, onze horas...meia noite! E o Chico esqueceu a encruzilhada, a santa cruz, os fantasmas, as corujas, o urutau... e até a preocupada mãe, ainda em vigília, à espera do namorador. Só via a sua futura metade, só entendia a linguagem do amor. E como gente da roça não leva relógio consigo, mormente nas horas em que se ama, Chico esqueceu do tempo. E como não há bem que sempre dure, chegou o momento de voltar, de reencontrar o lar, de rever a mãe que ele era, sem dúvida, bom filho.
Abraçou e osculou (namorados roceiros não beijam, osculam) a noiva , triste por ver seu amado partir...
E lépt... lépt...lépt... O corcel comia quilômetros de estrada campestre, ansioso por retornar também ao seu pasto, rolar na grama naquele gesto significativo dos animais que com ele parecem tirar do corpo toda a canseira da viagem. De repente... empinou as orelhas, fungou surdamente, pinoteou e ameaçou deitar fora o cavaleiro. Chico corcoveou sobre a sela, firmou-se nos estribos como pôde, esticou as rédeas e quase vai de ventas para o solo.
-Que é isso, besta...Vamos lá... Bota o casco na estrada...O cavalo não colocou casco nenhum pela estrada a fora. Foi quando Chico botou os olhos assustados sobre a santa cruz, a esta altura, como que iluminada qual um salão de festas. Estava na encruzilhada fatídica. Chico arrepiou –se todo, a besta saltou de lado, querendo retornar... Situação crítica para cavalo e cavaleiro...Todas as histórias fantásticas ouvidas até então começaram a desfilar-lhe pela memória. As bolas enormes luminosas que passeavam pelo espaço em noites escuras, o caso da fera que esperava, à boca da mata, os viandantes noturnos, as gargalhadas misteriosas que ecoavam pelo sertão como se um fantasma se divertisse com as horas altas da noite, e luzes distantes que corriam, retornavam, apagavam-se, rebrilhavam, nas encostas ou nos vales... A espinha de Chico, sempre corajosa, arrepiava e a fronte suava...
O medo, o susto, a crença , diante da fatalidade crescem, crescem, ficam imensos. Onde há o canto de um pássaro, escuta-se a voz de um fantasma! Onde há o estalo de um galho seco supõe-se o passo da assombração! Onde uma chama de vela tremula dentro da treva julga-se ver o incêndio ! Onde a brisa amacia uma fronde ouve-se o assobio do saci!.. Imagine-se então, à meia noite, na boca de uma encruzilhada, onde uma santa cruz - santuário de mistérios- de súbito se ilumina com um clarão enigmático, que sensações não poderia causar àquele solitário personagem e a seu cavalo? O pavor, para dizer o mínimo, toma conta da mente humana, transforma-se de corajosa em covarde, muda o valentão em poltrão, faz de um ser humano um trapo perdido dentro da solidão e da surpresa.
Chico esporeou seu fiel comparsa de aventura que não merecia a pua das esporas, mas como fidelidade de cavalo se equipara à fidelidade do cão, o cavalo pôs-se em brios, voltou ao caminho e lépt...lépt...lépt... partiu como um raio, ecoando seu trote pela noite enluarada a fora, com o amo que , sem olhar para trás, agarradinho à sela e aos estribos, voou e chegou, arquejante, à casa materna, onde a velha o aguardava, ansiosa e feliz por revê-lo são e salvo, embora pálido e suarento.
O leitor amigo, decerto está curioso, não pelo desfecho, mas por aquela luz fantástica e inesperada que iluminou a pequenina capela da santa cruz da encruzilhada. E tem razão ele, pois é próprio da curiosidade saber porque, repentina e estranhamente, surge um clarão a iluminar de vida aquela relíquia simbólica das estradas rurais, como se fora a alma dos mortos aí sepultados, a brotar em luz do chão socado e cheirando à terra, rumando para o céu. Suponha-se você, leitor, numa encruzilhada da roça, sozinho como um ermitão, com a fantasia avolumada pela solidão noturna e o vago iluminar da lua cheia, transformado em testemunha súbito de uma luz enigmática que deixa sair seus raios misteriosos de dentro de uma santa cruz onde foram soterrados caminhantes desconhecidos, peregrinos caminheiros do mundo, pedintes , anciãos, quiçá assassinos e ladrões!!! Ah! É dose cavalar de pavor!
Entretanto, nada mais do que a tênue chamazinha de uma vela, acesa pelo peregrino que escolheu a “santa cruz da estrada, a santa cruz da encruzilhada”, como recitou o poeta, para seu repouso noturno. O viajor porém findou aí seu destino e a luzinha como uma bênção de Deus e que tanto apavorou o Chico namorador, serviu para iluminar- lhe o sono eterno. A santa cruz se fez altar para esse ritual fantástico, porque quem peregrinou a vida toda pelos caminhos desertos e poeirentos , tinha direito a findar seus dias junto a uma cruz de estrada.
O viajante noturno, todavia, que não compreende a graça e a glória da peregrinação pelo mundo, avançando caminhos, repousando e morrendo debaixo dos braços de uma cruz, sob as trevas, sob o luar, sob o frio, os ventos, as chuvas, assusta-se, atemoriza-se, foge espavorido quando uma simples vela tremula ao lado dela para acompanhar a agonia do peregrino que tem nela amiga e companheira na vida e na morte.
O peregrino é a alma dos caminhos ermos e caracoleantes. Seu lar são as cruzes que as estradas colecionam e lhe oferecem para um repouso de uma viagem que não termina nunca, porque a morte também é peregrina e não tem morada certa, caminha pelo mundo como todos os peregrinos e viajores sem destino. E a santa cruz da estrada que o poeta cantou, nada mais seria do que a homenagem aos peregrinos que não se assustam com as histórias, às vezes horripilantes que enfeitam sua vida errante, seu peregrinar sem termos .

Sonho e Realidade

SONHO E REALIDADE
Lino Vitti

Desfrutando o prazer do amor e liberdade
Do ilusório sonhar que a vida nos oferta,
procuramos fugir da escrava realidade
e buscar, de contínuo, uma estrada deserta.

A paisagem se estende iluminada e aberta
e a batuta do sol orquestra a imensidade .
Certamente supões que a vida é coisa certa
Mas tudo é tão incerto e tudo é sem verdade!

Estamos ao dispor das dores que tememos,
Disparado corcel nos leva a sua ilharga
Para um país qualquer de insólitos extremos.

Muitas vezes a estrada é florescida e larga,
outras tantas porém , com pesar, percebemos
que a dura realidade os passos nos embarga.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

As Vozes da Floresta

AS VOZES DA FLORESTA
Lino Vitti

Na longínqua infância, nascido em paragens roceiras, bebendo a saúde dos ares campesinos, tostando a epiderme frontal sob os raios intensos do sol, ouvindo os hinos alados da passarada silvestre, contemplando o colorido das flores tropicais, atento a todos os rumores da floresta virgem, costumava eu penetrar esse templo verde da criação, quiçá para satisfazer os nascentes pendores poéticos que evoluiriam até os dias de hoje navegados no barco de 90 anos, longo prêmio de vida de que sou grato a Deus.
Só quem, como eu, tiver essa felicidade, entenderá quão maravilhosa é a contextura de vozes e sons que a floresta reserva para aqueles que saibam ir até ela para ouvir-lhe os segredos, os rumores multiplicados, as vozes intensas ou sussurradas que ela guarda para quem a ama, para quem a compreende, para quem a quer decifrar e a busca com esse intento encantador e feliz.
Prestemos atenção, calemo-nos porque amanhece e a floresta desperta e a vida animal da floresta acorda, cheia de saudações e cumprimentos ao deus sol que se compraz em enviesar seus raios por entre a folhagem onde dormiram o sono da beleza florestal, aves, animais, insetos, embalado pela suavidade da brisa noturna que sempre vem envolver a mata como um lençol diáfano para cobrir o sono da passarada e dos insetos múltiplos que na floresta moram.
Como canta divinamente bem o sabiá de peito vermelho, uma jóia de penas rubras a enfunar-lhe o peito, de onde brota a melodia, diria eu, ensinada por mágicos da música. Fusas e semifusas, às vezes mínimas e semínimas, ah! meu canoro sabiá, onde foste encontrar essa página de sons maviosos com que saúdas o vir e o despedir do dia? E esse martelar sobre madeira, será algum carpinteiro madrugador que montou sua oficina em meio do arvoredo? Que nada! É simplesmente o pica-pau que resolveu martelar os troncos à cata de alimento. E a floresta ressoa certamente! Olha aí agora! Que gritaria de guerra essa que chega aos ouvidos do visitante matinal! ? Sabem, é um bando de maritacas que deixou o pouso e saiu matracando por sobre o arvoredo em busca do desjejum da manhã.
O visitante desse reino de verdores e sonoridades aladas, pára por momentos, porque o que lhe chega ao ouvido tem o poder de deter-lhe os passos. Que variedade de notas, que longa ópera musical! Tudo se transforma numa maravilhosa composição bethoviana, ou num oratório mozartino. São muitas as gargantinhas aladas que querem participar deste acordar da mata, juntando suas canoras partituras, umas a outras, num coro espetacular de sonoridades. E o visitante se extasia, o visitante fica de boca aberta e ouvidos mais abertos ainda, para não perder uma nota só daquela orquestração de pássaros que acordam.
Quando a floresta acorda, acorda a sinfonia de seus pássaros, muitas vezes unida à sinfonia dos animais silvestres que urram, guincham, gritam, entrelaçam-se numa estranha orquestra de vozes, para mostrar que lhes compraz, e muito, saudar a chegada da luz, participar da festa do amanhecer na mata, conversar, à sua maneira, com a vida e com o vir da luz.
Haveria ainda a dizer aqui algo mais sobre o trilar dos grilos sob a alfombra, o zumbir das abelhas em busca de flores e mel, o estalar de galhos secos que estouram de repente, o eco de rumores distantes que reboam pela floresta a dentro, ruídos de passos sobre as folhas ressequidas do chão, grunhidos e ulos, tudo compondo essa orquestra indescritível, mas real, das vozes da floresta virgem, de que tenho saudade, porque hoje a floresta desapareceu pela ação nefasta do homem e com ela todas aquelas vozes significativas da vida que em seu recesso acolhedor habitavam.
Quiçá se houvera o IBAMA, floresta virgem ainda fosse o que escrevi acima.!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Eterna Manhã

ETERNA MANHÃ
Lino Vitti

Através do rendado da folhagem
o sol enfresta a luz numa apoteose.
Veste o infinito a mais rubra roupagem,
acorda tudo em lírica neurose.

Amam-se terra e céu – feliz simbiose –
amam-se o bicho manso e o selvagem..
A passarada trina em magna dose,
estendeu-se a bucólica paisagem.

E a manhã alegórica e vermelha
à outra manhã longínqua se assemelha
quando Jeová seu “Fiat” proferiu.

Desde então no universo em movimento,
obediente ao divino mandamento,
a flor do amanhecer em luz se abriu.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Meus Noventa Anos!!!

O bolo com as velas que significam toda uma vida de amor, dedicação e Poesia
!O Parabéns a Você!

Familiares foram levar seu abraço ao Príncipe pelos 90 anos

O casal recebe a hóstia em agradecimento a tantos anos bem vividos


Meu Blog... Que presentão!

MEU BLOG...QUE PRESENTÃO!
Lino Vitti

Nunca sonhava aos 90 anos de uma existência meio roceira, meio citadina, fosse agraciado com um presente desse tamanho, pelas queridas Ivana Maria França de Negri e Mara Bombo: um inacreditável blog, incrustado na barafunda internética, recheado com tudo quanto escrevi em livros e jornais durante minha vida litero-jornalística-livresca.
Admirável, inconteste, generoso, completo, locupletado, o blog de Ivana e Mara, responde pelo http://poeta-linovitti.blogspot.com/ , para aqueles amigos, poetas, escritores, jornalistas que se derem ao trabalho, quiçá agradável, de conhecer um tanto da vida literária e diria até completa deste poeta citadino-roceiro, que tentou ser padre na vida, mas os desígnios de Deus foram outros, acabando por ser servidor público do Poder Legislativo Piracicabano, e redator do Jornal de Piracicaba, em ambos cargos aposentado, e através de cujo convívio encontrei amigos imensos, admiradores, companheiros, incentivadores, compreensão e acolhida literária, e agora, essa maravilhosa invenção de um blog inesperado, mas valiosíssimo, com que presenteado sou por capacidades literárias que dignificam e ilustram o mundo da prosa e poesia piracicabanas.
Ser poeta, às vezes, vale muito. De modo especial se a sua poesia for reconhecida e considerada por outros poetas e poetisas e pelos amigos leitores que sempre existem, ora em pequeno, ora em grande número. A principio, não me julgava poeta nenhum, mas com o andar do tempo, fui sendo lido e apreciado por outros e por críticos dessa arte imorredoura que tantos gênios nos deu. E aí tive que corresponder aos que outros achavam, não desistindo jamais de poetar em jornais, revistas, semanários, livros. Um dia, como prêmio ao meu trabalho poético fui surpreendido com uma coisa que nem sabia o que era – um blog – graças à iniciativa delas. E aí o blog criado foi crescendo, foi crescendo, está grande e mostra crescer mais, não por minha arte ou fôlego, mas pela arte e fôlego dos amigos poetas e poetisas, de modo especial as citadas. Quem quiser constatar a verdade, veja o http://poeta-linovitti.blogspot.com/ e mandem um recado para as duas brilhantes criadoras. Eu lhes digo: Deus lhes pague.
A mim só resta dizer Deus lhes pague a essas expoentes culturais da minha terra artista e feliz por contar com gente tão letrada, e estender o muito obrigado aos já quase 1000 consultores do blog e aos inúmeros amigos(as) que diariamente registram nessa belíssima página internética os parabéns a mim e às suas idealizadoras.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Câmara Municipal

foto Fabrice Desmonts



CÂMARA MUNICIPAL
Lino Vitti

Muitos há que ignoram ainda o que seja a Câmara Municipal, ou Câmara dos Vereadores. Lêem notícias na imprensa, às vezes criticando ou muito raras elogiando, nem sempre porém dizendo o que seja e porque existe.
Sou aposentado como Diretor da Secretaria da Câmara de Vereadores de Piracicaba à qual dediquei meu trabalho durante 38 anos, portanto me julgo apto a escrever alguma coisa sobre esse que constitui o poder legislativo do Município, isto é, o poder público que aprova as leis, válidas para todos nós que vivemos dentro dos limites municipais. Cada Município brasileiro tem a sua Câmara de Vereadores cujas atuações estão à vista de quem quer que seja, cujo trabalho pode ser assistido nas sessões que todas elas realizam e quando os representantes municipais do povo discutem, analisam, aprovam ou rejeitam os projetos de lei, oriundos do prefeito municipal ou de qualquer vereador da própria Câmara, através da iniciativa legal e constitucional que a cada poder pertence.
Ora, como os Vereadores são “nomeados” pelo voto popular, escolhidos pelo critério pessoal de cada cidadão, é natural que a Câmara Municipal se constitua de uma variada capacidade de culturas e inteligências, nem todas “instruídas” suficientemente para o feitio das leis que devem reger as comunidades. Entretanto é lógico reconhecer a vontade de cada qual de fazer o melhor, de aprovar o melhor, de oferecer ao povo as melhores leis, como constatei pessoalmente durante todos os anos em que servi, como redator de Atas, de projetos de lei, de outras proposições, de correspondência, de autógrafos, e até de discursos, defendendo ou condenando os erros ou as imperfeições naturais de um governo, constituído por voto do povo que é uma feliz miscelânea de saber, de cultura, de conhecimentos, de vontade, de desejos de ser útil ou condenar os erros e de dar ao Município e à sua população as melhores e oportunas leis.
Durante tantos anos no exercício de cargo tão condigno verifiquei que as boas intenções e a vontade de acertar sempre estiveram presentes quer entre os membros do Legislativo, quer dentre os Executivos que passaram pelo pódio governamental municipal e se parece, às vezes, haverem cometido algum erro, devêmo-lo levar à conta de extemporâneas causas, jamais pelo fato de quererem prejudicar o povo ou denegrirem o importante cargo ocupado ou ainda “traírem” os seus votantes, integrantes da comunidade municipal.
Sejamos coerentes com o nosso voto e dediquemos aos autores de nossas leis menores o respeito que merecem, sem duvidarmos nunca de suas retas intenções de ordem pública e seu desejo e sua atuação para corresponder aos propósitos dos munícipes que os colocaram no cargo certamente importante, para servir com sua, mesmo muitas vezes limitada capacidade, ás exigências de um eleitorado sempre pronto a acompanhar a sua atuação e demonstração do porquê foram eleitos e guindados ao nobre dever de legislar.

Mendicantes

MENDICANTES
Lino Vitti

Rolam os tempos, rola a idade, qual se fora
uma nuvem que corta o céu anil e escampo.
E me dizem que a vida, embora encantadora,
é tanto e tão fugaz qual fugaz pirilampo!

O mendigo a pedir é um quadro triste. Tampo
o velho olhar perante a cena magoadora.
E com dorido estilo este desenho estampo,
desgraçada visão que o tempo mais desdoura.

O mendigo! Onde estão os sentimentos nobres
e aquele que o amor proclama aos entes pobres,
a esse espetro ancestral, amigo da sacola?!

De rastros pela rua ao sabor do atro inverno
eu vejo no mendigo um condenado eterno,
uma estendida mão suplicando uma esmola!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Feio? Culpa do Luar...

FEIO? CULPA DO LUAR...
Lino Vitti

Poetas, escritores, pintores, músicos e cantores, atribuem ao luar belezas e encantos, estranhável então que eu intitule este trabalho redatorialístico com um título onde se negam essas qualidades naturais do astro noturno, outrora amigo dos namorados e dos românticos, hoje já não tanto porque o homem foi mexer lá no infinito com a Lua cheia, fazendo caminhar por ela os sapatões de americanos descobridores primeiros desse continente celestial. E aí a Lua ficou conhecida como uma coisa estéril, sem rios, sem verde, sem gente, sem aves, sem animais. Apenas coberto de crateras mortas, inadequada portanto a provocar quaisquer pensamentos ou sentimentos de amor e romantismo. Começo este trabalho inserindo nele selene porque está muito ligada ao que vou desenvolver adiante, como principal motivo desta triste história de um raro pássaro de que se ocupou a imprensa semanas atrás.
Chamada de urutau o que muitos ignoram pois é raro mesmo o aparecimento dele à vista do homem, essa ave de vida e hábitos noturnos, foi mencionada pelo “O Estado”, despertando a curiosidade popular, vista num logradouro da ciclópica S. Paulo . A imprensa local em edição de semana atrás, teve a felicidade de fotografar e publicar a figura do urutau que por casualidade rara veio morar num poste de uma rua desta cidade, onde recebeu o olhar curioso de muita gente.
O que sobressai no estranho pássaro é a feitura. Em minhas andanças pelos bairros de Santana, Santa Olimpia e Fazenda Negri , tive a possibilidade de conhecer, já faz alguns anos idos, a rara ave , ao vivo, como diz a tevê, pois só tinha uma vaga idéia do que fosse o urutau porque entrava apenas como objeto de brincadeiras em meus tempos de longínqua infância. Havia crianças que se diziam ser o urutau e saiam pelo terreiro de braços aberto, soltando gargalhadas, porque o canto do pássaro é realmente um gargalhada esquisita em meio da madrugada da roça. Deu-me conhecimento dele o teatrólogo de Santa Olímpia Francisco Degáspari. É ave de curiosos costumes, foi explicando o Chico. Veja lá: ele fica pousado na ponta do galho seco mais alto de uma árvore, por aproximadamente 40 a 50 dias, imóvel, mimetizado com o galho da mesma cor de suas penas, chocando o único ovo que ele bota e fixa naquela pontinha que é o seu ninho para a criação. O filhote aparece com a cabecita entre as penas da barriga paternal ou maternal, cresce, alimentado pelo urutau com besouros, mariposas, borboletas, abelhas e lagartixas, que porventura apareçam circulando ao redor das lâmpadas da rua, durante a noite. Ao vir dos albores da manhã, o urutau solta seu canto (gargalhada assustadora para muitos que não o conhecem) e vai para o pico do galho seco recolhendo-se na mesma imobilidade e silêncio durante todas as horas da luz do dia. O urutau – acentuou o amigo Francisco – deve ser uma ave emigratória, pois só aparece por estas bandas nos meses de setembro, outubro e novembro, sumindo nos demais meses do ano, não se sabe para onde.
O urutau é um pássaro feio. Digam-no os que o viram ao vivo ou em fotografia. Essa feiura tem explicação folclórica. A lenda conta que certa jovem feia, estava ansiosa por casar, entretanto devido às suas poucas qualidades de miss universo, sobrou como solteirona e um dia desanimada e descrente do mundo fugiu enveredando por um caminho em meio da floresta. Acontece, como em todas as histórias desse gênero que em meio ao caminho, em plena noite de lua cheia, sentou sobre um tronco à beira da floresta... Para surpresa da infeliz, aparece um cavaleiro que ao vê-la em pranto e solitária, condoeu-se dela e para a consolar, sentou-se ao lado. A sombra das árvores encobriam o rosto da moça feia. Conversaram. Tempo decorrido a lua foi galgando o céu e o cavaleiro – decerto um príncipe – foi constatando claramente o quanto feia era a jovem. E então perdeu todo o entusiasmo, levantou, montou a sela do rico cavalo ajaezado e partiu, deixando a desgraçada moça feia envolta em pranto.
Foi o momento em que apareceu a bruxa. Aproximou-se da jovem, soube de sua desventura e indagou dela o que desejava ser. Um pássaro, foi a resposta. E imediatamente, graças aos poderes mágicos de uma bruxa e à tristeza e desconsolo no amor de uma infeliz mulher, apareceu no mundo o urutau, sem penas coloridas, sem canto que preste, sem que desfrute a luz do dia, sem que tenha um ninho fofo e belo para seu filhotinho, sem nada que lembre a beleza e a maviosidade de um pássaro feliz.
E tudo por quê? Porque um raio de luar teve que espancar a sombra que cobria a feiura de uma infeliz desiludida e mostrá-la a um príncipe aventureiro que parou no caminho, talvez movido pelo amor, supondo tê-lo encontrado naquela figura de desespero sentada, em prantos, à beira do caminho.

domingo, 4 de julho de 2010

Paráfrase de "As Pombas" de Raymundo Corrêa


VAI-SE O PRIMEIRO VERSO
Lino Vitti

Vai-se o primeiro verso despertado
vai-se outro, mais outro, enfim dezenas
de versos saem do cérebro cansado
mesmo um pobre soneto seja apenas.

Quando da vida o vento malcriado
sopra e destrói estrofes tão serenas
ao invés de voltarem num bailado
elas se vão ao léu com muitas penas.

Também do coração onde amontoam
os versos, como as pombas, tristes voam
como voam as aves dos pombais.

No fim da amada vida as rimas soltam
mas se aos pombais as doces pombas voltam
ao coração, os versos, nunca mais!!!

sábado, 3 de julho de 2010

Bom dia!


BOM DIA!
Lino Vitti

Devagarinho, a noite aos poucos se despede
escondendo no poente o mágico negror.
Parece-me que a luz do dia grita e pede
licença para entrar e dar seu esplendor

O tempo! Esse valor que nem sempre se mede
oferece-me a vista o mais vivo calor.
E a natureza toda, às palmas, me concede
as belezas que guarda em seu cofre de amor.

Em pouco, emocionado, o dia se apodera
desde o fundo do vale ao mais alto do monte,
da lúcida manhã que explode, e canta, e impera.

Ouço o bisbilho, à toa, a vir de alguma fonte,
pipilos e rumor que cresce e deblatera:
é o bom dia do sol surgindo no horizonte.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Jardim Sorridente


JARDIM SORRIDENTE
Lino Vitti

Quando a manhã acorda num bocejo
Como que perfumado, amplo e feliz;
E num festivo e inopinado adejo
Se nota o despertar dos colibris;

E o sol desponta num imenso beijo
Pondo por tudo brilhos de verniz ;
Enquanto a brisa me oferece o ensejo
De ouvir perfumes pelo meu nariz,

Vou ver a festa que o jardim prepara
para saudar o dia mal desperto,
para beber, do dia, a luz mais clara.

Contemplo o espetáculo mirim
E recebo, a gritar, a céu aberto
O sorriso das flores do jardim.

PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA

CURRICULUM VITAE
( Síntese de Vida)
NOME – Lino Vitti
IDADE – 08/02/1920
ESTADO CIVIL – Casado, em únicas núpcias, há 56 anos, com a Professora Dorayrthes Silber Schmidt Vitti
FILIAÇÃO – José e Angelina Vitti
NATURALIDADE – Piracicaba, Estado de São Paulo –Brasil
Bairro Santana , Distrito de Vila Rezende
VIDA FAMILIAR
Casamento Civil e Religioso em comunhão de bens, Pai de sete filhos: Ângela Antónia, Dorinha Miriam, Rosa Maria, Fabíola , Lina, Rita de Cássia, Eustáquio.
VIDA PROFISSIONAL
Aposentado como Diretor Administrativo da Câmara de Vereadores de Piracicaba, e como Redator do “Jornal de Piracicaba”. Exerceu atividades no comércio, no Magistério, na lavoura até os l3 anos, na municipalidade local, como bibliotecário, lançador de impostos, protocolista, Secretário Municipal.

VIDA CULTURAL
ESCOLA PRIMÁRIA –
Grupo Escolar “Dr. Samuel de Castro Neves”, Santana, seminarista vocacional ao sacerdócio por seis anos, no Colégio Santa Cruz, da cidade de Rio Claro (SP), onde cursou humanidades, línguas, religião, ciências, matemáticas, música.
CURSOS –
Formou-se Técnico em Contabilidade, lecionou latim, francês, datilografia.

VIDA RELIGIOSA
Católico, Apostólico, Romano, fez curso de religião em seminário dos Padres Estigmatinos, foi organista da Catedral e da Igreja de São Benedito, de Piracicaba, e Congregado Mariano.
VIDA LITERÁRIA
Bafejado por ensinamentos de sábios sacerdotes em colégio de formação religiosa, recebeu extraordinário acervo literário que lhe propiciou enveredar pelo caminho da poesia, da crônica, dos contos, do jornalismo, havendo editado de l959 a 200l sete livros de poesias e contos, com edições em milheiros de volumes, os quais estão aí para satisfazer o gosto daqueles que apreciam a arte literária.
São seus livros : “Abre-te, Sésamo”, l959; “Alma Desnuda”, l988; “A Piracicaba, Minha Terra”, l99l; “Sinfonia Poética”, de parceria com o poeta Frei Timóteo de Porangaba; “Plantando Contos, Colhendo Rimas”, l992; “Sonetos Mais Amados”, l996 e “Antes que as Estrelas brilhem”, 200l. O poeta conta ainda com o prazer de haver composto hinos para diversos municípios, bairros rurais, entidades sociais diversas, continuando a colaborar ainda, após os 83 anos em colunas literárias e com artigos de ordem geral em jornais da terra.
Faz parte da Academia Piracicabana de Letras que lhe outorgou o título honorífico de “PRÍNCIPE DOS POETAS DE PIRACICABA’.
Foi-lhe concedida Pelo Município de Piracicaba, através de sua Secretaria da Ação Cultural, a MEDALHA DE MÉRITO CULTURAL, “ Prof. OLÊNIO DE ARRUDA VEIGA’; é detentor do TROFÉU IMPRENSA, concedido pelo Lions Clube de Piracicaba, centro, e da MEDALHA ITALIANA, concedida pelo governo italiano de Benito Mussolini aos alunos de escolas e seminários de origem daquele país que tivessem se destacado em redação de trabalhos literários escritos na língua de Dante.
O Município de Saltinho, para o qual contribuiu com o Hino dessa comunidade municipal , conferiu-lhe o título de “Cidadão Saltinhense”.

DISCURSO

Por ocasião do lançamento do livro de poesias “Antes que as estrelas brilhem “, pelo poeta Lino Vitti foi proferido o seguinte discursos:

Exmo. Sr. Heitor Gauadenci Jr. dd Secretário da Ação Cultural

Exmo. sr. António Osvaldo Storel. dd. Presidente da Câmara de

Vereadores de Piracicaba

Exmo.sr. Moacyr Camponez do Brasil Sobrinho, dd. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico

Exmo,. sr. Henrique Cocenza, dd. Presidente da Academia Piracicabana de Letras

Exmo.. Sr. Ésio Pezzato , anfitrião desta solenidade

Senhoras e Senhores

Pela sétima vez (graças a Deus) em minha vida lítero-poética vejo-me guindado a uma tribuna improvisada (o que é bom porque torna o fato mais popular), para proferir um discurso de agradecimento, ao lado da oferta de um novo livro de versos. É teimosia essa de poetas em desovar sua produção para que mais gente participe de suas tiradas, muitas vezes fora de forma e de ambiente, mas que o poeta não vê porque , ao editar um novo livro está cego pela emoção , como se fosse a vez primeira. Está aí o Ésio Pezzato, responsável por mais esta minha invasão no mundo das letras poéticas, para dizer se não é assim. Para dizer se não sofre também dessa doença feliz de editar livros e mais livros a ponto de perder a conta, já que a esta altura ele não sabe se já está no décimo ou décimo primeiro. E ainda continua batendo dedos de métrica, sabemos lá por quantos anos ainda !

Tenho um ex-colega de seminário, prof. Hildebrando André, aposentado como professor universitário e com o qual mantenho longa e pródiga correspondência, que não se cansa de enaltecer a felicidade de Piracicaba contar com tantos poetas e poetisas. Tem razão ele, pois se apenas dois deles já conseguiram editar l8 livros de poesia, imagine-se as centenas que seriam necessárias para dar um pouco de vazão a essa raridade intelectual que toma conta da minha terra!

Este meu livro vem à lume por obra e arte do prefeito José Machado , seu Secretário da Ação Cultural e de seu zeloso servidor Ésio Pezzato que se entusiasmaram diante da recitação de diversos poemas meus por um grupo de jograis, alunos da UNIMEP, e impressionados decidiram patrocinar a publicação deste livro, pois entenderam que Piracicaba poética merecia conhecer em mais profundidade o seu príncipe da poesia. E aí está, lindo e impecável, entregue às mãos do povo de Piracicaba, que indistintamente de cor, estudos, intelectualização , posses financeiras, categoria de trabalho, com religião ou agnóstico, jovem ou adulto, roceiro ou citadino, aí está, para quiçá, momentos de lazer e sonho. Sonho , sim, porque a poesia é terrivelmente sonhativa , vive no mundo da fantasia, alicerça-se nas bases da emoção e brota do âmago mais profundo do poeta, e para que as filhas de Eva não reclamem, da poetisa também.

Alguém me perguntará? Como é ser poeta? Juro, nunca pensei nisso. Acho que ninguém consegue ser poeta. Já é. Nasce feito, como dizem.

não é verdade Maria Cecilia, Ivana Maria, Ésio Pezzato , Prata Gregolim, Marina Rolim, Valter Vitti, Mario Pires, Saconi, e tutti quanti enfeitam com seus lindos versos as páginas do “ Jornal de Piracicaba, ou da “Tribuna Piracicabana , e assim também esse cacho imenso de livros poéticos que quase semanalmente são dados ao conhecimento e sentimento público de nossa terra ? Tornando-se um privilégio de uma cidade, como disse alhures o supra citado meu colega seminarístico Hildebrando André. ?

Não se suponha que para ser poeta é preciso ter nascido em berço de ouro ou em centros intelectuais de enorme repercussão. Nada disso. Tenho um soneto que define bem esse fato. É assim: “Eu não sou o poeta dos salões / de ondeante, basta e negra cabeleira] não me hás de ver nos olhos alusões / de vigílias, de dor e de canseiras. // Não trago o pensamento em convulsões,/ de candentes imagens, a fogueira. / não sou o gênio que talvez supões/ e não levo acadêmica bandeira.// Distribuo os meus versos em moedas/ que pouco a pouco na tua alma hospedas / - raros , como as esmolas de quem passa. / Mas hei de me sentir feliz um dia/ quando vier alguém render-me graça/ por o fazer ricaço de poesia. // “ . Poetas e poetisas saem do nada , devem trazer o selo ou o bilhete de entrada nesse reino encantado desde o útero materno, embora ouse eu afirmar que a vida é também uma grande mestra , as influências da mentalidade circunvizinha,

o próprio meio ambiente, podem , em circunstâncias outras , plasmar um poeta .

Eu fui plasmado , por exemplo, por entre maravilhas campestres. A roça ou o campo são fantásticos criadores de poesia. Ela anda atapetando por todos os cantos a natureza, as gentes, os animais, os atos e fatos. e a cabeça daqueles com quem ela convive. E o poeta, criador por excelência, se abebera de todas as belezas esparsas pelas colinas, serras, vales e descampados , para transformar tudo em versos e rimas, ou em versos simplesmente, onde pululam , como cabritos silvestres, as figuras literárias, os tropos, as sínteses, as comparações, e todos os anseios que lhe vão no imo da alma. Para satisfação própria e para satisfação dos que convivem com o poeta. E´ por isso que se botardes olhos curiosos sobre meus poemas havereis de tropeçar a todo o momento com um motivo roceiro, pois trago uma alma plasmada pelas belezas rurais de Santana, Santa Olímpia , Fazenda Negri, e especialmente por aquela colina encimada ,no cocuruto, pelo prédio do grupo escolar, onde aprendi a ler e escrever e a poetar.

Peço desculpas por haver-me prolongado um pouco nestas elucubrações poéticas, desobedecendo aos conselhos do amigo Ésio que continua exigindo de mim discursos improvisados, o que seria tão para os ouvintes , que ansiosamente aguardam o momento de bater palmas acabando assim com a verborragia oratória.

Não posso entretanto encerrar esta breve alocução sem deixar consignados meus agradecimentos do fundo do coração ao prefeito José Machado ,ao seu Secretário da Ação Cultural Heitor Gaudenci Junior, ao seu sub-secretário poeta Ésio Pezzato, ao prefaciador Moacyr de Oliveira Camponez do Brasil sobrinho, aos queridos opinadores Maria Cecília Bonachella, Maria Ivana França de Negri, exímias poetisas, prof. Elias Salum e a minha filha Universitária Fabíola Vitti Moro, pela maravilhosa capa, Editores e toda equipe de funcionários , à minha esposa pela sugestão transmitida ao prefeito com relação ao advento desta obra, aos digitadores Nair , minha nora e neto Leonardo, e outros que possa ter esquecido, como é fácil em cachola idosa, - meus agradecimentos repito, pela reunião de esforços e trabalho que tornaram possível o advento de mais um livro de minha lavra.

Obrigado “ em geralmente” como dizem nossos cururueiros, aos que ilustraram com sua arte musical esta solenidade e assim também a todos quantos acharam um tempinho para vir prestigiar-me nesta tarefa de cultura e arte. Levem a certeza de que nada mais desejo do que engrandecer com minha poesia a terra que me viu nascer, a terra que me viu crescer, a terra que me proporcionou oportunidade para chegar a um cargo tão nobre quão dignificante de “Príncipe dos Poetas de Piracicaba”

Meu carinhoso obrigado também aos meios de comunicação, de modo especial “Jornal de Piracicaba”, na pessoa de seu Editor Chefe Joacyr Cury , de “A Tribuna Piracicabana”, na de seu diretor Evaldo Vicente, pela divulgação caprichosa deste evento que afinal nada mais é do que mais uma demonstração da exuberância cultural da Noiva da Colina.

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